Jovem é morto após tentar proteger amiga na zona leste de SP

Leonardo Kaique Cassiano Almeida, de 15 anos, colocou o corpo na frente da garota e foi baleado; bandidos fugiram sem roubar nada

Felipe Resk, O Estado de S. Paulo

06 de abril de 2016 | 18h41

SÃO PAULO - Um adolescente de 15 anos foi morto com um tiro no peito ao tentar proteger uma amiga em uma suposta tentativa de assalto em São Mateus, na zona leste, na noite de terça-feira, 5. Acompanhado de outros quatro jovens, Leonardo Kaique Cassiano Almeida voltava a pé da escola quando o grupo foi surpreendido por criminosos. Os bandidos fugiram sem roubar nada. A Polícia Civil investiga a motivação do crime.

Naquela noite, os jovens fizeram uma prova de História e saíram um pouco mais tarde da Escola Estadual São João Evangelista. Por volta das 23h, o grupo deixou o colégio, localizado na Rua Forte Cananeia, onde também fica uma transportadora de valores alvo de um assalto milionário há um ano. Eles desciam a rua a pé, quando foram parados por quatro criminosos em duas motocicletas, na esquina com a Rua Forte do Leme, a cerca de 350 metros da unidade de ensino - local em que o mato é mais alto e a iluminação, fraca.

Todos usavam capacetes, por isso as vítimas não conseguiram descrevê-los à polícia. Um homem que estava na garupa desceu da moto e abordou os adolescentes. “É o seguinte”, disse o bandido aos jovens, sem concluir a frase. Nesse momento, Leonardo tomou a frente da única garota do grupo, uma adolescente de 14 anos, para protegê-la.

Crime. “Em momento nenhum, ele falou que era um assalto”, conta a menina. Pensando se tratar de um roubo, Leonardo teria posto a mão no bolso para retirar o celular. “Quando eu olhei, Leo estava no chão”, diz a jovem. O rapaz acabara de ser baleado à queima roupa, no lado direito do peito. Então, o criminoso teria tentado fazer outro disparo. “A arma falhou, eu percebi.”

A ação criminosa foi rápida, durou cerca de três minutos. O calibre do projétil não foi identificado e os policiais não encontraram vestígios do crime no local. Logo depois de atirar, o assassino voltou para a moto e o bando fugiu pela contramão. O celular da vítima ficou largado no chão.

A garota conta que Leonardo ainda estava consciente quando caiu. “Minha cabeça, minha cabeça”, repetia aos amigos, pensando ter sido alvejado nessa região do corpo. De joelhos, a garota o acomodou no colo, enquanto outro jovem segurava a mão dele e tentava estancar o ferimento. Pouco depois, Leonardo revirou os olhos e começou a convulsionar. Desesperados, os garotos gritaram.

Dois professores, que saíam da escola, pararam para prestar socorro. Na delegacia, um deles disse que, inicialmente, achava que o adolescente havia sido atropelado. Levado em estado grave ao Hospital Sapopemba, a vítima não resistiu aos ferimentos e teve a morte declarada cerca de uma hora depois, à 0h55.

“Do mesmo jeito que foi com Leo, poderia ter sido com a minha filha. Mas ele entrou na frente dela. Eu vou ser grata pelo resto da vida: ele foi um herói”, diz a mãe da garota, uma auxiliar de limpeza de 41 anos. Preocupada, a mãe pensa em tirar a menina do período noturno. “A gente sabe que tem de mandar para a escola. Mas para quê? Para morrer? Quem vai ser o próximo Leo?”

Leonardo é descrito pelos amigos como um adolescente tranquilo, que não frequentava festas na rua, nem era usuário de drogas. Aos policiais, testemunhas afirmaram que a vítima não tinha inimigos e desconheciam se tinha brigado recentemente com alguém. Ele era aluno do primeiro ano do ensino médio e estudava na mesma classe da jovem que tentou defender.

Investigação. A versão de outra testemunha, um adolescente de 16 anos, é um pouco diferente da relatada pela estudante. Após descer da morto e abordar os jovens, o criminoso teria virado o rosto, a fim de sacar a arma que estava presa na parte de trás da cintura. Ao empunhá-la, viu Leonardo com a mão estendida para ele, oferecendo o celular. Para a testemunha, o assassino imaginou que o adolescente estava reagindo e atirou.

Nervosas, as vítimas não anotaram as placas das motos nem se lembram dos modelos dos veículos. Também não souberam descrever os criminosos. Para identificá-los, policiais civis do 49º Distrito Policial (São Mateus), responsáveis pelo caso, buscam imagens de câmeras de segurança que possam ter flagrado os bandidos na rua.

Na mesma noite, outros boletins de roubo na região foram registrados na delegacia. Segundo testemunhas, os relatos coincidem com os autores do crime que terminou com o assassinato do estudante: quatro bandidos em duas motos. A Polícia Civil, no entanto, não concluiu se tratar de um roubo mal sucedido. A hipótese de Leonardo ter sido vítima de uma rixa ainda é investigada.

Notícias relacionadas
    Tudo o que sabemos sobre:
    SÃO PAULOLeonardoPolícia Civil

    Encontrou algum erro? Entre em contato

    O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.