Itaim se mobiliza contra venda de área verde

Terreno de 20 mil m² seria trocado com construtoras por creches; moradores dizem que bairro vai perder equipamentos públicos

Rodrigo Burgarelli, O Estado de S.Paulo

07 Dezembro 2010 | 00h00

Moradores do Itaim-Bibi, na zona sul, e defensores do patrimônio histórico de São Paulo estão se mobilizando contra a decisão do prefeito Gilberto Kassab (DEM) de vender um terreno de 20 mil m² no bairro para construtoras em troca de creches. O terreno é uma das poucas áreas verdes localizadas no Itaim, tem vários equipamentos públicos e um casarão antigo. Também há reclamações de que o bairro já está saturado demais para mais arranha-céus.

Kassab anunciou na sexta-feira uma espécie de permuta com a iniciativa privada que envolveria o terreno municipal. A ideia é abrir uma licitação no começo do ano que vem para trocar o terreno por creches a serem construídas em diversos locais da cidade escolhidos pela Secretaria de Educação. O vencedor seria quem oferecesse mais creches em troca da área - a Prefeitura trabalha com a meta de 200 unidades, o suficiente para atender 32 mil crianças.

Verde. Um grupo de moradores do bairro, no entanto, é contra a proposta para o quarteirão, localizado entre as Ruas Lopes Neto, Cojubá e Salvador Cardoso e a Avenida Horácio Lopes.

"Aquela região é uma das poucas áreas verdes do Itaim. Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) analisaram as árvores da região e chegaram à conclusão de que ali está a maior diversidade vegetal do bairro", diz Helcias Bernardo de Pádua, presidente da Associação Grupo Memórias do Itaim.

Outro ponto que inquieta os moradores é a possibilidade de perder os vários equipamentos públicos existentes no local. Entre eles, estão uma creche, uma biblioteca, uma escola estadual, uma Unidade Básica de Saúde (UBS), além de uma unidade da Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais de São Paulo (Apae-SP).

"Quem usa esses equipamentos são os filhos de quem vem trabalhar para servir os apartamentos, escritórios e comércios. Como essas pessoas vão ficar se tudo isso for extinto?", questiona Pádua.

De acordo com ele, a Prefeitura poderia negociar outros terrenos próximos do Parque do Povo, também na zona sul, região, segundo ele, com mais ofertas de transporte público e sem a história do terreno do Itaim.

História. Para o presidente da Associação Preserva São Paulo, Jorge Eduardo Rubies, há o risco também da demolição de uma das poucas construções históricas do Itaim ainda de pé - a casa de campo dos Couto de Magalhães, família que deu origem ao bairro ao comprar boa parte daquelas terras no século 19.

"É o absurdo dos absurdos. Por que usar o terreno como permuta se o orçamento da Prefeitura do ano que vem é de R$ 34 bilhões? Seria possível construir milhares de creches sem ter de destruir nada disso", afirma Rubies.

Em uma reunião realizada ontem à noite, defensores do patrimônio e moradores do Itaim-Bibi decidiram enviar ofícios à Prefeitura pedindo uma reunião com o prefeito ou com secretários, além de pedir investigações por parte do Ministério Público e da Câmara Municipal. A Preserva São Paulo ameaçou até entrar com pedido de tombamento dos imóveis e da área caso os planos de Kassab sigam em frente.

Audiência. Procurada, a Prefeitura respondeu por meio de nota que haverá audiência pública para que as pessoas interessadas possam se informar sobre o projeto e apresentar sugestões. A administração disse também que vai manter os equipamentos públicos e garantir a preservação da área verde e dos imóveis de comprovado interesse histórico, embora não tenha detalhado como isso será feito.

A nota dizia também que o objetivo do projeto, além de obter as creches, "é racionalizar o uso do terreno com a construção de prédios modernos, eficientes e sustentáveis que, na prática, contribuirão para requalificar o entorno da área".

Segundo a Assessoria de Imprensa da Prefeitura, o valor da área ainda será apurado por técnicos da Secretaria de Planejamento.

PARA ENTENDER

Promessa era atender todas as crianças O objetivo do prefeito Gilberto Kassab (DEM) com a troca do terreno é cumprir uma das suas principais e mais difíceis promessas de campanha: atender 100% das crianças cadastradas para conseguir vagas em creches.     Na avaliação do prefeito, é mais fácil deixar a construção dos equipamentos por conta da iniciativa privada - que é mais ágil e enfrenta menos burocracia em todas as etapas de realização das obras.     No entanto, será necessário mais do que apenas as 32 mil vagas previstas pela administração na permuta pelo terreno - segundo a Secretaria de Educação, o déficit em setembro era de 125,4 mil vagas, cerca de quatro vezes mais.

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