Tiago Queiroz/AE
Tiago Queiroz/AE

'Janelas proibidas' se multiplicam no horizonte da cidade

Em busca de sol e ventilação, moradores fazem aberturas aqui e ali nas 'empenas cegas', paredes de prédios vetadas a intervenções

Nataly Costa, O Estado de S.Paulo

27 Novembro 2011 | 03h01

Rogério Perez nasceu em um quarto sem janela. Há 40 anos, quando ele tinha 5, a única varanda que deixava entrar um pouco de vento em casa ganhou uma avenida passando bem na frente - o Elevado Costa e Silva. O pai de Rogério não viu outra solução senão cavar uma abertura naquele quarto escuro do menino, que anos depois passaria a ser o quarto de Leonardo e Bruno, os meninos de Rogério. Poder, não pode abrir janela desse jeito. Mas é o recurso de alguns paulistanos que moram em apartamento pequeno para deixar a casa um pouquinho mais habitável.

A parte externa do edifício para onde essas janelas se abrem é o que os arquitetos e engenheiros chamam de empena cega, uma parede "morta" na fachada onde não é permitido fazer qualquer intervenção. As empenas cegas existem por razões diversas ao longo do tempo. Primeiro, porque antes da década de 1970 era permitido construir prédios geminados - e, claro, a parede comum não podia ter janelas, ou invadiria a casa do vizinho.

A partir de 1972, com o Código Civil e a proibição dos prédios geminados, as empenas cegas continuavam necessárias por causa de outra regra - não se pode ter janelas a menos de 1,5 metro do vizinho. Quando não tinha vizinho no meio, a justificativa era outra.

"No inverno, o vento frio vem do Sul e Sudeste. Se você construísse um prédio com os dormitórios voltados para esse lado, os moradores poderiam sofrer com o frio e até ter problemas respiratórios. A melhor maneira de evitar isso era fazer uma empena cega, sem janelas", conta o arquiteto Paulo Giaquinto, professor do Mackenzie e um dos responsáveis por elaborar o Código de Obras de São Paulo, de 1992.

O pai de Rogério, avô de Leonardo e Bruno, não sabia de nada disso. Ou sabia e não se importou. "Olha aqui, olha como era esse quarto. Não dava para viver", diz Rogério fechando a janela, o cômodo na escuridão total. Leonardo, de 16 anos, que já nasceu com janela, Elevado e tudo, nem imagina como era antes. "Acho 'da hora' o que meu avô fez", diz.

Do outro lado da cidade, no bairro do Sumarezinho, na zona oeste, os menos de 30 m² da quitinete de Mauro Borges, de 39 anos, têm um janelão e uma janelinha. O janelão é "de fábrica", a janelinha foi um "presente" do inquilino anterior. "Da janela grande só vem barulho de carro, de moto, de ônibus. Da pequena vem o vento, a luz, a chuva...", filosofa o dono de restaurante em Ubatuba, que se divide entre São Paulo e a praia.

Desespero. É "tecnicamente errado, mas compreensível", na opinião do arquiteto Paulo Giaquinto. "Você tem um apartamento mal iluminado, mal ventilado, e não pode simplesmente sair de lá. A janela não deixa de ser um ato de desespero. É como os 'puxadinhos' das periferias."

Síndica de um prédio repleto de janelas improvisadas no centro de São Paulo, Regina Genda declarou guerra a um vizinho que abriu uma dessas há pouco tempo, já sob sua gestão. As outras foram na época "do síndico anterior".

"Por mim, fechava todas. Ou liberaria para todo mundo, até mesmo para mim. Mas não pode, fazer o quê?" 

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