Jovens usam remédio tarjado para tentar esconder a bebedeira

'Toma uns 5 que melhora a ressaca', diz atendente de farmácia; eficácia é contestada e experts alertam para riscos

O Estado de S.Paulo

23 Outubro 2011 | 03h01

Com um largo sorriso no rosto, a atendente de uma pequena farmácia no bairro do Sumaré, zona oeste de São Paulo, não titubeia em dar a sua prescrição médica um tanto peculiar. "Toma uns cinco, seis comprimidos que melhora a ressaca, é o que falam", diz ela, sem rodeios, se referindo a um remédio de tarja vermelha que só deveria ser vendido com receita. "Não sei se funciona mesmo, mas tem um pessoal aí que compra para passar pelo bafômetro. Tenta, né?"

Para fugir da lei seca, jovens paulistanos estão usando um remédio indicado para tratamento de alcoolismo e alterações hepáticas: o metadoxil. Relatos na internet ajudam a propagar ainda mais o uso alternativo da droga. Lançada no País em agosto de 2008, seu princípio ativo é o pidolato de piridoxina, tipo de derivado da vitamina B6.

A medicação, pelo menos segundo a bula, "acelera o metabolismo do álcool, aumentando a sua eliminação". Médicos consultados pelo Estado, no entanto, afirmam que o metadoxil não tem efeito comprovado e muito menos pode enganar o bafômetro. Pior, ele pode causar transtorno gástrico, erupção cutânea e, em caso de superdosagem, até taquipneia (aumento da frequência respiratória) e convulsões.

"É preocupante isso, porque o motorista não só dirige bêbado como causa um dano ainda maior no corpo", diz o capitão da PM Sérgio Marques. Para quem usa outros remédios, ainda há a possibilidade de ocorrer algum tipo de interação medicamentosa, causando até colapso renal.

Ainda assim, apesar dos possíveis efeitos colaterais e da necessidade de receita médica para a compra da metadoxil, muitas farmácias não só vendem sem prescrição como até indicam o remédio para quem quer escapar da fiscalização da lei seca. De sete estabelecimentos visitados pela reportagem na zona oeste e no centro, quatro não pediram receita e dois chegaram a ensinar como tomar o metadoxil para mascarar os efeitos de uma noitada. "Dizem que em uma hora a bebedeira some", afirma uma atendente de uma farmácia na Bela Vista.

Defensores. Quem já usou o metadoxil com esse fim também não mostra preocupação. "Eu tomo quatro comprimidos antes de sair. Não sei se dá para enganar o bafômetro, mas você não fica bêbado do mesmo jeito", diz um publicitário de 29 anos.

Há até um vídeo no site YouTube de um grupo de amigos testando o remédio - mas não é possível saber se o teste é real ou só uma encenação. Dois jovens viram copos de bebida e o bafômetro aponta a presença de um nível de álcool no sangue acima do permitido. Já um jovem que afirma ter tomado o metadoxil 20 minutos antes bebe as mesmas doses e o bafômetro não indica presença de álcool. "Eu sou imune", brada o jovem.

Para o médico Ronaldo Leão Abud, diretor científico do laboratório que produz o remédio, ele simplesmente não funciona. "O metadoxil não engana o bafômetro. Só acelera o metabolismo do álcool e faz as pessoas deixarem de estar bêbadas e poderem dirigir. É uma droga tarjada que, usada corretamente, pode salvar vidas."

Tal uso milagroso, no entanto, é contestado. "Não há nem comprovação da eficácia do metadoxil para o tratamento do alcoolismo. Quase não há estudos sobre esse remédio. Duvido que tenha ação significativa", diz o psiquiatra Ronaldo Laranjeiras, professor titular da Universidade Federal Paulista (Unifesp) e coordenador do Instituto Nacional de Políticas de Álcool e Drogas. "Nada acelera o metabolismo do álcool, isso não existe." / BRUNO RIBEIRO e RODRIGO BURGARELLI

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