JOVENS AGORA ESTÃO DE OLHO NA SEGURANÇA

Tragédia de Santa Maria deixa estudantes e pais apreensivos com estrutura das casas noturnas

VALÉRIA FRANÇA, O Estado de S.Paulo

29 Janeiro 2013 | 02h04

Jovens e adolescentes que costumam frequentar baladas, ontem, ficaram impressionados com as imagens que viram na TV. Por um instante, a maioria deles se imaginou no lugar das vítimas da boate Kiss, em Santa Maria, no interior do Rio Grande do Sul. De todos os quesitos que levam um grupo a escolher onde se divertir, a estrutura de segurança do estabelecimento não era - ou raramente era - levada em conta.

Os baladeiros ouvidos pela reportagem são atraídos por locais cheios. Para alguns, "quanto mais cheio, mais animado". Estudante do curso de engenharia elétrica, César Yudi Karita, de 17 anos, entra em clubes com filas na porta. "Ninguém quer balada vazia", diz ele. Não tem essa história de conforto, superlotação muitas vezes é sinônimo de muita diversão."

Karita está entre os jovens que nunca se preocuparam se a casa tinha ao menos uma porta de emergência. "Quando vi as cenas da galera correndo na Kiss para escapar do fogo, eu me imaginei lá, correndo também. Deu muita angústia. Não vou deixar de sair à noite por causa disso, mas vou ficar de olho na porta de emergência."

A estudante de engenharia de produção Pamela Rocha Gonçalves, de 19 anos, ficou perplexa ao ver a imagem da planta da casa e ainda descobrir que um dia aquele estabelecimento conseguiu tirar um alvará. "Sempre achei que seria suficiente perguntar se uma balada tinha ou não um alvará para saber se a casa era segura." Pamela, porém, nunca fez esse tipo de questionamento nas casas que frequenta. Agora a história mudou. "Eu fiquei me sentindo mal, mas foi meu pai que teve a reação mais forte em casa."

A estudante conta que depois que a família assistiu às cenas de Santa Maria, o pai a chamou para conversar. "Ele me disse que eu não poderia entrar em qualquer balada. Continuou me alertando para o fato de que isso poderia ter acontecido aqui em São Paulo e com ela."

Músico. Até para quem trabalha na balada, a tragédia serviu de lição. "Já toquei em cada biboca que você não tem ideia", conta o guitarrista Marcelo Oltramari, que costuma se apresentar em festas de faculdade. "Dependendo da região de São Paulo, os ambientes não têm nem ventilação, quanto mais saída de emergência." Na Rua Augusta, no centro, ele revela ter se apresentado em clubes instalados em casarões antigos, que não foram adaptados para uma casa noturna, cheios de corredores estreitos, e circulação confusa.

"Mas tirando a estrutura, não dá para imaginar que os proprietários de uma casa não perguntem aos integrantes da banda como será o show", diz Oltramari. "Eles querem saber os mínimos detalhes. Além do repertório, em geral, perguntam como será a apresentação." Oltramari explica que os tetos dos palcos são forrados com uma espuma que garante a acústica do show. E por isso, não entende como alguém permite que uma banda solte um sinalizador no palco. "Essa espuma acústica é muito inflamável. Todo mundo sabe disso."

A maior parte dos palcos fica no fundo do salão. "A gente sempre acha que não vai acontecer nada e por isso trabalha onde não tem segurança. Santa Maria provou que pode mesmo acontecer."

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