Codo Meletti/Estadão
Codo Meletti/Estadão

Jantar fechado? Antes de reservar, faça um teste

O programa pode não ser para você, mas o fato é que tem muita gente boa servindo em casa

Patrícia Ferraz, O Estado de S.Paulo

30 de dezembro de 2018 | 03h00

Um jantar fechado é uma experiência única. Mas não é para qualquer um. Se você não for a pessoa mais extrovertida do mundo, antes de fazer sua reserva recomendo um teste. Imagine a seguinte cena: você toca a campainha e é recebido por um casal sorridente que nunca viu na vida. Superada a porta de entrada, é hora de se juntar aos outros convidados, igualmente desconhecidos. Não vale ficar quieto, afinal, você e o resto do grupo estão ali para se divertir. Chegam aperitivos, drinques, a conversa segue solta. Passou a primeira fase do teste? Está na hora de ir para a mesa. As expectativas são grandes, afinal, quem se atreve a chamar estranhos para jantar na sua casa (e cobra por isso) deve cozinhar bem.

A comilança começa com caramujos do mar, um dos ingredientes em alta na gastronomia - os anfitriões são antenados. Jaca também está em todas e chega acompanhando a prejereba. A especialidade do dono da casa é o foie gras e ele prepara o fígado gordo de ganso à perfeição, quase cru, apenas levemente passado na chapa para servir com compota de caju. Na sobremesa, sorvete de baunilha do cerrado com pólen de abelha nativa. Deu água na boca? Faça logo a reserva.

O programa pode não ser para você, mas o fato é que tem muita gente boa recebendo para jantar em casa. E vários donos de restaurante começaram assim. Antes de abrir o Bia Hoi e o Cochichine a jornalista Dani Borges fazia jantares fechados em casa. Izadora Ribeiro, do Isla Café, recebia no Apartamento 8. A Mermeleia, marca de geleias artesanais nasceu de jantares fechados na casa de Mauro Concha e Thiago Henrique - a primeira geleia foi servida com queijos, no fim do jantar, logo começaram as encomendas e o casal fechou a casa e abriu uma lojinha simpática em Perdizes. O chef Raphael Despirite, do Marcel, fez o caminho contrário: inventou o Fechado para Jantar, para fugir do cardápio fixo de seu restaurante. Começou cozinhando para grupos pequenos, hoje já são mais de 100 reservas a cada evento. Cozinheiros que estão fora do mercado também andam fazendo almoços e jantares entre quintais, lojas e galerias.

Não sou frequentadora destes jantares, acabo preferindo visitar restaurantes recém-inaugurados, até por razões profissionais. Mas guardo na memória os jantares servidos na casa dos mexicanos Lourdes Hernandez e Felipe Ehrenberg, hoje falecido, um artista plástico que veio ao Brasil como adido cultural do México. Era um grande programa, entre as estórias divertidas do irreverente Felipe e a comida maravilhosa da Lourdes, a cocinera atrevida, que ia tirando tortillas artesanais quentinhas de guardanapos de pano, trazendo à mesa moles, carnitas, Chiles... certamente as melhores refeições mexicanas que já provei. Eles voltaram para o México depois de treze anos no País e deixaram por aqui As Lourdetes, seguidoras da Lourdes. Mas ainda não fui lá provar.

 

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