Júri absolve Carla Cepollina da morte do coronel Ubiratan Guimarães

Emocionada, advogada disse que justiça foi feita e agora vai recomeçar sua vida; acusação não confirmou se vai entrar com recurso

ADRIANA FERRAZ, O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2012 | 02h02

Carla Cepollina, de 47 anos, foi absolvida ontem pelo assassinato do coronel Ubiratan Guimarães, ocorrido em setembro de 2006. Na sala secreta, os jurados decidiram, em cerca de 20 minutos, que a então namorada do mandante do massacre do Carandiru não foi responsável por sua morte. Às 19h30, Carla saiu livre do Fórum da Barra Funda, na zona oeste de São Paulo, no terceiro dia de julgamento. Emocionada, disse que a justiça havia sido feita e vai recomeçar a vida.

A acusação não confirmou se vai entrar com recurso para mudar o resultado. O promotor João Carlos Calsavara negou a possibilidade, mas o assistente da acusação, Vicente Cascione, informou que vai pensar a respeito. Para o promotor, os jurados não avaliaram a responsabilidade de Carla no crime.

"A ré foi absolvida porque não foi ela quem foi julgada hoje. Foi julgado o coronel Ubiratan, a Polícia Militar, a violência que corre nas nossas ruas." Ao explicar por que não vai recorrer, o promotor afirmou: "Entendo que esse é o momento da vida no País, é o momento da impunidade. A sociedade quer isso. O coronel é um homem estigmatizado, é um ícone de uma década".

Para Cascione, os jurados tinham o resultado em mente desde o começo, por isso as provas não foram suficientes para condená-la. Amigo da família, foi ele quem deu a notícia da absolvição aos dois filhos do coronel, que estavam no fórum, mas não no plenário no momento em que foi lida a sentença. Segundo o assistente da acusação, os filhos receberam a absolvição em prantos.

Ao contrário do que disseram na segunda-feira, quando começou o júri de Carla, Calsavara e Cascione consideram que a presença de Liliana Prinzivalli, mãe e advogada da ré, colaborou para o resultado. Para a acusação, o episódio Carandiru também exerceu papel fundamental no julgamento. "Há pessoas que podem pensar que ele merecia morrer", ressaltou Cascione.

A assistente de defesa, Eugênio Malavasi, discorda. Para ele, não foi o Carandiru ou a presença de Liliana no plenário, mas a falta de provas que pudessem convencer os jurados de que Carla apertou o gatilho - o coronel morreu com um tiro no abdome, em setembro de 2006, aos 63 anos. Ao fim do júri, Malavasi considerou a vitória "gloriosa".

Aos jornalistas, Carla disse que se fez justiça. "Estou feliz porque foi feita justiça após seis anos, mas estou triste porque o assassino do Ubiratan continua solto. Agora, posso retornar à vida do zero."

Tranquila durante toda a fase de debates, a ré recebeu a notícia da absolvição sem manifestar emoção. Em pé, olhou para sua mãe, que fez o sinal da cruz quando ouviu a sentença, para a irmã, Paula, que estava na plateia, e para Malavasi. Carla esperou o juiz declarar o júri encerrado para abrir o sorriso e começar a abraçar parentes e amigos. Os filhos de Ubiratan deixaram o fórum sem se manifestar.

Debate. A indefinição sobre o horário da morte foi crucial para o resultado. O exame necroscópico feito por volta das 5h de segunda-feira, dia 11 de setembro de 2006, indicou que o assassinato ocorreu 18 horas antes, ou mais. O cálculo aponta para domingo de manhã e não sábado à noite, como argumentou a defesa. Nesse dia e horário, Carla não estava no apartamento.

As chances de absolvição aumentaram após a explanação de Eugênio Malavasi. O advogado teve apenas meia hora para convencer os jurados de que a acusação não tinha provas contra a ré - a primeira hora foi usada por Liliana Prinzivalli. O pouco tempo o levou a subir o tom de voz. Aos gritos, chamou a atenção dos jurados para as falhas da perícia.

A convicção e o espetáculo de voz promovido por Malavasi fez a acusação se movimentar. Se durante a explanação de Liliana Prinzivalli o promotor e o assistente permaneceram calmos e confiantes, os 30 minutos finais usados pelo defensor fizeram ambos correrem para programar nova apresentação. Pediram réplica, dando a Carla sua primeira - e definitiva - vitória no julgamento.

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