Já falta vaga em albergue. E ainda nem é inverno

Para Prefeitura, sobra espaço. Mas ''Estado'' visita 10 instituições e encontra 9 lotadas

William Cardoso, O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2011 | 00h00

Antes mesmo do início do inverno, albergues da rede pública da capital já estão lotados. Filas, portas fechadas e falta de vagas mostram que conseguir pernoitar em uma instituição muitas vezes é questão de sorte. E a situação deve piorar na estação mais fria do ano, quando cresce a procura.

A capital tem cerca de 9 mil vagas em albergues, distribuídas por 33 unidades para a população em geral e 13 destinadas a público específico (idosos, crianças e mulheres). Houve aumento de 12,5% no número de atendimentos no primeiro trimestre deste ano, em relação ao mesmo período de 2010.

Em 13 de abril, a reportagem tentou vaga para pernoite em dez albergues, em todas as regiões da capital. Apenas um, o do Jaçanã, na zona norte, ofereceu leito, banho e alimentação. Nos demais, a indicação foi para que se aguardasse na rua, de preferência em lugar distante do abrigo, pela passagem do carro da Central de Atendimento Permanente e de Emergência (Cape). Em uma van, agentes da Cape deveriam recolher moradores de rua e encaminhá-los a algum albergue. Eles dizem que isso não ocorre e são "ignorados" pela assistência social do Município.

Em Pinheiros, na zona oeste, um funcionário de albergue na Rua Cardeal Arcoverde disse que foi obrigado a deixar pessoas para fora, quando a reportagem foi ao local. "Não tem como colocar mais gente para dentro, já tenho três excedentes."

Na Pousada da Esperança, em Santo Amaro, na zona sul, um funcionário disse que naquele horário, às 23h45, era impossível conseguir vaga. "Tem de chegar às 14h para garantir com certeza. Depois das 20h, sem chance."

No Ipiranga, o atendente disse que já havia dispensado seis pessoas. No Jabaquara, havia apenas cinco vagas para pernoite, todas ocupadas. Nos demais também não havia vaga.

A secretaria diz que o procedimento correto seria receber o morador de rua, mesmo sem vaga no momento, e chamar a Cape, que tem de providenciar o pernoite onde for possível. Fora o Jaçanã, a reportagem não foi convidada a entrar em nenhum dos abrigos.

Apesar disso, a Prefeitura diz que sobraram 890 vagas nos albergues da capital no dia 13 de abril e vai apurar por que funcionários de nove unidades disseram que não havia mais leitos disponíveis para a reportagem.

A Secretaria Municipal de Assistência Social prometeu instaurar procedimento de averiguação para apurar conduta irregular por parte das entidades conveniadas, bem como de servidores da secretaria responsáveis pela supervisão da rede.

Desde maio do ano passado, entidades são obrigadas a realizar o primeiro atendimento dentro do albergue, de forma a garantir assistência mesmo se as vagas estiverem preenchidas, evitando a exposição dos usuários em filas na porta ou áreas próximas. Se um determinado centro de acolhida, por exemplo, já estiver com todos os leitos ocupados, o responsável pelo mesmo deve acionar a Cape, que funciona 24 horas por dia e deve fazer encaminhamento a outro centro de acolhida.

Matemática. Para Hedwig Knist, da Pastoral do Povo da Rua, ainda que parte dos moradores de rua não queira sujeitar-se às regras dos abrigos, as vagas são insuficientes. "São quase 14 mil moradores de rua para cerca de 9 mil vagas. É uma questão matemática. Não há lugar para todo mundo", afirma. "Quantos mais vaga se cria, mais demanda se tem. Mesmo assim, é sempre melhor que a pessoa esteja abrigada, em vista das variações do clima e da violência."

Drama. "A gente está na porta do albergue e eles mandam esperar a Cape na praça, mas a Cape não pega ninguém", afirma o desempregado Marcos, de 47 anos. Cadeirante, ele tentava pernoitar na Vivenda da Cidadania, no Canindé, região central. O drama vivido por ele é compartilhado por outros moradores de rua. No mesmo Vivenda da Cidadania, outros três jovens, entre 20 e 30 anos, aguardavam por vagas. Eles realizam pequenos serviços em uma obra no local, mas isso não lhes dá garantia de que passarão a noite abrigados. Os três contam que, por falta de leitos, já dormiram várias vezes nas ruas, para voltar ao trabalho no dia seguinte justamente no albergue que lhes recusou acolhida.

Na porta do albergue em Pinheiros, Valdívio Brotti, de 31 anos, diz que passou os últimos nove nas ruas. "Se juntar todos os dias em que fiquei em abrigos, não dá um ano", calcula.

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