Werther Santana/Estadão
Imagem do dia da tragédia na Escola Estadual Raul Brasil; caso completa um ano Werther Santana/Estadão

Juiz determina libertação de acusados de massacre de escola em Suzano; MP vai recorrer

Chacina, que teve dez mortos, completa um ano nesta sexta-feira; magistrado afirma que eles não devem ser acusados de homicídio

Pablo Pereira, O Estado de S.Paulo

13 de março de 2020 | 09h00

SUZANO - Uma decisão da Justiça de São Paulo de 28 de fevereiro libertou quatro acusados de participação no massacre da Escola Estadual Raul Brasil, em Suzano, na Grande São Paulo. A tragédia, que terminou com dez mortos, completa um ano nesta sexta-feira, 13. 

O juiz Fernando Augusto Andrade Conceição, da 2ª Vara Criminal de Suzano, determinou que “Cristiano Cardias de Souza, 'vulgo' Cabelo; Adeilton Pereira dos Santos; Geraldo de Oliveira dos Santos, 'vulgo' Buiú; e Márcio Germano Masson, 'vulgo' Alemão” não devem ser acusados de homicídio no caso da chacina. O magistrado, porém, condenou “Cabelo” e “Buiú” por tráfico de arma de fogo, com pena de quatro anos de reclusão. A decisão avisa ainda que “absolve” Alemão.

Conceição decidiu ainda converter as penas de “Cabelo” e “Buiú” em penas restritivas de direito, podendo ambos ficar em liberdade, com prestação de serviço comunitário. O réu Adeilton também obteve direito de recorrer em liberdade. Os três já foram libertados. Mas o Ministério Público Estadual pretende recorrer da decisão. De acordo com a MP, a promotoria entende que Cristiano e Geraldo “agiram com manifesto dolo eventual e devem ser submetidos ao Tribunal do Júri”.

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Mãe de sobrevivente de escola de Suzano relembra desespero

Família mudou de bairro depois de massacre; parentes de vítimas criticam decisão de libertar acusados que teriam fornecido armas aos jovens que promoveram o ataque

Pablo Pereira, O Estado de S.Paulo

13 de março de 2020 | 09h00

SUZANO - “Cheguei ao hospital desesperada e vi na TV que meu filho seria uma das vítimas fatais”, conta Sandra Regina Ramos, mãe de José Vitor, o aluno do 2º ano, agredido com a machadada no peito no massacre da Escola Professor Raul Brasil, em Suzano, na Grande São Paulo, em março de 2019. Diante da escola, Sandra relembra que achava que o filho estivesse morto. Ela relata que estava em casa quando o telefone tocou. “Não atendi, mas minha mãe atendeu e era do hospital”, disse. Moradora do bairro da escola, Sandra fazia a limpeza de casa para, depois, preparar o almoço, à espera do filho na casa onde ambos viviam com a avó. José Vítor é filho único.

Hoje mudamos para outro bairro e ele não está mais nesta escola”, explica Sandra, que só descobriu que o filho estava vivo quando um parente, que a acompanhou na correria de casa ao hospital, conseguiu ver o rapaz na maca do Pronto Socorro. “Só aí fiquei sabendo que ele não tinha morrido”, explica Sandra.

De acordo com a mãe de José Vítor, que não revela o local no qual foram morar, um terceiro participante do ataque teria dito na cidade que a ideia dos criminosos era “matar meu filho”. Ainda hoje ela acredita que “queriam matar, sim”. Sandra e outras mães do colégio criticam a decisão judicial, anunciada dias atrás, de libertar os quatro acusados de fornecer as armas aos dois ex-alunos, que estavam com prisão preventiva decretada.

“Já estão por aí, soltos, no bairro”, emenda outra mãe, que frequenta uma igreja evangélica no bairro Casa Branca, em Suzano. “Não é um absurdo, isso?”, questiona uma outra mãe de aluno, enquanto esperava o filho sair da aula na escola provisória da turma, a Faculdade Piaget, em frente à Raul Brasil. O filho dela, de 17 anos, era colega de um dos garotos assassinados. “Meu filho foi criado com o Douglas”, afirma. Ela elogia a escola, mas afirma que também está preocupada com o clima de insegurança na cidade. “A escola é muito boa, sim, mas tem de oferecer segurança." Ela conta ainda que o filho, já pai de um menino de um ano e dois meses, também não gosta de falar do crime. E continua: “Ele frequenta, às sextas-feiras, uma sessão de acompanhamento psicológico no posto de saúde”.

Mães criticam liberação judicial de acusados de envolvimento no crime

Diante da portaria da Faculdade Piaget, a contadora Weslia Dias Campos, que mora na vizinha cidade de Poá, mas mantém a filha, Victória, de 12 anos, estudando no Raul Brasil, também vive apreensiva. “Venho trazer e buscar”, diz a contadora, que também tem formação em educação, mas não exerce o magistério. Ela reclama que atualmente os alunos têm de ficar em fila do lado de fora da faculdade à espera do horário da aula. “Já reclamei, eles ficam expostos na rua”, afirmou. A filha dela está matriculada nas aulas de Espanhol do Centro de Línguas que funciona na Raul Brasil. O espaço, a partir de abril, deve voltar a atender no prédio reformado da escola da chacina. Por enquanto, Victória é uma das centenas de alunos que vão às aulas no prédio emprestado.

Ela quer ser atleta, joga vôlei, faz natação e quer ser veterinária”, diz Weslia. “O curso lá na Raul Brasil é muito bom, reconhecido pelo MEC (Ministério da Educação)”, afirma. “Eu mesma fiz esse curso”, lembra a mãe, justificando a permanência da adolescente na escola. Mas Weslia afirma também que “há insegurança na cidade” em relação ao caso, principalmente depois da decisão judicial de libertar acusados de vender as armas e de participação no planejamento do caso, que estavam com prisão preventiva desde o ano passado.

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Um ano após massacre, país e alunos tentam dar nova vida à escola em Suzano

Dez pessoas morreram na tragédia; colégio da Grande São Paulo teve reforma e será reaberto em abril

Pablo Pereira, O Estado de S.Paulo

13 de março de 2020 | 09h00

SUZANO - Tentando superar o trauma do massacre de Suzano, na Grande São Paulo, que completa um ano nesta sexta-feira, 13, o estudante José Vítor Ramos Lemos, de 19 anos, mantém o sorriso no rosto, mas não gosta de falar do que aconteceu na Escola Estadual Professor Raul Brasil. Sobrevivente do ataque feito por dois ex-alunos da escola, José Vitor sofre com as lembranças da chacina e do golpe de machadinha que o atingiu no ombro, quando escapou da agressão. Mesmo carregando a ferramenta cravada ao corpo, conseguiu chegar ao hospital vizinho da escola para ser atendido.

O agressor que o atacou, ex-aluno Luiz Henrique de Castro, de 25 anos, morreu baleado pelo outro invasor, Guilherme Taucci Monteiro, de 17 anos, após o cerco policial à escola. Cinco alunos e duas funcionárias da escola foram mortos no ataque, além do empresário Jorge Antônio de Moraes, de 51 anos, tio de Guilherme. Estudantes planejam homenagem aos colegas mortos nesta sexta.

“O José Vítor não quer falar sobre o que aconteceu”, disse ao Estado, na última segunda-feira, 9, a dona de casa Sandra Regina Ramos, mãe do rapaz. Ela conta que, depois do episódio, o filho pediu para trocar de escola e a família se mudou do bairro. Sandra aceitou comentar o caso na última segunda, quando o secretário estadual de Educação, Rossieli Soares da Silva, foi a Suzano mostrar as obras de uma reforma na estrutura escolar.

O local deve ser reaberto às aulas no início de abril, com 21 salas de aulas reformadas, espaços para professores e funcionários e com uma alteração no projeto: o portão, por onde entraram os assassinos, na rua Otávio Miguel da Silva, 52, será fechado. A entrada será transferida para a rua de trás, rua José Garcia de Souza. O drama da mãe de José Vítor é semelhante ao de centenas de outras mães e alunos de Suzano. A escola registra neste ano, segundo dados oficiais da Secretaria da Educação, 1.072 matrículas, aumento de 10% em relação no número de alunos do ano passado: 970. Mas nem todas as famílias pensam igual sobre a situação da escola.

“A Raul Brasil é uma escola muito boa”, afirmou, na terça-feira, 10, Tamara da Cruz Rega, mãe de Gianluca, um dos novos alunos do primeiro ano regular do colégio. “Ele foi transferido de outro colégio”, revela a mãe, acompanhada pelo filho, diante do prédio da Faculdade Piaget, a instituição que temporariamente atende os alunos do Raul Brasil durante a reforma neste início de ano letivo. Preparando-se para enfrentar o Raul Brasil, Gianluca considera “normal” a transferência, disse que quer aproveitar a qualidade da escola para se preparar para o plano futuro: cursar “alguma coisa na área de tecnologia”. Ele está confiante que vai encontrar bom ambiente na escola reformada.

Para o técnico de enfermagem Valdir José e a mulher, Érica, pais de Aimeé, de 15 anos, que estuda na escola do massacre, a situação dos alunos e suas famílias, um ano após a tragédia, ainda é de tensão. “A gente evita de falar sobre isso para não ficar lembrando ela do que aconteceu”, afirma o pai. “Mas ela quer voltar para lá, sim”, prossegue a mãe, contando que Aimeé gosta muito do colégio, no qual estuda há três anos. Ao lado dos pais, Aimeé diz que foi difícil conviver com a tragédia, mas assegura que quer voltar para a escola. Para ela, a reforma no prédio pode ajudar no retorno. “Isso deve ajudar a melhorar o clima, a gente precisa muito disso lá”, conta a menina, ao lado dos pais, pouco depois de deixar as salas de aulas do colégio emprestado.

Nesta sexta-feira, 13, jovens, ex-alunos e alunos do Raul Brasil, fazem uma homenagem aos colegas que morreram no ataque. Foram cinco alunos mortos: Caio Oliveira, 15 anos; Kaio Lucas da Costa Limeira, 17 anos; Douglas Murilo Celestino, 17 anos; Claiton Ribeiro, 17 anos; e Samuel Silva de Oliveira, 18 anos; além da professora Marilena Umezo, de 59 anos; e Eliana Regina de Oliveira, de 38 anos, agente de organização escolar.

“É importante fazer essa homenagem”, conta a ex-aluna Jennifer Oliveira, de 18 anos. Ela lembra que estava na escola na manhã na qual Guilherme e Luiz Henrique entraram no prédio armados com flechas, machadinha e armas de fogo para o ataque. “Estava no banheiro”, contou. “Só saí quando um policial à paisana nos retirou de lá no final de tudo”, recorda a estudante, em depoimento ao Estado.

Era o último ano de estudos de Jennifer no Raul Brasil. Ela se formou em dezembro e agora cursa pedagogia na Faculdade Piaget, onde encontra todos os dias turmas do Raul Brasil abrigados lá por mais alguns dias. Jennifer é uma das alunas que sobreviveu à tragédia e que ainda necessita de acompanhamento psicológico por causa do episódio.

Segundo ela, depois do ataque, os professores “deram apoio” aos alunos para ajudá-los na superação da tragédia. “Todos foram muito legais com os alunos. Mas está sendo muito difícil de superar”, diz Jennifer. “Nestes dias, a gente chora ao lembrar que vai fazer um ano”, confessa. A dificuldade das crianças e adolescentes se mostra nos números de atendimentos psicológicos da rede pública de saúde de Suzano. Segundo o prefeito da cidade, Rodrigo Ashiuchi (PL), é um período ainda “muito difícil, de recuperação”.

De acordo com levantamento do município, o sistema de saúde foi reforçado com profissionais da Rede de Assistência Psicossocial em junho, três meses após o crime, por causa do aumento da pressão sofrida pelos alunos e pela comunidade. Dados da prefeitura mostram que a demanda diretamente relacionada com a Raul Brasil subiu. Documentos do município mostram que “mensalmente foram surgindo novos casos ativados de maneira direta ou indireta pela tragédia”.

Relatório da equipe municipal destaca que “até a chegada dos novos psicólogos do Estado (julho/2019), a rede de saúde realizou 268 atendimentos individuais (de março a maio/2019), 28 visitas domiciliares e 40 ações de busca ativa, além dos atendimentos que já eram assistidos pelo município”. Os técnicos informam que “de julho a dezembro, com o auxílio dos novos psicólogos, os índices de atendimentos de psicologia na Atenção Básica chegaram a 13.684 individuais; 2.912 atendimentos em grupo; 6.282 ações comunitárias e 843 articulações de rede e de Educação Permanente.”

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