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Jairo Bouer
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Jogos de amor e sexo

Quem já testou o aplicativo Tinder ou outros afins para encontrar parceiras ou parceiros deve ter sentido uma espécie de "adrenalina" parecida com a que se tem quando se joga algum game no celular. E essa sensação deve ser mesmo muito boa, já que, só nos últimos dois meses, mais de um milhão de brasileiros criaram perfis para encontrar caras-metades no aplicativo. Depois dos EUA (onde foi criado), Brasil e Reino Unido são os campeões, com quase 2% de crescimento ao dia.

Jairo Bouer, O Estado de S.Paulo

01 Dezembro 2013 | 02h07

Para quem não conhece, segue uma explicação resumida do que são esses aplicativos. Eles são instalados em um smartphone (celular inteligente, multitarefas) e funcionam como uma espécie de "catálogo de gente". Cada usuário cria seu perfil, onde coloca sua foto e dados como idade, peso, altura, orientação sexual e o que procura encontrar (relacionamento, sexo casual, amigos, papo, etc). Quando você se conecta, ele avisa os demais usuários que você está online, disponível, ou qualquer status desse gênero. Graças ao GPS (sistema de localização disponível no celular), os aplicativos conseguem calcular a distância e mostrar quem está pelas redondezas. Assim, em poucos segundos, você tem à sua disposição um mapa das "minas" ou dos "minos". Simples, bem simples, assim!

Sem fazer uma crítica de valores, já que o sistema tem mesmo aproximado pessoas em todo o mundo, valem algumas reflexões e análises de outros dados divulgados nos últimos dias sobre o impacto que essas tecnologias estão tendo em nossas vidas.

Para começar, um dado de mercado no Brasil. A venda dos smartphones cresceu 150% entre os terceiros trimestres de 2012 e de 2013. Mais de 10 milhões de unidades entre julho e setembro deste ano, ou seja, cerca de 60% dos celulares vendidos no período. Além da queda no seu preço, é óbvio que eles são muito mais atraentes (ainda mais para os mais jovens) do que os celulares convencionais.

Outro dado interessante é que os mais jovens estão fugindo das plataformas de redes sociais mais conhecidas (como Facebook) e preferindo sistemas de trocas de informação instantânea e até aplicativos de paquera, para fugir da vista dos mais velhos.

Se no mundo da internet as águas muitas vezes são turvas para os pais que querem acompanhar seus filhos, no universo das conexões pelos celulares, elas são ainda mais obscuras e abissais. É muito mais fácil despistar! Mais da metade dos usuários do Tinder tem entre 18 e 24 anos.

Claro que muita gente tem usado os aplicativos de paquera para, de fato, conhecer pessoas e tentar estabelecer um relacionamento. Mas, para a esmagadora maioria dos usuários (comportamento talvez ainda mais frequente entre os mais jovens e os homens), o principal objetivo é mesmo um encontro casual. E, para esses encontros, o que vale é o calor do momento. A impulsividade para marcar e efetuar um encontro é típica de alguns momentos da vida do jovem. Deu vontade, conectou, encontrou alguém disponível ali pertinho, por que não?

Nesse sentido, vale voltar à comparação com os jogos virtuais. Cada fase que passo, me coloca frente a obstáculos ou oponentes mais difíceis. E quanto mais difícil, mais adrenalina. Nos aplicativos, cada fase que passo, me aproxima mais do objetivo desejado, que é encontrar ou ficar com alguém. Nesse caso, o bônus não vem em forma de pontos ou recordes, mas na possibilidade concreta de sexo e prazer, que pode ser obtido de forma quase imediata.

Lógico que um namoro pode até nascer de um momento inesperado de sexo que acontece no meio da tarde, na sala da casa dos pais, na hora que a mãe foi ao supermercado. Mas, na esmagadora maioria das vezes, é só sexo mesmo. Ou ainda, para muitos, não é preciso nem concretizar o encontro, mas só criar a oportunidade de deixar alguém à espera já valeu o tempo perdido na troca de mensagens e galanteios.

Consequências? Talvez seja cedo para dizer, mas já tem muita gente reclamando de tempo demais passado nos aplicativos e desejo de voltar cada vez mais a eles (dependência?), sensação frequente de solidão e frustração, quando não se consegue o objetivo pretendido (o que é bem comum) ou, ainda, quando relacionamentos "vingam", existe a apreensão de que o parceiro ou parceira volte, em breve, a buscar mais diversão no aplicativo. Como em qualquer jogo, há vencedores e perdedores.

* É PSIQUIATRA

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