Jogador morre e vítimas chegam a 236

Matheus Raschen, de 20 anos, campeão gaúcho de basquete, ficou cinco dias na UTI de hospital de Porto Alegre, mas não resistiu

PABLO PEREIRA, ENVIADO ESPECIAL, PORTO ALEGRE , O Estado de S.Paulo

02 de fevereiro de 2013 | 02h02

Ele adorava as cestas de três pontos, foi campeão gaúcho de basquete na seleção estadual Sub-17, jogou em Campo Mourão, no Paraná, e foi convocado para a seleção brasileira Sub-18 de 2010. No último ano, trocara o sonho das quadras pelo da Tecnologia de Alimentos na Universidade Federal de Santa Maria. Matheus Rafael Raschen, de 20 anos, que morreu na noite de anteontem, em Porto Alegre, aumentando para 236 o número de vítimas da tragédia da boate Kiss, foi velado ontem no ginásio do Corinthians de Santa Cruz debaixo da cesta que perseguiu desde os 7 anos. O sepultamento ocorreu no final da tarde Cemitério Municipal.

Com 1,92 m de altura, Matheus gostava de jogar com a camisa 7. Na luta pela vida, que travou na UTI do Hospital de Pronto Socorro de Porto Alegre desde domingo, ocupou o leito que tinha o mesmo número que sempre pedia para carregar no uniforme. Com queimaduras graves pelo corpo, Matheus resistia à falência renal com tratamento de hemodiálise, mas sofreu uma parada cardíaca anteontem.

"Um menino de ouro", repetia Nestor Raschen, pai do atleta, durante o tratamento em Porto Alegre. Na tarde de anteontem, depois de cinco dias de hospitalização, Nestor, que é diretor do Colégio Mauá, de Santa Cruz, e um incentivador da vida esportiva do filho, deixou o hospital abalado. Matheus havia piorado, e as esperanças da família sofriam um forte abalo.

Cestinha. Uma semana antes da tragédia na boate que pegou fogo, segundo Nestor Raschen, Matheus havia disputado um torneio local, e fora o cestinha, com 95 pontos em três jogos.

Nestor contava ainda que no dia da festa Matheus participara de uma comemoração de formatura de amigos ao lado da boate. "Quando terminou a formatura, ele foi para a boate", disse o irmão, Samuel, professor, que permaneceu com os pais ao lado do irmão desde o dia do incêndio.

Foi Samuel quem notou, na quarta-feira, a coincidência de o número do leito do hospital ser o preferido de Matheus.

"O Samuel viu, e comentou comigo", lembrava Nestor. "Ele nunca me falou por que do 7, mas esse número vai ajudar o Matheus na recuperação", declarava o pai um dia antes de perder o filho. Habituado ao convívio com a juventude, que ajuda a preparar para o ambiente universitário, Nestor apostava na saúde atlética do rapaz e chegou a comemorar a redução da dosagem do oxigênio administrada no tratamento do filho. "Estava em 100%. Reduziram para 40%", declarava.

Torcedor do Grêmio no futebol, Matheus carregava a paixão pelo basquete desde o primeiro ano de escola. "Quando o Matheus tinha dois anos, em abril de 1994, o time de Santa Cruz, Pitt/Corinthians, foi campeão brasileiro num playoff de 3 jogos contra o Franca aqui em Porto Alegre", recordava o pai.

"Era o time do Ary Vidal", lembrava Nestor, com orgulho - o técnico Ary Vidal morreu na segunda-feira.

Incentivado desde menino, Matheus começou a treinar com 7 anos no projeto esportivo chamado Cestinha, do SESI com a Universidade de Santa Cruz.

O garoto passou de um "bom banco", como brincava Nestor, para ala titular do Corinthians-Mauá. Foi campeão sul-americano, jogou na seleção gaúcha em 2009 até ser contratado para defender o Campo Mourão, onde foi campeão estadual.

Em 2010 foi convocado como escolta pelo técnico Walter Roese para o time do Sub-18 do Brasil. Depois de deixar a seleção, atuou ainda como juvenil e profissional no Paraná. Matheus namorava Daniela, de 17 anos, também moradora de Santa Cruz.

Missa. Amigos e familiares dos mortos e feridos do incêndio marcaram para hoje, às 22h, uma missa, na catedral de Santa Maria, que será seguida por uma vigília em frente à casa noturna Kiss. / COLABOROU LUCAS AZEVEDO

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