Itaquera vira o centro do mundo por 90 minutos

Moradores do bairro se orgulham em receber a estreia da Copa, mas não esquecem de cobrar melhorias duradouras

BRUNO RIBEIRO, MÔNICA REOLOM, O Estado de S. Paulo

13 de junho de 2014 | 02h02

SÃO PAULO - O barulho vinha de fogos, helicópteros, cornetas, rodas de samba e, principalmente, da garganta dos moradores. Receber a Copa fez Itaquera, agora o bairro mais famoso de São Paulo, soar como uma imensa feira livre, em festa.

Parte do bairro da zona leste paulistana mirou os olhos nos acessos da Arena Corinthians, onde uma multidão de estrangeiros se unia à população local. Outra parte tentava ver as delegações e gente famosa. Mas a maioria dos 220 mil moradores do bairro fez o que se costuma fazer em dias de jogo: abriu a casa para amigos, com comida e bebida.

"O mundo todo está vendo o meu quintal", gritava a dona de casa Cleonilda Pereira Solaris da Silva, de 50 anos. "Nascida e criada" em Itaquera, ela contou que foi acordada pelos helicópteros do Exército que sobrevoavam sua casa, no Conjunto Habitacional José de Anchieta. Não parou de pular desde então. Transparecia o orgulho de estar no "centro do mundo".

Do conjunto habitacional é possível ter uma vista privilegiada para o estádio. "Moro bem aqui, do lado da entrada dos VIPs", disse a professora Tatiana Aparecida Freitas, de 27 anos, que acompanhava o grupo de moradores de Itaquera que esperava pelos famosos. "Acho que vi o Luciano Huck."

Nas festas do bairro, o clima era de esperança sobre a seleção brasileira. "O pessoal vai montar um telão na Praça da Cohab, vai ter churrasco. Vai estar todo mundo", contou a professora Ana Maria de Souza Carvalho, de 51 anos, na porta de um açougue da Rua Doutor Campos Moura. A carne, claro, era para a festa.

O orgulho de abrir a Copa não quis dizer que o bairro estava iludido com a fama repentina. "O estádio está aqui do lado, ficou lindo, a vista está ótima. Mas a gente não viu uma melhora que faça diferença, algo que tenha mudado nossa vida. Está tudo igual", contou o advogado Mardhy Daychoum, de 53 anos, presidente da Associação Atlética Artur Alvim, tradicional de futebol de várzea da região.

As festas na várzea, com os devidos churrascos e telões, se espalharam ontem. O bairro também está repleto de ruas enfeitadas. "A gente bem que pensou em não enfeitar neste ano. Mas ontem (anteontem), depois que o ônibus da seleção passou, a molecada se empolgou e ficou pedindo", contava o pedreiro Marcos Augusto Carlos, em uma rua perto da Avenida Líder.

Com a esperança de reencontrar o ônibus da seleção, muitos torcedores ficaram nos cruzamentos da Radial Leste. Mas ele não passou por ali. "Foi por causa da manifestação", disse uma mulher. "Olha, hoje (ontem) não era dia. Não adianta mais reclamar das coisas. Claro que tem muita coisa para protestar, mas as eleições estão aí para isso", respondeu outra.

O que surpreendeu muitos foi a quantidade de estrangeiros. "Até liguei para a minha chefe e disse que, se achasse algum gringo por aí, nem aparecia para trabalhar. Só mandava um WhatsApp", disse a comerciante Fernanda Luso, de 22 anos.

O jogo. Um campo de várzea reuniu cerca de cem espectadores para a partida. TVs foram colocadas nas garagens das casas, que estavam abertas. Os botecos das esquinas lotaram.

Logo foi fácil lembrar que aquele não é só o bairro da Copa. É o bairro do estádio do Corinthians. "Se o Corinthians, que é 'o' Corinthians, não consegue ganhar aqui, que dirá essa seleção", disse um espectador quando o Brasil levou um gol contra.

Sob a janela da casa da cuidadora Cleide Santos, de 38 anos, três homens tentavam acertar o sinal da televisão, em uma laje, minutos antes da partida. "Essa Copa valoriza os moradores de Itaquera porque mostra o nosso bairro, mas só arrumaram a avenida, a favela, não. Quando construíram o estádio, o aluguel passou de R$ 250 para R$ 500 e não melhorou nada", disse Cleide. Mesmo assim, parecia bem-humorada e torcia pelo Brasil. "Uma dia vai melhorar."

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