Irmãs colecionam mensagens das ruas em perfis online

Usado também por grafiteiros, material aparece em diferentes locais; Prefeitura diz que fará serviço de limpeza nesta semana

CAMILA BRUNELLI, JULIANA DEODORO, CAMILA BRUNELLI, JULIANA DEODORO, O Estado de S.Paulo

08 Outubro 2012 | 08h43

As irmãs Andreucci - Beatriz e Débora, de 26 anos e Daniela, de 33 - colecionam "desabafos" escritos em paredes, pichadas, coladas ou grafitadas para o projeto As Ruas Falam. Elas procuram frases como "Não jogue lixo nas urnas" ou "Sonhar é grátis" escritas em algum muro ou uma placa de sinalização de trânsito com a ordem "Pire", em vez de "Pare". Juntam imagens de colaboradores nos perfis no Facebook, Instagram e Pinterest.

"Vimos que muitas pessoas querem desabafar, inspirar ou motivar os outros e que querem ser ouvidas, querem se expressar, sendo artistas ou não. Acho que vamos até descobrir novos talentos", diz Bia.

Quem quer participar pode mandar a foto com a mensagem por e-mail no inspirationpage@gmail.com, ou postar a foto no Instagram ou no Pinterest com a tag #asruasfalam. O único critério é ter alguma frase. Só grafite ou pichação não vale.

Em menos de um mês elas já receberam mais de 200 imagens - e não só de São Paulo. Segundo Bia, há manifestações de Brasília, Bento Gonçalves (RS), São Luís (MA), Nova York, Buenos Aires e Montevidéu.

Muro. O projeto olheosmuros, por sua vez, quer registrar qualquer tipo de manifestação artística, poética e filosófica em muros, calçadas, placas, postes, paredes: de mensagens a grafites, desenhos, pichações ou colagens. As imagens são postadas com endereços, para que as pessoas possam visitar o local. A compilação começou no Twitter (@olheosmuros) há três anos e foi expandida para o Tumblr (olheosmuros.tumblr.com).

"O olheosmuros foi pensado e criado como um coletivo, para agregar todas as pessoas observadoras das cidades, de seus muros, poesias e artes", disse o advogado Eduardo Perazza de Medeiros, de 29 anos, que teve a ideia, ao lado da publicitária Gabriel Serio, de 26. Hoje o perfil tem quase 1,5 mil seguidores no Twitter e mais de 30 mil no Tumblr.

Pichadores e grafiteiros do mundo todo disputam diariamente a atenção pelos muros e edifícios das cidades. É por isso que muitas vezes eles arriscam suas vidas para tentar atingir lugares que sejam mais altos, mais inacessíveis e, por isso, mais interessantes. Em São Paulo, alguns descobriram nova maneira de chamar a atenção sem grandes riscos: usando tinta fosforescente.

Pichações nas cores laranja, rosa e amarelo brilham à noite e de dia no túnel da ligação Leste-Oeste, sob a Praça Roosevelt, no centro da capital. As mensagens, realçadas ainda mais pelas luzes azuis recentemente instaladas, ganham destaque e podem ser vistas de longe. Nas paredes há protestos políticos e grafites de grupos que já têm suas marcas em outros muros.

Para o morador da Praça Roosevelt e pesquisador de arte urbana Sérgio Franco, a ação é uma "reintegração de posse" feita pelos autores das pichações. "Isso mostra a ausência do controle absoluto sobre a cidade, o que em São Paulo, é uma pretensão."

Franco foi um dos curadores da intervenção de pichação que houve na Bienal de Berlim deste ano. Na avaliação dele, o uso da tinta fosforescente, que brilha com o contraste da iluminação azul, foi uma boa estratégia dos pichadores. "Essa iluminação foi feita para deixar o lugar em evidência. O que eles fizeram foi usar a iluminação pública."

Djan Ivson, o responsável pela pichação do espaço vazio da Bienal de São Paulo em 2010, se surpreendeu com as imagens do túnel. Segundo ele, o resultado estético da intervenção era o que mais se destacava. "Fazer uma pichação que seja inédita atrai os pichadores em geral. Acho que muita gente não se deu conta do resultado estético deste spray fosforescente, ou isso já estaria em outros lugares."

Segundo a Secretaria de Coordenação das Subprefeituras, está na programação desta semana o serviço de limpeza na região. A secretaria afirmou que fará uma nova vistoria hoje.

Na entrada do túnel dá para ler a sigla Vlok, também pichada com tinta fosforescente. O que difere essa intervenção das outras é que as letras ocupam praticamente todo o espaço disponível. "Para fazer uma pichação assim é preciso a ajuda de extintores de incêndio e é mais comum entre grafiteiros do que entre pichadores", afirma Ivson.

Desde 1998, pichação é crime no País, com pena de 3 meses a 1 ano de reclusão, além de multa. Já o grafite não é considerado crime - desde que a obra seja feita com o fim de valorizar o patrimônio público ou privado e tenha autorização do dono do imóvel. O entendimento foi estabelecido no ano passado, com lei que proibiu a venda de tinta spray a menores de 18 anos. No dia 1.º, a Praça Roosevelt, no centro de São Paulo, amanheceu pichada, um dia após sua reinauguração.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.