JF Diório/AE
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Jornalista fez obituários do ''Estado'' por 5 décadas

Além de fazer mais de 800 mil notas de falecimentos, Toninho, como era conhecido, também assinou colunas de cinofilia e sociais

José Maria Mayrink e Luciana Garbin, O Estado de S.Paulo

16 Março 2011 | 00h00

Faleceu ontem aos 77 anos em São Paulo o jornalista Antonio Carvalho Mendes. Em 1.º de abril, Toninho, como era mais conhecido, completaria 50 anos de carreira no jornal O Estado de S. Paulo. Por quase cinco décadas, ele foi o responsável pela coluna Falecimentos. Ao longo de alguns anos, assinou também as seções Cidade e Serviços e Cinofilia.

Foi dele a sugestão para que o Estado publicasse versos de Luís de Camões no lugar de matérias censuradas na ditadura militar nos anos 1970. Deu a ideia ao redator-chefe Oliveiros Ferreira e o diretor do jornal, Julio de Mesquita Neto, aprovou. Toninho levava de casa um exemplar de Os Lusíadas para adiantar a composição do texto na gráfica.

Apesar de ter trabalhado antes na Prudência Capitalização e na Real Transportes Aéreos e sido chefe de gabinete do Instituto de Previdência do Estado de São Paulo (Ipesp), a vida de Toninho foi por cinco décadas a redação do Estado. Considerava-se só jornalista, pois não pensava em outra profissão desde o dia em que se empregou no 5.º andar da Rua Major Quedinho, antiga sede do jornal, no centro. Julio de Mesquita Filho, ao qual sempre se referia como "meu pai, meu amigo, meu irmão", foi o modelo que o orientou. Esse respeito e total fidelidade estenderam-se a toda a família Mesquita.

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Na vida profissional, Toninho era sinônimo de dedicação e seriedade. Chegava ao jornal às 15 horas e só saía perto da meia-noite. Ocupava uma sala com dois armários, telefone e computador, jornais empilhados e uma bandeirinha do São Paulo, clube pelo qual era fanático. Tinha sempre também bombons guardados para amigos. Mas brigava feio se lhe dissessem que deveria trabalhar menos, tirar férias ou se aposentar. "O Estado é minha casa. Em casa, eu sou visita", dizia.

Nos obituários, atualizava a relação de mortos até o fechamento da edição. Em caso de dúvidas, telefonava ao Serviço Funerário ou para parentes e amigos do morto. "Todo cuidado é pouco", costumava dizer. "Geralmente é a primeira vez - e a última - que a pessoa se torna notícia." Se necessário, também fazia entrevistas para transformar em reportagens as notas de falecimento. E tinha uma maneira peculiar de escrever. Gostava, por exemplo, de falar dos "tradicionais troncos paulistas" e evitava a palavra "morreu". Achava desrespeitoso. Preferia "faleceu" - o começo deste texto é uma homenagem ao seu estilo.

A uma colega de redação, fez o seguinte cálculo de quantos obituários havia escrito até 2008: "Bom, por dia são aproximadamente 50. Vamos ver... 50 vezes 30 dá 1,5 mil. Esse número vezes 12 dá 18 mil, que vezes 46 dá... Nossa!" Ele mesmo se assusta. "Mas é isso mesmo!!! São mais de 825 mil necrológios."

A proximidade com o tema fez surgir o apelido de Toninho Boa Morte e histórias engraçadas, que viraram folclore na redação. Como a da noite em que Julio de Mesquita Neto precisou falar com Robert Appy, editorialista francês do jornal. Como ninguém tinha o telefone dele, Toninho ofereceu-se para ir até sua casa. Ao chegar, por volta das 2h30 da manhã, bateu à porta. Quando Appy atendeu, já de pijama, assustou-se: "Mendes, chegou a minha hora?"

Na coluna Cinofilia, de tanto escrever sobre cães, acabou tornando-se especialista. Mas não tinha nenhum em casa. Dizia que "precisava ser imparcial" - não queria correr o risco de se afeiçoar demais a só uma raça. Participava de júris de concursos, gastando dinheiro do bolso para viajar para outras cidades. Também escreveu sobre cavalos de raça e passou um tempo cuidando de um filhote de leão, o Eustáquio, para o diretor do Estado Luís Carlos Mesquita. Andou com ele até de táxi.

Durante o período militar, quando a censura prévia se instalou nas oficinas do Estado e do Jornal da Tarde, Toninho entrou em choque com os censores por causa do título "Pastor alemão vence exposição". Achavam que ele se referia ao presidente Ernesto Geisel, gaúcho luterano de ascendência alemã.

Na política, era fanático por Carlos Lacerda e, em consequência, pelas principais figuras da União Democrática Nacional (UDN). Por anos fez bate e volta na ponte aérea nos dias em que a morte de Lacerda era lembrada com uma missa no Rio. Ia de manhã e voltava à tarde, a tempo de trabalhar. Foi fundador da Sociedade dos Amigos de Carlos Lacerda e chegou a ser convidado a presidi-la, mas não aceitou. "Trabalhando em São Paulo, não daria para presidir algo desse porte no Rio", dizia, com ar triste. Até na política internacional era conservador. Durante a disputa eleitoral americana que elegeu Barack Obama, por exemplo, encomendou material de campanha de John Mc Cain. Quando o tema era o Brasil, denúncias de corrupção o faziam se exaltar. "As coisas não andam nada bem", costumava dizer, para começar uma conversa de corredor.

Humor. Apesar da fama de mal-humorado, era para os amigos um sujeito de bom humor, que ria das próprias piadas, gostava de cozinhar, adorava assistir a DVDs de clássicos do cinema, desfilou no cordão carnavalesco da Bola Preta, no Rio, e era fã de Beth Carvalho e Carlos Gardel.

Católico e devoto de Nossa Senhora Aparecida, Mendes vibrou quando o cardeal Ratzinger se tornou Bento XVI na sucessão de João Paulo II, um de seus ídolos. Uma de suas últimas alegrias foi ser eleito irmão remido da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, em cuja capela costumava assistir a missas nas manhãs de domingo. "Sou São Paulo em tudo - no Estado, no jornal, no clube (Athletico Paulistano), no time e agora na Santa Casa", brincou, no dia da posse.

Afeito a entidades tradicionais e cerimônias, também colecionava distinções, como a medalha MMDC, da Sociedade de Veteranos de 32, e a D. João VI, da Sociedade Brasileira de Heráldica e Medalhística. Ainda fazia parte da Associação dos Velhos Jornalistas, foi irmão benemérito da Irmandade de São Benedito e voluntário da Associação Paulista de Combate ao Câncer.

Metódico, cortês e solitário, Mendes morou por anos com a mãe em um sobrado da Vila Mariana, zona sul. Depois que ela morreu, passou a viver sozinho e fazia mistério sobre a vida particular. Até que, ao ficar doente, em 2009, começou a contar aos amigos sobre a ex-mulher, a neta e o filho, Antonio Victor.

Quando os problemas de saúde se agravaram, Toninho atribuiu sua resistência à prática de esportes na juventude, quando lutou esgrima, fez natação e praticou atletismo - por oito anos, de 1951 a 1958, por exemplo, correu a São Silvestre e se emocionou em 1953 por ter disputado a prova com Emil Zatopek, famoso corredor checo conhecido como Locomotiva Humana. Mas, nos últimos tempos, paixão mesmo só pelo São Paulo Futebol Clube, do qual falava sempre no plural, como se fosse conselheiro ou diretor. "Nós temos de reforçar o meio de campo..."

Nos últimos meses, sem condições de retomar o trabalho, foi morar no Residencial Santa Catarina, onde fez amigos, recebia companheiros do Estado e arrumou uma namorada "pertencente a um tradicional tronco paulista". Sempre ligado no noticiário, lia jornal diariamente e, de vez em quando, voltava à sede da empresa, no Limão.

Nesses meses, esse jornalista tão reservado que parecia ser um sujeito fechado se surpreendeu com o grande número de colegas que se preocupavam com ele. "Obrigado por se interessar por mim", agradecia, emocionado, àqueles que telefonavam ou o visitavam. "Não sabia que tinha tantos amigos", confidenciou, mais de uma vez, citando nomes de companheiros de redação. Emocionou-se sobretudo com a visita de Ruy Mesquita Filho. E contava para todos, orgulhoso, que o jornalista Ruy Mesquita, diretor do Estado, telefonava-lhe quase todos os dias.

Em dezembro de 2009, Toninho sofreu dois enfartes e teve uma parada cardíaca de cinco minutos. "O médico me ressuscitou", comemorou, quando se recuperou. Fã do Hospital Nove de Julho, chegou a ganhar festa de aniversário de médicos e enfermeiros. Em janeiro deste ano, acabou voltando à UTI. Melhorou, passou dois meses no Residencial Santa Catarina, mas precisou retornar ao hospital, mais uma vez a UTI, onde morreu às 5h30 de ontem.

Natural de São Paulo, Antonio Carvalho Mendes nasceu em 20 de junho de 1933 e estudou por 11 anos no Colégio Pasteur, antigo Liceu Franco-Brasileiro. Lá fez ginásio, colegial e amigos para a vida toda, como uma antiga professora que sempre ia visitá-lo. Depois, fez especialização em espanhol na Câmara de Comércio Argentina e na Casa de Cervantes - onde presidiu a Comissão de Festas.

Homenagens. Assim que a notícia sobre sua morte foi divulgada, começaram as homenagens. A Federação de Cinofilia do Estado de São Paulo, por exemplo, decretou luto oficial de três dias, a Sociedade Brasileira de Heráldica e Medalhística fará um minuto de silêncio. Seu velório foi ontem no Cemitério do Araçá. O corpo será enterrado na manhã de hoje, em Santos.

Repercussão

RUY MESQUITA

DIRETOR DO "ESTADO"

"Nos meus longos 85 anos de vida, nunca encontrei alguém tão fiel às suas convicções e às suas amizades."

PAULO EDUARDO COSTA

PRESIDENTE DA FEDERAÇÃO DE CINOFILIA DO ESTADO DE SÃO PAULO

"Foi a pessoa que divulgou mais intensivamente a cinofilia no Brasil. Sócio do antigo Kennel Club Paulista e do Clube Paulistano de Cinofilia, cativava leitores com uma linguagem jornalística clara e objetiva."

DOM GALDINO COCCHIARO

PRESIDENTE DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE HERÁLDICA E MEDALHÍSTICA

"Manifestamos nosso profundo pesar pela perda de um membro tão querido. Em nossa próxima solenidade no Edifício Itália, em 8 de abril, faremos um minuto de silêncio."

OLIVEIROS FERREIRA

CIENTISTA SOCIAL E JORNALISTA, EX-DIRETOR DO "ESTADO"

"Um homem absolutamente leal, que fazia da empresa sua casa. Talvez o funcionário mais dedicado que já conheci. Parece estranho, mas tinha carinho especial pela seção de falecimentos."

DARLENE SILVA

PRESIDENTE DO CONSELHO NACIONAL DAS IRMANDADES SÃO BENEDITO

"O carinho que tinha pela irmandade era notório. É um irmão que fará falta principalmente como divulgador da Igreja Católica."

KALIL ABDALLA

PROVEDOR DA SANTA CASA DE SÃO PAULO

"Não à toa foi condecorado com o título de Irmão Benemérito. Era um grande amigo da Santa Casa."

ROBERT APPY

EDITORIALISTA DO "ESTADO"

"Era um companheiro muito simpático e humilde, que exercia seu trabalho com seriedade. Não mudou nada durante todos esses anos de redação."

SANDRO VAIA

EX-DIRETOR DE REDAÇÃO DO "ESTADO"

"Lembro quando trabalhávamos na Major Quedinho e ele foi mostrar o prédio a uma visita. Dizia: "Isso aqui é tudo nosso!" Se sentia meio proprietário, meio propriedade do jornal."

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