João Paulo II e os leigos

João Paulo II foi um incansável promotor do papel decisivo dos leigos e leigas na Igreja e na sociedade. Karol Wojtyla deu contribuição preciosa neste assunto no Concílio Vaticano II, mas antes viveu pessoalmente a experiência do leigo no trabalho, na atividade cultural e política e no compromisso com a sociedade de seu tempo. Como padre, bispo e papa, foi determinante a experiência como estudante, artista, operário e opositor aos regimes nazista e soviético.

D. Filippo Santoro,

27 Abril 2014 | 02h06

Outro aspecto presente em Wojtyla era a ligação com seu povo. Fora da comunidade, da história, da cultura e do martírio da Polônia não era pensável sua pessoa. O individualismo de quem vive somente para si era estranho à sua vida e ao seu magistério, donde nasce uma visão da pessoa humana. Nasce a defesa da dignidade humana, em particular dos pobres e dos excluídos e da liberdade de todos, em particular a de escolher e praticar a fé.

Como sucessor de São Pedro, o papa polonês continua a promover o papel determinante dos fiéis leigos. Ele desenvolve essa atenção em duas direções. A primeira é a da condição dos leigos como batizados e, por isso, como protagonistas de uma especial presença na sociedade por força de sua "índole secular"; a segunda é a de uma atenção aos leigos reunidos em associações, dando ênfase aos movimentos eclesiais e novas comunidades. Sobre fiéis leigos, escreveu a exortação apostólica Christifideles Laici, em 1988, que seguiu ao Sínodo dos Bispos de 1987, com o tema Missão dos Leigos na Igreja e no Mundo.

Na visão do papa, o fiel leigo é lançado nas fronteiras da história e de todos seus aspectos: família, cultura, mundo do trabalho, economia, ciência, técnica. Uma atenção particular é dada à mulher e aos jovens, decisivos da condição humana, muitas vezes negligenciados pela sociedade e Igreja.

Grande destaque deu Wojtyla aos movimentos e às comunidades que se desenvolveram a partir da teologia da Igreja e do laicato. O papa indicava a necessidade de os leigos permanecerem ligados aos bispos, como garantia de fidelidade a uma história começada com a ressurreição de Jesus e com o dom do Espírito.

O novo santo deu grande ênfase ao trabalho e à família. No seu livro autobiográfico Dom e Mistério, ele, lembrando sua experiência de operário, escrevia: "Trabalhando manualmente, eu sabia bem o que significava a fatiga física. Todos os dias, encontrava gente que trabalhava pesado. Conheci o ambiente dessas pessoas, suas famílias, seus interesses, seu valor humano e sua dignidade". Essa experiência está no fundamento da encíclica sobre o trabalho Laborem Exercens, de 1981. Na encíclica Sollicitudo Rei Socialis, de 1987, indica a necessidade do compromisso de todos diante da pobreza. Em 1991, escreve a encíclica Centesimus Annus, insistindo sobre a necessidade de que o mercado esteja a serviço das pessoas.

No campo da família, beatificou os cônjuges Maria e Luigi Beltrame Quattrocchi, em 2001 - os primeiros proclamados juntos como casal. E beatificou quase 20 leigos e leigas.

Fica, porém, na nossa memória a viagem de João Paulo II ao Brasil em outubro de 1997. Ele esteve no Rio para o 2.º Encontro Mundial com as Famílias e, admirando a beleza da paisagem, falou da arquitetura divina da natureza e da arquitetura humana da família.

* É ARCEBISPO DE TARANTO, NA ITÁLIA, E EX-BISPO DE PETRÓPOLIS, NO RIO

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