Joice, a madrinha dos designers do país

Autodidata, ela mudou a percepção de que design era perfumaria, levou brasileiros ao Oscar do setor e criou uma versão tupiniquim do prêmio

Edison Veiga, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2011 | 00h00

O que o restaurante D.O.M, de Alex Atala, o Museu do Futebol, no Pacaembu, e o Beco do Batman, na Vila Madalena, têm em comum? Para Joice Joppert Leal, diretora executiva da Associação Objeto Brasil, a resposta é fácil: um design criativo. A apresentação dos pratos, a leitura contemporânea de espaços culturais e a arte dos grafiteiros serão destaques no livro que ela prepara para o segundo semestre: um guia para que paulistanos se surpreendam com as inovações que existem em São Paulo.

E também para desmitificar o assunto. "As pessoas ficam achando que design é coisa dos Jardins, da (Alameda) Gabriel Monteiro da Silva. Eu fico louca com isso", diz ela. "Design está em tudo: na armação dos seus óculos, no seu computador, na sua cadeira."

Não é de hoje que Joice veste a camisa e empunha a espada do design brasileiro. Autodidata, ela interessa-se pelo assunto desde os anos 1960 quando, ainda adolescente, começou a trabalhar em escritórios de design no Rio - ela nasceu em São Vicente, em 1948, mas a família se mudou para a capital fluminense em 1960. Atuou como recepcionista, vendedora, assistente... "Não fiz uma faculdade. Aprendi colocando a mão na massa. Mas não sou designer, sou curadora", frisa.

Na década de 70, exilou-se com o primeiro marido, o cartunista Miguel Paiva, na Itália. Em Milão, organizou exposições e começou a fazer a ponte entre profissionais italianos e brasileiros. "Foi um momento em que abrimos um universo muito grande", recorda-se.

De volta ao Brasil, foi convidada pelo empresário e bibliófilo José Mindlin (1914-2010) para criar e coordenar o núcleo de desenho industrial que seria instalado na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), posto que ela ocupou de 1980 a 1998. "Foi o máximo. Eu vim para ganhar "salário de homem" naquele tempo, imagine só. E em uma área que eu adoro", comenta. Depois disso, tornou-se paulistana. Do tipo que adora a cidade. "A gente é top. Não perdemos em nada para qualquer capital do mundo", exagera. "E tem mais: São Paulo é generosa com quem trabalha."

Sua atuação na Fiesp começou em um momento de mudança de mentalidade. "Fazíamos pregação no deserto. Tínhamos de partir do zero. O empresário daquela época pensava que design era frivolidade estética", explica. O núcleo passou a fazer seminários, exposições e a manter um serviço de informação e assistência aos industriais que quisessem investir no assunto. "Naquela época, o design era visto como perfumaria. Joice foi a grande responsável pela mudança de postura nesse sentido", afirma o designer Levi Girardi, sócio-proprietário do escritório Questto.

Diálogo. Entretanto, Joice achava que era preciso abrir ainda mais o leque. Não bastava convencer os industriais da importância do design. "Precisávamos de uma entidade ecumênica: falar com comércio, serviços, universidades, profissionais do design...", diz. Em 1996, nascia a Associação Objeto Brasil, organização social que ela dirige. O plano: divulgar o design brasileiro no País e no exterior. Uma maneira encontrada foi incentivar os brasileiros a participar do prêmio americano Idea Awards, uma espécie de Oscar do setor. Deu certo: no ano passado, o País obteve a melhor colocação da história no certame. Com nove medalhas, o Brasil ficou atrás apenas dos Estados Unidos no ranking geral da premiação.

De quebra, a Objeto Brasil conseguiu autorização para, desde 2008, promover uma versão tupiniquim do prêmio: o Idea Brasil, que se tornou a grande vitrine da associação. "Ser premiado dá uma grande projeção para a carreira. Como profissional, a gente cresce junto", comenta o designer Anderson de Goes Monteiro que, em 2008, integrou a equipe da Embraer que faturou o ouro pelo design das aeronaves executivas Phenom 100, Phenom 300 e Lineage 1000.

Associação. Joice vive na Vila Madalena, no mesmo imóvel onde funciona a sede da Objeto Brasil. "Sou apaixonada por esse bairro", afirma. Casada com o produtor teatral e terapeuta Benê Mendes desde 1982, ela é mãe de quatro filhos: Diego, de 35 anos (do primeiro casamento), Diana, de 28, Daniel, de 25, e Gabriel, de 19. Apenas o primeiro se tornou designer. Diana e Daniel são publicitários. Gabriel estuda jornalismo.

Morar e trabalhar no mesmo endereço não atrapalha? Não para quem respira design, como Joice - das roupas aos enfeites da mesa, tudo tem um porquê, tudo tem uma explicação. E o maior prêmio, maior do que todos os que ela organizou na vida, é o reconhecimento que recebe dos profissionais. "A Joice é nossa madrinha mesmo. Com sua luta, ela está conseguindo espaço para os designers brasileiros no mundo todo", define Monteiro.

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