'Isso aqui parece uma colônia de férias'

Grevista diz que amotinados têm como ficar mais 20 dias no prédio e se dividiram em grupos para observar movimentação de soldados

SALVADOR, O Estado de S.Paulo

09 de fevereiro de 2012 | 03h11

Enquanto não se resolvia o impasse entre associações de PMs e governo baiano, os cerca de 300 policiais militares amotinados na Assembleia Legislativa desdenhavam ontem do cerco feito pelo Exército desde a madrugada de segunda-feira.

"Isso aqui parece uma colônia de férias. Tem gente que está melhor aqui do que em casa", disse ao Estado um dos amotinados, que preferiu não se identificar, para evitar represálias. "Fazemos três refeições por dia juntos, trocamos experiências, não nos falta nada aqui." Ele diz ainda que, quando notam que há alguma rede de TV transmitindo imagens do local, saem para cantar e fazer atividades, para "mostrar que estão bem".

Ontem, às 10h30, ao saber da morte do cantor Wando, o grupo chegou a dar as mãos na sacada da Assembleia para cantar Fogo e Paixão. Em várias horas do dia, o grupo também fez ginástica na frente dos soldados.

Segundo ele, os constantes cortes nos fornecimento de água e energia elétrica não alteram a rotina no local. "Sabemos que são táticas militares para desestabilizar, estamos acostumados", conta. "Aproveitamos quando a água é religada para encher todos os galões que ficaram vazios e, além disso, estamos tirando água da piscininha (o espelho d'água que fica na frente da Assembleia). Não há nenhum problema."

Sobre a "defesa" do local, o amotinado conta que o contingente foi dividido em cinco grupos, que se revezam na observação dos movimentos do Exército. Espalhados pelo prédio com apitos, eles avisam a cada movimentação considerada "suspeita". Além disso, existe a determinação para "responder a qualquer agressão". "No ritmo em que estamos, temos mantimentos para pelo menos mais dez dias, mas, se dermos uma racionada, a gente fica mais uns 20 dias tranquilo", avalia o amotinado. "Tem muito doce aqui."

Pai de santo e água. Informado sobre o crescimento da tensão, o pai de santo José Carlos de Omolu esteve no local, no início da tarde de ontem, para rezar pelo fim pacífico do movimento. O religioso tentou entrar na área delimitada pelo Exército, mas não foi liberado pelos militares. Assim mesmo, promoveu a reza e soltou uma pomba branca, que voou sobre os militares e pousou aos pés de um deles. A pomba passou a seguir os soldados e, no fim, acabou expulsa por um grupo deles.

Por volta das 10 horas, militares receberam a ordem para ampliar o perímetro da linha de isolamento do prédio. Cinco horas depois, eles bloqueavam as entradas do Centro Administrativo da Bahia. E reclamavam do forte calor e da falta de água e alimentos. "Desde aquela hora (da mudança de posicionamento), não passou ninguém com água ou alimento por aqui", reclamou um deles. / TIAGO DÉCIMO

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