Amanda Perobelli/Estadão
Amanda Perobelli/Estadão

PM é condenado a 119 anos por chacina em Osasco e Barueri

Júri considerou Victor Cristilder culpado de 12 assassinatos e 4 tentativas em 2015; ele foi o último réu julgado no caso

Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

02 Março 2018 | 19h18
Atualizado 02 Março 2018 | 21h39

OSASCO - O Tribunal do Júri condenou o policial militar Victor Cristilder a 119 anos, 4 meses e 4 dias de prisão por participar da maior chacina da história de São Paulo, que terminou com 17 mortos e 7 feridos em Osasco e Barueri, na Grande São Paulo, em agosto de 2015. Ele foi o último réu a ser julgado. Em setembro, outros dois PMs e um guarda civil haviam sido considerados culpados pelos ataques.

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O Conselho de Sentença decidiu que Cristilder foi culpado de 12 assassinatos e 4 tentativas de homicídio. Os jurados entenderam que a chacina aconteceu por vingança pelas mortes de um policial militar e de um guarda civil, registradas poucos dias antes, e que o réu usou recurso que impossibilitou a defesa das vítimas. 

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O réu também foi condenado pelo crime de formação de grupo paramilitar (milícia). Os jurados, no entanto, derrubaram duas qualificadoras: grupo de extermínio e formação de quadrilha. A defesa de Cristilder recorreu do resultado.

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O julgamento, presidido pela juíza Élia Kinosita Bulman, da 1.ª Vara Criminal de Osasco, durou quatro dias - nos últimos dois, o réu foi escoltado por PMs da Corregedoria. O pedido foi feito após a escolta anterior ter ajudado advogados de defesa a encontrar uma prova que estava lacrada em sacos plásticos no meio do plenário.

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Mais de 20 famílias foram destroçadas por um ato que não vou chamar de chacina, mas de verdadeiro ato terrorista.
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Marcelo Alexandre de Oliveira, promotor, durante julgamento do PM Victor Cristilder

Ao todo, foram ouvidas 19 testemunhas. Também foram exibidos vídeos com depoimentos de testemunhas protegidas que não apareceram no Tribunal do Júri. “O resultado seguiu a lógica e os jurados analisaram o conjunto das provas como um todo”, disse o promotor Marcelo Alexandre de Oliveira.

O defensor João Carlos Campanini, por sua vez, disse que o júri era “uma instituição perigosa”. “(O condenado) vai morrer na cadeia dessa forma”, afirmou o advogado, que citou que Cristilder foi acusado de liderar o grupo de matadores, mas absolvido da qualificadora de grupo de extermínio. “Houve uma total incoerência.”

Em setembro, o soldado da Rota Fabrício Emanuel Eleutério foi condenado pelo mesmo crime a mais de 255 anos de prisão em regime fechado. O cabo Thiago Heinklain, da Força Tática do 42.° Batalhão, recebeu pena de mais de 247 anos, enquanto o GCM Sérgio Manhanhã foi sentenciado a mais de 100 anos.

Debates

Antes de iniciar os debates, a juíza Élia Kinosita Bulman pediu para as partes não repetirem um episódio do júri anterior, quando a defesa dos réus citou o nome dos jurados no plenário. “Para evitar constrangimento”, justificou.

Em sua fala, o Ministério Público expôs ao Conselho de Sentença as provas que levaram à condenação dos outros PMs e, principalmente, do GCM de Barueri Sérgio Manhanhã. “(As provas) estão umbilicalmente ligadas”, disse o promotor. “Três quartos da Justiça já foram feitos, restou aos senhores a última parte. O resultado desse julgamento pode revogar a decisão dos colegas dos senhores.”

Oliveira concentrou seu argumento na troca de mensagens entre Cristilder e Manhanhã na noite da chacina. Segundo a acusação, os dois enviaram “joinhas” em horários que coincidiam com o início e o fim dos ataques. Já a defesa focou em falhas da investigação e ofereceu aos jurados uma nova tese: os ataques teriam sido praticados pela facção Primeiro Comando da Capital (PCC). “Aquele bar (do Juvenal, primeiro alvo dos ataques e onde morreram oito pessoas) não era do PCC. E o PCC quis dar um recado para não frequentarem bares que não são da facção”, disse Campanini. 

‘Deus fez justiça na Terra’, diz mãe de vítima do ataque

“Deus fez justiça na Terra.” Foi assim que Rosa Correia reagiu à sentença que condenou o PM. Ela é mãe de Wilker Osório, morto com 40 tiros nos ataques. “Estão colhendo o que plantaram.”

Sentada na área reservada ao Publico, Rosa chorou no julgamento quando o nome do filho foi mencionado em plenário. “O enterro foi em caixão fechado, né, dona Rosa?”, perguntou a defensora pública Maíra Coracini Diniz, na fase de debates.

Mãe de Fernando Luiz de Paula, Zilda Maria vestia o boné no filho. Ele foi morto no Bar do Juvenal, o maior dos ataques. "Até o dia que eu respirar vou viver esse horror”, afirmou."Toda quinta, olho no relógio e na hora penso no meu filho com um tiro na testa", afirmou. "Tenho dó da família deles (condenados), mas deviam ter pensado nisso antes."

Antes da leitura da sentença, parentes de Cristilder e dos outros condenados deixaram o fórum aos prantos. "Essa Justiça é injusta!", gritou uma tia do PM, levada para o lado de fora. A mulher de Cristilder havia deixado o tribunal mais cedo. Segundo parentes, ela passou mal. 

Defesa tentou traçar perfil de estudioso

A estratégia da defesa do cabo Victor Cristilder apostou na imagem de um homem de família humilde, que precisou catar lata e vender galinha, estudioso e com orgulho de ser policial militar. Para a defesa, o perfil contrastava com a violência empregada na maior chacina da história de São Paulo.

Nos quatro dias do júri, a postura de Cristilder chamou a atenção dos presentes no Fórum Criminal de Osasco. Ele passou a maior parte do tempo fazendo anotações em um caderno e ouvindo o que testemunhas diziam. Só chorou durante seu interrogatório - e rapidamente -, ao falar da família. Quando discordava de uma fala, batia na própria perna.

Há dois anos e quatro meses no Presídio Militar Romão Gomes, o réu fez questão de demonstrar que tinha estudado o processo, citando, de cor, folhas dos autos. “Todos os dias perguntei a Deus por que estou preso”, disse no interrogatório. “Li mais de 20 mil folhas do processo de Osasco e do de Carapicuíba (onde é réu por outro homicídio). Eu li folha por folha.”

Versão

O perfil “estudioso” poderia reforçar a versão sobre a troca de mensagens com o GCM Sérgio Manhanhã na noite da chacina. Segundo a defesa, a conversa era sobre o empréstimo de um livro de Direito. 

Aos jurados, o advogado João Carlos Campanini disse que o PM morava em uma casa “muito humilde” e mostrou fotos da residência. Em um dos episódios mais polêmicos, o advogado pediu à juíza Élia Kinosita Bulma para devolver o celular de Cristilder. “O aparelho vale R$ 1 mil, a família está passando fome”, afirmou. 

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