Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Por ligação com o PCC, 24 policiais civis são presos

Prisão foi determinada pela Justiça após investigação do MP em São José dos Campos; 6 agentes permanecem foragidos

Bruno Ribeiro, O Estado de S. Paulo

30 Novembro 2017 | 13h44
Atualizado 30 Novembro 2017 | 23h19

SÃO PAULO - O Tribunal de Justiça de São Paulo determinou a prisão de 30 policiais civis que atuam na cidade de São José dos Campos, a 95 quilômetros da capital, acusados de tráfico de drogas por meio de ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC). Ao todo, 24 policiais se entregaram à Corregedoria da Polícia Civil nesta quinta-feira, 30, e seis são considerados foragidos. Além dos policiais, houve determinação da prisão de um ex-policial, uma advogada e quatro outros traficantes de drogas. 

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O secretário da Segurança Pública, Mágino Alves, informou que 11 dos policiais citados já eram investigados pela polícia por práticas similares às descritas pelo Ministério Público Estadual (MPE), órgão autor da investigação. “Não temos compromisso com erro de nenhum policial”, disse o secretário. “O ex-policial é na verdade um policial demitido em maio, por formação de bando, extorsão e peculato”, disse. 

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Entre os acusados, há um delegado e agentes que atuam em delegacias especializadas, como o Grupo Armado de Repressão a Roubos e Assaltos (Garra), a Delegacia de Investigações Gerais (DIG) e ainda a Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes (Dise), responsável justamente por combater o tráfico. Mas há também agentes lotados em outros locais da cidade, como a Delegacia de Defesa da Mulher (DDM). 

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Investigação

A acusação é resultado de uma investigação conduzida pelo MPE, que afirma ter identificado pagamentos de R$ 276,3 mil entre os anos de 2015 e 2017 para os policiais, que atuam em seis delegacias. Mas a denúncia cita ainda casos em que traficantes presos eram “sequestrados” por policiais, que exigiam dinheiro para soltar criminosos presos. A decisão foi antecipada nesta quinta pelo site UOL.

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A investigação é decorrente de uma operação chamada “Boate Azul”, que se desenvolveu em 2016 e apurou a ação de integrantes do PCC no bairro Campo dos Alemães, em São José. O trabalho resultou no indiciamento de 29 pessoas, que agiriam sob comando de um homem chamado Lúcio Monteiro Cavalcante - morto por policiais militares em março. 

As investigações continuaram e o Grupo de Atuação Especial e Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) passou a apurar uma pista encontrada com dos subordinados de Cavalcante: uma anotação encontrada em abril do ano passado com nomes e valores pagos a policiais civis da cidade. Na sequência, o Gaeco passou a grampear suspeitos. 

“As investigações levaram à identificação do envolvimento de policiais civis de São José dos Campos com traficantes de drogas e com o recebimento contínuo de valores (propina) e com esquema de lavagem (ocultação de patrimônio) de dinheiro originário do tráfico de drogas”, diz a decisão que determinou as prisões, que ainda afirma que o esquema de tráfico “ostensivo” na região só ocorria por meio de um esquema “endêmico” de corrupção.

O Estado tentou contato com advogados dos policiais. Os agentes decidiram se apresentar à Corregedoria na manhã desta quinta, após terem ciência da decisão judicial. O criminalista Eduardo Duque Marassi, defensor de um dos detidos, afirma que a denúncia é frágil e que seu cliente, Francisco Castilho Júnior, nega “veementemente” ligação com o esquema descrito pelo MPE. 

 

Grampos mostram que agentes presos cometiam achaques

Escutas telefônicas feitas pelo Ministério Público Estadual durante as investigações contra os policiais civis acusados de colaborar com traficantes citam diversas conversas entre suspeitos relatando pagamento aos policiais. Parte desses pagamentos, dizem os grampos, não seriam decorrentes de acordos, mas, sim, de achaques que policiais praticavam contra os suspeitos.

Em um dos grampos, os agentes flagraram a mãe de um traficante relatando que seu filho havia sido “sequestrado” por três policiais civis de São José dos Campos, que pediam R$ 10 mil. A mãe, entretanto, lamentava que aquela era a segunda vez que o fato ocorria. Na primeira, os policiais haviam pedido R$ 25 mil, que foram pagos.

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