Raquel Brandão / Estadão
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‘Já ameaçaram colocar fogo em mim’

Misael foi o primeiro a encontrar o corpo do morador de rua Mauro, há um mês; desde então, ele assumiu a missão de cuidar do cachorro Faísca, que ainda sofre com a morte do dono.

Raquel Brandão, O Estado de S. Paulo

13 Junho 2015 | 16h00

Misael

“Tem mais de 15 anos que eu moro na rua. E faz uns cinco ou seis meses que eu tô aqui no Viaduto Nove de Julho. Eu sou lá do Guarapiranga, mas vim pra rua por opção. Morar em casa não dá certo. Pra você morar em casa, você tem que enfrentar ladrão, bandido… Aqui na rua é mais fácil. Eu tenho medo também. Já ameaçaram de jogar querosene e jogar fogo.

Eu pego latinha, vendo papelão. Eu vou lá na rua de cima. Comprei essa carroça por R$ 400, mas ela fica parada aí por causa do colchão. A polícia nunca pegou nada meu. Lá na Sé limparam tudo, né? Ah, mas se pegar, pegou. Pra mim, não faz falta.

Aqui todo mundo me conhece, o pessoal passa e conversa. Sou conhecido pra caramba. Aquela senhora ali do bar me conhece. A Dona Maria também, ali atravessando a rua.  Eu não preciso sair pra procurar comida. O pessoal traz aqui.

Não sei te falar como é que é isso. Eu tenho uma casa lá no Guarapiranga e outra em Suzano. Mas eu prefiro ficar aqui. Eu não sei te explicar. Tenho um irmão no Tatuapé, na zona leste. Ele é advogado, bem de vida mesmo. Ele me chama, mas prefiro ficar com a carroça e esse cara aqui [um cachorro, de nome Faísca].

Encontrei o Mauro aqui parado, com os braços abertos. Não teve jeito. Agora o Faísca tá triste. Ele tem uma lembrança que você não sabe… O Mauro criou ele 11 anos. Ele tá com uns 12 anos. Olha o tamanho dele!

Dei o azar de vir aqui na hora, meu. Ele morreu do coração, morreu dormindo. Parou. Sabe quando o coração para? Eu fiquei a noite inteirinha aqui olhando o procedimento da perícia. A perícia vem, abre a camisa, corta calça, examina o corpo todinho. E esse cara ficou uivando aqui, latindo.

O Faísca  não entra em qualquer lugar. Ele é da rua. Ele só fica na rua. E eu fico com ele. Tira uma foto dele. Ele é mó barato! Esse cara é capa de revista, sabia? Ele tá na internet, tá na televisão.

Se eu queria que alguma coisa na minha vida fosse diferente? Não. Tá bom. Pra mim, tá bom. Aqui não falta nada. O mais importante é isso aqui, essa companhia. É mais que um colega, é um cão colega. Olha a cara dele. Eu não troco esse cara. Ele me adotou, ele me escolheu.”

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