Rafael Arbex/Estadão
Rafael Arbex/Estadão

Jockey Club busca guinada pop e jovem, com direito a ‘London Eye paulistana’

Nova direção considera que renascimento passa por 'integrar o clube na sociedade e sociedade dentro do clube' e espera parceria da Prefeitura

Bruno Ribeiro, O Estado de S.Paulo

06 Maio 2017 | 03h00

SÃO PAULO - O Jockey Club de São Paulo quer se popularizar. Para voltar a ter arquibancadas cheias, trazer um público mais jovem para o turfe paulistano e afastar as dificuldades financeiras, o clube estuda criar uma série de atrações extras em seus 640 mil m², no coração da zona oeste. Na mesa, estão opções como museus, teatros e mais restaurantes - além de planos mais ousados, como a criação de um novo cartão-postal para a cidade: uma roda-gigante ao estilo da London Eye.

Capitaneando as análises está Benjamin Steinbruch, de 63 anos, recém-empossado como presidente do conselho diretor do clube e um dos mais bem-sucedidos empresários do País - presidente do conselho de administração da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Ele diz que o renascimento do Jockey passa por "integrar o clube na sociedade e a sociedade dentro do clube" e espera contar com a parceria do prefeito João Doria (PSDB) para viabilizar as mudanças, preservando a arquitetura tombada, as áreas verdes e as obras de Victor Brecheret instaladas ali.

Planos. O diagnóstico é que, nas últimas décadas, o Jockey Club deixou de ser uma atração na cidade, ao passo que o esporte, em si, continuou importante. "É uma coisa até engraçada. O Rio, no turfe, é quase o dobro de São Paulo. E é a única atividade, eu acho, em que o Rio é o dobro de São Paulo", afirma.

Ainda sem definições, a gestão Doria tem entendimento de que a saúde financeira do clube passa pela cessão de partes do terreno para o setor imobiliário, que poderia construir arranha-céus nas áreas não tombadas do terreno. A dívida de impostos do clube com a cidade é estimada em R$ 250 milhões.

"Temos uma capacidade de construção que é definida por lei e, no momento oportuno, quando tivermos as definições, vamos apresentar um projeto para a Prefeitura. Mas é mais do que isso: a gente quer fazer um projeto que seja referência para São Paulo", argumenta Steinbruch. "Quando falo em um entendimento, é como a gente faz para maximizar esse potencial que nós temos aqui no Jockey Club para atender os interesses do clube e da cidade."

 

"Então, colocar uma roda-gigante igual a que tem em Paris e Londres é legal? Eu acho que é legal. Seria um negócio bacana, um marco, uma referência. Não tem nenhuma dessas na América do Sul. Se for, seria legal. Fazer um museu? Bacana. Um teatro? Bacana. Fazer coisas ao ar livre? Sim. Agora, a gente tem de compor um projeto que vai ser uma referência", afirma.

Essas atrações serviriam para trazer mais gente para o espaço. E, assim, mais fãs para as corridas. "Uma coisa que afasta o público da arquibancada é que hoje as apostas são virtuais. Você em São Paulo pode apostar aqui, pode apostar no Rio, em Porto Alegre, em Nova York, onde quiser", diz Steinbruch.

A saída está, exemplifica, no próprio Jockey. "Você tem um restaurante aqui, o Iulia, que nos fins de semana recebe 1,5 mil jovens. Uma juventude bonita, sadia, que vem aqui, se diverte, frequenta - está ali. Como a gente faz para tirar o pessoal que está ali e trazer 50 metros mais para a tribuna?"

Para ser mais acessível, hoje e amanhã, no Grande Prêmio São Paulo, principal data do turfe paulista, não haverá obrigação de gravata entre os homens - está restrita à tribuna superior. E as arquibancadas estão abertas.

Mas trazer mais gente, também passa por fazer mais corridas. E isso implica mais cavalos nas cocheiras. "Atualmente, temos 700 cavalos. Com essa quantidade, você não consegue ter mais de uma corrida por semana", afirma o presidente. O Jockey já chegou a ter 3,5 mil há 20 anos, comenta Steinbruch. 

Sócios. Mesmo entre sócios que concorreram contra Steinbruch, a observação é de que a nova diretoria está no caminho certo. "A Prefeitura sempre foi uma dificuldade, mas agora parece que a nova gestão é mais aberta", afirma o advogado Vicente Paolillo, sócio do clube. 

Mais conteúdo sobre:
Jockey Club

Encontrou algum erro? Entre em contato

Bruno Ribeiro, O Estado de S.Paulo

06 Maio 2017 | 03h00

SÃO PAULO - Enquanto os projetos para voltar a encher o Jockey Club ainda estão no campo das ideias, quem vive do turfe na capital paulista segura as pontas para manter vivo o esporte na cidade. São comuns relatos de vaquinhas entre proprietários e treinadores para manter em dia o salário dos funcionários.

Os muros das cocheiras - vizinhas "parede a parede" da movimentadíssima Marginal do Pinheiros - conseguem separar-se do caos da capital, dando ares de vida de interior ao lugar. Ali, a vida começa às 5 horas, sem feriado nem fins de semana.

O valor "popular" para criar um cavalo de corrida é de R$ 2 mil mensais. O preço do animal varia, é definido em leilões, de acordo com o histórico de antecedentes do potro. Depois de comprados, os bichos são confiados aos treinadores, que têm a missão de torná-los competitivos - a ponto de, no futuro, se tornarem reprodutores. "Tem grupos de amigos que são sócios, compram um cavalo e dividem as despesas", diz o veterinário José Luiz Aranha, um dos principais treinadores de cavalos do Jockey Club. 

Aranha, também comentarista de turfe, é um dos retratos da paixão pelo esporte. Começou a treinar a contragosto do pai, já morto, mas ganhou sua bênção por causa dos resultados. 

"Pela manhã, a gente vê como a animal passou a noite, se comeu, como está, segue uma rotina de treinos", explica. Em suas cocheiras, há uma planilha detalhando como será o treino de cada cavalo que cuida e se naquele dia o bicho terá mais alfafa ou mais milho. Também tem disposição de contar detalhes sobre aspectos nada interessantes nos bichos, como as causas para suas constante cólicas. Todo o cuidado e metódica lhe rendem comparações com o técnico Tite, da Seleção Brasileira, e sua "jogabilidade". 

Outro treinador que simboliza o Jockey é Mario André Nunes Gonçalves, de 50 anos. Nascido em Bajé, no Rio Grande do Sul, cuidava dos cavalos da família quando era pequeno e chegou a ser jóquei - as exigências de peso e altura o tiraram dos páreos, "além das quedas, que são frequentes". Seu treinamento tem por base a observação de cada animal, desenvolvendo um relacionamento com os bichos. 

"Isto aqui é um compromisso. É como um casamento, como criar um filho", diz. Seu jeito instintivo traz novamente o paralelo com treinadores de futebol. Mas está mais para Renato Gaúcho, que escala o time sem apostar em treinos rígidos. 

Ambos disputam uma competição particular de melhor técnico da cidade - há um troféu real, dado a cada fim de temporada, e ambos já o venceram. E os dois também demonstram expectativa positiva diante dos planos da nova direção. "O Jockey tem de se atualizar, e esse pessoal deve profissionalizar mais a gestão", diz Gonçalves.

Mais conteúdo sobre:
Jockey Club

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.