Nilton Fukuda/AE
Nilton Fukuda/AE

Jaguaré: o mirante da nostalgia

Em 1943, do alto de 28 metros, os horizontes do bairro se ampliaram em um belvedere "de que se descortina vasto panorama"

O Estado de S. Paulo

15 de outubro de 2015 | 14h40

O engenheiro e idealizador do bairro do Jaguaré, Henrique Dumont Villares, fez uma viagem à Holanda no final da década de 30 do século passado e voltou com uma ideia: instalar no ponto mais alto de suas terras um “belvedere”, um mirante, de onde se poderia ampliar o horizonte dos moradores. Ninguém sabe qual foi a inspiração de Villares, mas pouco tempo depois o Mirante do Jaguaré rasgava o céu do bairro. Era 1943.

O projeto previa a construção de um complexo de lazer. Em um estudo que data de 1946, em que Villares listava diversos motivos para convencer industriais a construir suas fábricas na região, o engenheiro se refere ao local como centro recreativo. “Dispõe o bairro ainda de centro recreativo, onde haverá um grande restaurante (já construído) e um cinema. Um recreio rústico, com um belvedere de que se descortina vasto panorama, proporciona distração tranquila e repousante aos que desejam gozar momentos de calma, e na sua proximidade vários ‘churrasqueiros’ foram instalados com outras comodidades para piqueniques e refeições campestres”, escreveu o autor do documento.

A construção orientou por muito tempo a vida de quem mora no Jaguaré. No alto da torre de 28 metros, Villares mandou instalar um relógio de quatro faces, que tinha um mecanismo alemão. Ele funcionou por trinta anos. Todos os dias emprestava suas badaladas aos moradores que iam e vinham das fábricas – pelo menos até 1968, quando foi abandonado. Curiosamente, o relógio era a única função não estava prevista no projeto inicial. Mas acabou sendo a mais utilizada.

Villares teve ainda outras ideias para fazer do mirante uma construção versátil. Queria montar uma enorme caixa d’água no local. O reservatório abasteceria todo o bairro, mas não saiu do papel.

O principal objetivo era usar a torre como ponto de orientação para os barcos que navegariam pelos rios Tietê e Pinheiros. A crença do engenheiro de que a hidrografia alavancaria as atividades industriais de São Paulo, devido ao baixo custo, foi exposta no mesmo estudo. Nele, Villares anotou que “(...) o Centro Industrial Jaguaré fica na confluência dos rios Pinheiros e Tietê. Em ambos esses rios procede-se à dragagem e retificação, que virão permitir a navegação de modo que essa propriedade está muito convenientemente para tirar proveito deste meio de transporte, o mais econômico”.

Nesse caso, o plano não deu certo porque a navegação nos rios da capital não foi para frente como esperava o engenheiro. A história, contudo, rendeu pelo menos um apelido ao mirante: Farol do Jaguaré.

Em 1998, a Sociedade Amigos do Jaguaré (SAJA) assumiu a recuperação do prédio. Com a ajuda de empresários, moradores e comerciantes, em julho de 2000 a associação conseguiu o tombamento histórico da torre pelo Município e pelo Estado de São Paulo. Hoje, o “Farol do Jaguaré”, como é popularmente conhecido, não serve como ponto de referência na região. A verticalização do distrito o encobriu, mas não diminuiu sua importância enquanto símbolo do bairro.

O Mirante fica na Rua Salatiel de Campos, 102. Até o ano passado, a SAJA cuidava da manutenção do prédio e o local era aberto a visitas. Este ano, porém, sob administração da Prefeitura, a construção ficou abandonada e não garante a segurança dos visitantes. Quem quiser conhecer o Relógio vai precisar se contentar com algumas olhadinhas do lado de fora. 

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