Juiz liberta advogado que trabalha para PCC

Sérgio Wesley estava preso depois de grampo flagrá-lo dizendo que entrou com pistoleiros dentro de secretaria

Marcelo Godoy e Sandro Villar, O Estado de S.Paulo

17 Dezembro 2008 | 10h08

Acusado de planejar um ataque com pistoleiros dentro da sede da Secretaria da Administração Penitenciária de São Paulo, o advogado Sérgio Wesley da Cunha foi solto pela Justiça. A decisão foi tomada pelo juiz Michel Feres, da 3ª Vara Judicial de Presidente Venceslau. Wesley estava preso sob a acusação de formação de quadrilha desde 19 de março deste ano depois que foi surpreendido em escutas planejando os atentados com os seqüestros e o assassinato de dirigentes da administração prisional de São Paulo.O advogado que, sempre alegou inocência, foi solto pelo juiz porque o magistrado considerou que não "era plausível que o acusado" ficasse preso "preventivamente por mais tempo do que em tese lhe concederia o direito a progressão de regime se condenado for". Por isso, o juiz permitiu que Wesley aguarde em liberdade a sentença sem a necessidade de pagar fiança. O Superior Tribunal de Justiça havia negado habeas corpus ao advogado, solto anteontem. Em entrevista ao Estado, o juiz não quis comentar a sua decisão, alegando ser "antiético falar de um processo em andamento". Feres, no entanto, lamentou que advogados e policiais usem a profissão para prestar serviços ao crime organizado. "É bandido que se utiliza do cargo indevidamente. É uma profissão que não é para isso (colaborar com o crime). Causa preocupação essa inversão de valores." Para o magistrado, quando o crime passa a seduzir as pessoas é sinal de que "alguma coisa está muito errada". "Faltam respeito às instituições", disse. O Estado também tentou ouvir Wesley e seu advogado, mas eles não foram localizados.O processo contra Wesley está na fase final. O Ministério Público de São Paulo já entregou as alegações finais. Agora é a vez da defesa. Em seguida, o caso vai para as mãos do juiz a fim de que a sentença seja feita. A principal prova contra o advogado é uma conversa ocorrida no começo do ano entre ele e os presos Julio Cesar Guedes de Moraes, o Julinho Carambola, e Daniel Vinícius Canônico, o Cego, dentro da Penitenciária 2 de Presidente Venceslau, onde estão presos os integrantes da cúpula do Primeiro Comando da Capital (PCC). Carambola era apontado como o 2º homem na hierarquia e Cego era o porta-voz do chefão Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola.Wesley conta aos chefes do PCC que levou em seu carro dois pistoleiros para dentro da sede da Secretaria da Administração Penitenciária (SAP). Seriam os criminosos conhecidos como China e Alagoas. O advogado afirma que os "meninos" ficaram a "20 metros do escritório do cara". Ele revela ainda o motivo de o ataque não ter dado certo: "Vê um monte de agente tudo de paletó e gravata. Tudo Trabalha. Tem uns oito ou dez!" Os homens de terno e gravata seriam os seguranças que trabalham no gabinete da secretaria, todos policiais militares.Cego e Carambola perguntam ao advogado como ele faria para entrar na SAP ou em uma das oito coordenadorias de presídios do Estado - cada uma tem sob suas ordens cerca de 20 unidades prisionais. Wesley, então, relata seu plano de fazer entrar em uma coordenadoria ou no prédio da SAP bandidos da facção armados e disfarçados de advogados. "Entra tranqüilo. Nas coordenadorias regionais, tranqüilo", diz o advogado. Ele conta que "o problema é lá, na sede (SAP) é o problema". "Eu pus os meninos lá dentro. Infelizmente não teve conclusão", lamentou o advogado.A SAP confirmou que Wesley esteve na sede da secretaria em dezembro de 2007. Entrou, de fato, com seu carro, sob a desculpa de protocolar um documento no órgão. Para o Ministério Público, Wesley estava tramando um atentado contra um dirigente do sistema prisional. É por isso que Cego pergunta se há detector de metal nas coordenadorias e na SAP. Pouco antes, Carambola pede ao advogado que encontre uma advogada sensual "tipo assim uma garota de programa" para "jogar em cima desses caras aí". A idéia seria atrair dirigentes do sistema para uma armadilha e seqüestrá-los - um grupo do PCC foi preso na região oeste do estado em fevereiro quando se preparava para seqüestrar o coordenador dos presídios da região oeste do Estado.Antes de concluir a conversa, Wesley conta que, "além de advogado", ele já passou por muitos problemas. "Eu já tirei uns dias (esteve preso). Nasci e cresci no morro, lá na Cachoeirinha, na Brasilândia. Então quer dizer, a minha sina é essa mesmo", afirma ele aos líderes da facção. E, depois, Wesley completa: "É lógico que a gente quer o melhor, quer vocês na rua, e todo mundo com dinheiro no bolso pra cuidar da família (a facção".

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.