Mais maconha que cigarro

Duas pesquisas divulgadas nos EUA na última semana trazem informações importantes sobre o comportamento dos jovens em relação ao cigarro e à maconha. De acordo com os dados, hoje os estudantes americanos do final do ensino médio fumam mais maconha do que cigarro.

Jairo Bouer*, O Estado de S. Paulo

20 de dezembro de 2015 | 03h00

Outra conclusão dos levantamentos, feitos pelo Instituto Gallup e pelo National Institutes of Health (NIH), é que, enquanto o número de jovens fumantes (18 a 29 anos) despencou na última década naquele país, o consumo dos cigarros eletrônicos triplicou no último ano, preocupando especialistas. 

Em relação à maconha, os resultados mostram que menos adolescentes acreditam que ela é uma droga nociva. Foi a primeira vez desde que os dados da pesquisa Monitorando o Futuro começaram a ser coletados, em 1975, que o consumo de maconha superou o de cigarro entre os mais novos. 

Entre os adolescentes, 6% revelaram fumar maconha diariamente (o mesmo número de 2014), enquanto 5,5% deles são fumantes de cigarro (taxa em queda no mesmo período). Apesar da crescente discussão sobre legalização da maconha nos EUA, o uso da droga não aumentou no último ano. 

Já em relação ao cigarro, hoje 22% dos jovens entre 18 e 29 anos fumam nos EUA. Há dez anos, eram 34%. Outro dado mostra que, pela primeira vez na última década, os jovens no país não fumam mais do que os mais velhos. Entretanto, os adolescentes e adultos jovens são justamente os mais propensos a buscar alternativas ao cigarro. 

O resultado da pesquisa do NIH sugere que a maconha pode estar sendo uma dessas opções. Dados dos Centros de Controle de Doenças (CDC) mostram que o cigarro eletrônico é outra possibilidade. Segundo eles, 2 milhões de adolescentes compraram cigarros eletrônicos em 2014, mais do que o triplo do ano anterior. Os levantamentos foram publicados pela Time e pelo jornal britânico Daily Mail.

Situação no Brasil. No Brasil, o uso de tabaco entre os adolescentes provavelmente ainda é maior do que o de maconha. Mas essa situação pode se inverter nos próximos anos. Dados do último Vigitel, inquérito sobre saúde feito por telefone pelo Ministério da Saúde, mostram que 10,8% da população ainda fuma, com uma queda importante de quase 30% na última década. 

Na faixa dos mais novos (18 a 24 anos), os fumantes são 7,8%, taxa menor do que na faixa de 45 a 54 anos, que é de 13,2%. Já os números do II Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad), da Universidade Federal de São Paulo, de 2012, estimava 533 mil adolescentes fumantes, faixa de idade que mais reduziu o consumo de cigarro no País, com uma queda de 6,2%, em 2006, para 3,4% em 2012. 

O mesmo Lenad projetava que 1,5 milhão de pessoas fumavam maconha diariamente no Brasil – cerca de 300 mil eram adolescentes. Entre os mais novos, o índice de dependência é da ordem de 10%. Mais de 60% dos que já experimentaram maconha tiveram essa experiência antes dos 18 anos, quando o risco de dependência é maior. Houve também um aumento do número de usuários da droga entre 2006 e 2012, e mais de 20% dos adolescentes conseguiram maconha na escola.

Com a maior discussão da legalização da maconha e do uso dos derivados (THC e canabidiol) para fins medicinais é possível que a percepção de riscos entre os mais novos diminua. Por isso, é essencial introduzir esse tema em casa, na escola e nos meios de comunicação.

*Jairo Bouer é psiquiatra

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