João do Rio, o cronista da rua, ganha o mundo

Versão bilíngue preserva registros únicos da capital do País no início do século passado

Roberta Pennafort/ RIO, O Estado de S.Paulo

09 Maio 2010 | 00h00

Muito mais do que mera vagabundagem, "flanar é perambular com inteligência", dizia o cronista João do Rio (1881-1921). De suas caminhadas pela cidade, sem destino, mas com olhar atento, ele extraía material para os textos que publicava em periódicos. Os registros acabaram por revelar para as futuras gerações como era a vida na então capital do Brasil no início do século 20. Cem anos depois, o lançamento da versão bilíngue de A Alma Encantadora das Ruas/The Enchanting Soul of The Streets vem para mostrar sua verve a outros públicos.

De 1908, o livro é uma coletânea de ensaios sobre o que João via em ruas como a sofisticada Ouvidor, a Quitanda, "com sua mania de mudar de nome", no centro, e a "fidalga" Rua das Laranjeiras, na zona sul. Eram pedaços da cidade multifacetada e em transformação, a capital da República, que passava por uma remodelação urbanística, sendo Paris o modelo a seguir.

O autor fala dos trabalhadores que ofereciam serviços nas calçadas, como os vendedores de orações, os músicos ambulantes, os agentes funerários. Sobre os tatuadores, conta que eles faziam desenhos com agulha, graxa e pólvora. Abordavam os fregueses - "os negros, os turcos com o fundo religioso e o bando das meretrizes, dos rufiões e dos humildes, que se marcam por crime ou por ociosidade", com a pergunta: "Quer marcar?" Entre os vendedores de livros, estava gente "de todas as cores, de todos os feitios, desde os velhos maníacos aos rapazolas indolentes", ele descreve.

No texto Visões D"ópio, relata como eram as casas dos "chins ocidentalizados", chineses que chegavam ao Rio trazendo o vício no ópio. "Estávamos no Beco dos Ferreiros, uma ruela de 5 palmos de largura, com casas de dois andares, velhas a cair. A população mora em magotes em cada quarto e pendura a roupa lavada em bambus nas janelas".

Nas páginas pares, está o texto em português; nas ímpares, a versão em inglês. Para o tradutor, Mark Carlyon, inglês que vive no Rio há 31 anos, foram muitas as dificuldades: para além da transposição da linguagem da época, era preciso ser fiel ao ritmo e à sonoridade da escrita de João, que escolhia as palavras não só por seu significado, mas também por seu som. E, acima de tudo, descrever com graça a chamada "experiência carioca". "João é incrível, foi o primeiro que quebrou tabus e fez com que a crônica, o artigo de jornal, fosse considerada literatura séria, aceitável", diz Carlyon.

A publicação, lançada na Academia Brasileira de Letras quinta-feira, data do centenário da eleição de João do Rio à casa, é fruto de parceria entre o Instituto Light e o Instituto Cultural Cidade Viva. Traz ilustrações do artista plástico Waltercio Caldas, que imprimiu sua visão sobre as ruas do Rio sob a luz da lua.

Invenções. Ao fim das 451 páginas, vem uma série de notas do tradutor, que explicam não só quem foram as pessoas a que o autor se refere, mas também invenções da cidade, como o jogo do bicho e a favela. Esse é o primeiro volume da coleção River of January, idealizada com o intuito de verter ao inglês livros que revelam o espírito do Rio em diferentes momentos da história, que ainda não haviam sido traduzidos.

A meta é chegar a dez títulos em quatro anos. Mark Carlyon já terminou Memórias de um Sargento de Milícias (1854), de Manuel Antônio de Almeida, e no momento está debruçado sobre Casa Velha (1885), de Machado de Assis.

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