Joaquim Távora

Enquanto o comandante da Revolução de 1924, general Isidoro Dias Lopes, jantava no restaurante da Estação da Luz, na noite daquela quinta-feira, 14 de julho, um pelotão de revoltosos, sob o comando do capitão de Exército Joaquim Távora, atacava o quartel do 5.º Batalhão da Força Pública, na Rua Vergueiro, hoje número 363. Aquele era um dos pouquíssimos nichos de resistência legalista, pois as forças leais ao governo já haviam abandonado a cidade em direção a São Caetano e à Penha.

José de Souza Martins, O Estado de S.Paulo

26 Setembro 2010 | 00h00

No meio do tiroteio, alguém do lado legalista levantou a bandeira branca, sinal de rendição ou de disposição para parlamentar. Távora se ergueu na trincheira e recebeu vários tiros. Faleceria no Hospital Militar no dia 19 de julho, nove dias antes do término dos combates na cidade de São Paulo e da retirada das tropas rebeldes para o interior. Centenas de mortos sepultados no Cemitério do Araçá e em terrenos baldios da Mooca, do Ipiranga e do Lavapés, centenas de feridos, milhares de desabrigados, inúmeras fábricas e residências bombardeadas e destruídas ficariam para trás, enquanto os trens partiam levando soldados e canhões.

O atestado de óbito de Joaquim Távora descreve que ele fora atingido gravemente pelas balas inimigas em vários órgãos e na coluna vertebral. Se tivesse sobrevivido, teria ficado tetraplégico. Era oficial do Exército e engenheiro civil, nascido no Ceará. Tornara-se oficial no Rio Grande do Sul. Em 1922, liderara a rebelião do Exército em Corumbá (hoje cidade do Mato Grosso do Sul) em apoio ao levante do Forte de Copacabana, que dera início ao ciclo das revoltas tenentistas. Elas culminariam na Revolução de Outubro de 1930 e na ascensão de Getúlio Vargas ao poder.

Joaquim Távora foi sepultado no ponto mais alto do Cemitério do Chora Menino, no bairro de Santana, a cabeceira de seu túmulo voltada para o então quartel do Exército, hoje quartel do Centro de Preparação de Oficiais da Reserva (CPOR), ali perto, onde tivera início a Revolução na fria madrugada de 5 de julho. Dali saíram os revoltosos para tomar os quartéis da Força Pública na Avenida Tiradentes, na Luz. Num deles, ainda naquela manhã, Joaquim Távora deu voz de prisão ao general Abílio Noronha, comandante da 2.ª Região Militar, que, em traje de gala, ordenava o fim da revolta.

No gesto e no episódio estava todo o sentido da Revolução, que pretendia restituir a República ao republicanismo, livrá-la do oligarquismo, do clientelismo, do voto de cabresto, da corrupção político eleitoral. Livrá-la de um presidencialismo em que o presidente da República descaradamente fazia o sucessor, usando os recursos do governo, no claro propósito de anular as oposições, circunscrever as liberdades democráticas e reduzir o Exército à função de pau mandado do governante. Até promoções militares eram decididas pelos políticos em função de seus interesses eleitorais.

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