Jornada ao topo do caos

Na caminhada até o ponto final do ônibus, em uma das áreas de Teresópolis mais atingidas pela tragédia, histórias de gente que perdeu casa, parentes, amigos e vizinhos e paisagens cheias de escombros, lama, entulho e destruição

Fernando Gabeira, O Estado de S.Paulo

16 Janeiro 2011 | 00h00

Meu objetivo era atingir o ponto final do ônibus de Campo Grande, no alto da região mais devastada de Teresópolis. Eram quase três quilômetros de caminhada em zigue-zague, pelo barro, pedras e enxurrada. Isso depois da última barreira para carros. Alguns metros adiante, um grande obstáculo de galhos e escombros, um entulho assustador. Quatro motos, apontando para o alto do morro, indicavam que seus pilotos foram um pouco adiante dos carros. Mas também deixaram as máquinas para trás.

Ao olhar o alto do morro, vi o imenso sulco cinzento da areia que deslizou pela montanha, arrastando milhares de pedras. O rio amarelo de uns seis metros de largura antes era o tranquilo Santo Antônio, que cresceu e enlouqueceu com a tempestade, criando mais dois cursos, sepultando a rua e fazendo de margem o asfalto retorcido.

Logo que passei pela igreja católica da Posse, branca e perdida no meio do lamaçal, um homem que descia me disse:

- Para que subir lá? Acabou tudo.

As pessoas que desciam com uma espécie de maca para carregar suas posses, ou com malas na cabeça, pareciam estar deixando aquilo ali para sempre.

Depois da igreja da Posse, tive de subir pelo gramado de uma das mansões e recuperar a estrada alguns metros adiante. Na sombra da árvore, havia peras que a chuva derrubou, esmagadas pelos pés apressados dos fugitivos.

Passei por uma casa relativamente intacta, mas os carros estavam semissepultados na lama. Quando perguntei como foi tudo, moradores disseram:

- Aqui até que bem. O pior foi lá em cima.

Pelo menos desmentiram meu primeiro interlocutor. Muitas casas resistiram. Um pouco adiante, encontrei um homem com um velocípede. Conseguiu tirar a mulher e o filho e os instalou em Jardim Pimenteiras, um bairro mais baixo.

Essa primeira parte da caminhada foi surpreendente. Olhava as casas destruídas, os móveis quebrados, as geladeiras, bonecas no chão, mas não conseguia compreender. Nosso discurso básico é de prevenção, análise geológica do risco, retirada das pessoas em situação vulnerável. Muitas daquelas casas não estavam em situação de risco, passariam por qualquer teste elementar de segurança. No entanto, viraram pó.

- A chuva foi muito forte, desde as 9 horas - relata Tatiana, mãe de três filhos - Às 2h, liguei para os bombeiros e perguntaram o nome da minha rua. Almirante Barroso, respondi. Sinto muito, mas aí não estamos conseguindo chegar.

Houve outras tempestades em Campo Grande, mas nunca grandes estragos. Nem tanta desolação nos diálogos. Um bombeiro diz a outro: "Marcela está bem, mas o homem ficou lá no Espanhol, morto de perna pra cima." Uma jovem que descia rápido nos relatou o drama da família vizinha. Duas gêmeas, uma estava com a mãe, outra com a avó, só uma se salvou.

Alguns metros acima, cruzei com a família que trazia seus objetos e um cachorro no colo da mulher. Ela me disse: "Estou salvando porque gosto muito dele." O marido completou: "É, mas o outro, o cego, você deixou para trás." Em seguida, atenuou: "Deixamos alguma comida para os próximos dias."

A tarde terminava quando alcançamos o topo. Ali, a destruição é quase total. Sobrou uma dezena de casas. Duas mil foram destruídas. Há muita gente sepultada. O terreno é escorregadio e a lama, muito profunda. Era o lado mais pobre de Campo Grande. Perguntei a um morador que se deslocava com um pedaço de pau para testar a profundidade da lama se havia associação de moradores.

- Havia. Estão todos lá embaixo.

Ali naqueles escombros barrentos umas oito pessoas cavavam na esperança de encontrar alguma coisa. Encontrei três sobreviventes juntos: David, Daniel e Cristian. Daniel salvou a mãe, que quebrou os dois braços. Ele se amarrou numa corda e conseguiu avançar. Cristian não entende por que sua casa não caiu. Nem quem a observa agora: ele vive à beira do abismo. David mostrou sua casa de pé, intacta, e disse: "Sou pedreiro e, para dizer a verdade, todas as casas que sobraram aqui têm a minha mão."

Perguntei a Daniel como se moveu na escuridão para salvar a mãe. "Os relâmpagos", respondeu. "Quando acendiam, via braços, móveis, todo aquele movimento e acertava o rumo com o clarão."

Nesse momento começou a chover. As nuvens escuras chegaram e logo se formou uma grande massa branca. Era sair rápido. Dois helicópteros rodavam por ali e manobraram para escapar da massa que chegava. Um paraquedista estava no grupo e seguiu na frente. Havia lama, muita lama. No meio do caminho, a chuva amainou e, passado o susto, era agradável.

No final da descida, ouvi pelo rádio que o prefeito de Teresópolis calculou os prejuízos em R$ 580 milhões.

Está chovendo no Rio. Mas também está chovendo em outros lugares, como a Austrália, onde a orientação pelo rádio dá mais poder às pessoas. Mesmo no Caribe - onde não é a chuva, mas o furacão o grande adversário -, há cartilhas orientando os moradores. A diferença entre ter e não ter uma política de prevenção articulada com a sociedade seria encontrada alguns metros adiante, na saída da cidade: um necrotério improvisado, uma fila de familiares com guarda-chuva e funcionários com máscara branca. Diante do necrotério, um caminhão frigorífico com o logotipo de uma peixaria.

O vice-governador do Rio, Luiz Fernando Pezão, disse que o trabalho para recuperar as cidades serranas levará um ano. Vamos levar mais tempo para responder à altura a tragédia na região. Está quase tudo errado conosco. Foi bom a presidente Dilma Rousseff não ter dito quanto destinaria para reparar o desastre. Isso abre caminho para um fundo de desastre que torne as coisas mais simples e transparentes. As tragédias estão cada vez mais próximas e as reparações, cada vez mais distantes. Em Campos, flagelados de uma enchente invadiram casas dos flagelados da enchente passada, que não estavam ainda concluídas.

A tradição é dar o comando do Ministério da Integração Nacional para o Nordeste. Reflexos da seca que atinge uma população vulnerável. Os grandes desastres estão acontecendo também nas regiões metropolitanas. Não importa de onde venha o ministro, é necessário ser capaz de conduzir um debate nacional.

Uma das últimas cenas que vi: o dono de uma fábrica de móveis quase catatônico recusando-se a se afastar dos destroços. A alguns metros dali, a família discutia como retirá-lo. A reação catatônica é compreensível em alguém que perdeu tudo. Se acontece com o corpo político, é um desastre para os homens como Daniel, que salvou a mãe, e David, que constrói casas sólidas. E um desprezo pelos mortos.

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