Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Jovem é apreendido como o suposto mentor do ataque em escola de Suzano

Adolescente foi internado provisoriamente na Fundação Casa. Quebra de sigilo mostra mensagens em que o suspeito afirma ter ‘planejado tudo isso’: ‘Entrou para a história”. Dez dias antes, disse a uma professora que massacre seria ‘sonho’

Luiz Vassallo, Paula Felix e Paulo Roberto Netto, O Estado de S.Paulo

19 de março de 2019 | 08h37
Atualizado 20 de março de 2019 | 14h38

SÃO PAULO -   Um adolescente de 17 anos foi apreendido nesta terça-feira, 19, sob a suspeita de ter participado do planejamento do ataque à Escola Estadual Raul Brasil, em Suzano, na quarta-feira passada, que deixou dez mortos. A polícia diz que o jovem é frio e as provas colhidas apontam para a classificação dele como mentor intelectual do crime. Ele cumprirá internação provisória de 45 dias na Fundação Casa até análise do caso pela Justiça. Há dez dias, em uma outra escola onde fazia um curso, ele falou que seu maior sonho era entrar em uma escola armado e atirar em várias pessoas aleatoriamente.

“Foram apresentadas novas provas contundentes da participação do menor no planejamento do ato”, afirmou o promotor Rafael do Val, que acompanha o inquérito. O adolescente já havia sido ouvido no fim da semana passada, quando a análise foi a de que não havia prova suficiente da sua participação no crime. A polícia realizou buscas na casa do suspeito e teve a permissão para quebrar o sigilo de mensagens do jovem, o que reforçou a acusação.

"Foi o T., e pior, nós planejamos tudo isso”, disse ele a um amigo, por meio de mensagens que foram obtidas pela reportagem do Estado. Em uma das conversas, diz a um amigo: “Mano, a gente criou esse plano quando eu estava no primeiro ano. Era para ser eu lá também”. O interlocutor responde: “Eu espero que você não tenha nada a ver com isso, porque eu te considero pakas como um irmão mesmo”. O jovem replica. “Eu não tenho, cara. Mas a gente só falava nisso, então ele deve ter tirado alguma ideia de mim.”

Uma professora de uma escola onde ele fazia um curso de atendente de farmácia afirmou à polícia que ficou “chocada” com o que ouviu durante uma dinâmica sobre a projeção do futuro, realizada há cerca de dez dias. “Este (o suspeito) teria respondido de forma fria, sem expressar sentimento, que o seu maior sonho era entrar em uma escola, armado, e atirar em várias pessoas aleatoriamente; (a professora) alega que ficou chocada com a expressão fria do aluno, que, mesmo sendo questionado pela declarante se não tinha remorso, respondeu que o único sentimento que desenvolvia era um sentimento de prazer quando imaginava tal cena”, conforme consta no termo de depoimento.

No dia do atentado, ela ainda entrou em contato com o celular do jovem, por desconfiar de que ele teria sido o autor dos ataques. Respondeu, dizendo que não fez parte do massacre, mas que “seu melhor amigo fez”. “Ele só tinha problemas demais.” A conversa continua e o adolescente diz que “nem chegou a chorar” com o que aconteceu em Suzano. 

A professora ainda alerta. “Chorei muito, pensei que você estivesse envolvido.” E o jovem responde: “Um monte de gente pensou kkk”. Em determinado momento da conversa, ainda afirma que “ele fez o que a gente vivia conversando”. “Entrou para a história.”

Columbine

Em depoimento à polícia, o jovem afirmou que, no ano de 2015, ele e seus dois amigos tomaram conhecimento do atentado de Columbine, nos Estados Unidos. “Esclarece que tanto o depoente quanto o autor do massacre de Suzano apresentavam muita simpatia pelo atentado; que por várias vezes ele alimentava a imaginação de dizer: ‘Imagina se alguém entrasse na escola (Raul Brasil) atirando, fazendo ainda uso de machadadas’, pois a repercussão seria maior.”

Segundo o titular da delegacia de Suzano, Alexandre Henrique Augusto Dias, os investigadores estão “convencidos” que o adolescente teria envolvimento no ataque e atuado no planejamento do crime. “Ele é uma pessoa fria, com toda a certeza”, afirmou o delegado. “Ele foi o mentor intelectual, comprou objetos que poderiam fazer ele participar do delito.”

Advogado sustenta inocência

O advogado do adolescente, Marcelo Feller, disse nesta terça-feira que não teve acesso às informações sobre o caso a tempo de formular a defesa, mas que o jovem negou envolvimento no caso. Marcelo Feller, que foi nomeado pelo Instituto de Defesa do Direito de Defesa (IDDD) a pedido da Defensoria Pública do Estado de São Paulo, diz que vai estudar como vai atuar no caso.

"Lamentavelmente, o que ocorreu aqui foi um teatro processual. Eu não conheço nenhuma prova dos autos, tive acesso à decisão da juíza e ao pedido de busca e apreensão do menor meia hora antes da audiência. Não tive acesso ainda ao inquérito policial e, por essa razão, pedi à juíza que suspendesse o ato, porque não faz sentido fingir que o direito de defesa está sendo respeitado e o advogado do investigado não ter conhecimento das provas que existem." O pedido foi negado.

Feller diz que, por esse motivo, interrompeu a oitiva da mãe do adolescente durante a audiência de apresentação realizada na manhã desta terça-feira e orientou o jovem a também não se manifestar.  "Depois que eu conhecer os autos, ele e os pais estão dispostos a falar."

Ele disse que não teve tempo de ler todo o material apresentado na audiência, mas lhe chamou atenção o fato de, na decisão da juíza, ter a informação de que o adolescente teria mandado uma mensagem para o atirador ao saber do episódio.

"Assim que o adolescente soube dos tiros na escola, a primeira pessoa para quem ele mandou mensagem contando o que tinha acontecido é para o próprio atirador. Se a pessoa sabe o que vai acontecer, ela não avisa para quem está fazendo. O adolescente saberia que o plano estava sendo posto em prática."

Feller diz que terá um prazo de três dias para falar com o jovem, seus pais e testemunhas e elaborar a defesa. Ele afirma que pode solicitar uma nova audiência, mas que ainda não é possível dizer se a defesa deve pedir a revogação da internação.

Segundo o defensor, o jovem negou participação no crime. "Ele me pareceu um garoto extremamente sincero, não pareceu querer me esconder nada. Me relatou que foi muito amigo do atirador até 2015 ou 2016. Depois, eles tiveram um período brigados, que eles não se falaram, e voltaram a se falar há poucos meses. Para mim, ele negou qualquer participação nesse ato."

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