Investigador se desespera com a morte de soldado

Ele acompanhava escutas que flagraram ordem do PCC para execução de policial

WILLIAM CARDOSO, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2012 | 02h03

Toca o telefone. São 15h16 de 13 de outubro deste ano. Integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) começam a pôr em prática um plano para executar o policial militar Flavio Adriano do Carmo, de 45 anos. Um investigador da Polícia Civil acompanhou tudo a 25 km dali, por uma escuta telefônica, desesperado para saber contra quem e onde seria cometido o crime. A data, ele já sabia. "Aí, nós vamos ficar na bala ali, que é hoje", disse o criminoso identificado como Chaveiro para o comparsa Cacha. Foi dada a ordem de execução de um dos 95 PMs vítimas da onda de violência nos últimos meses no Estado de São Paulo.

Interceptações telefônicas feitas com autorização judicial pela 5.ª Delegacia do Patrimônio (roubo a banco) do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) mostram tudo o que os policiais civis ouviram no dia da morte de Carmo, sem conseguir evitá-la. Foram pelo menos 20 ligações até a conclusão do plano. Os criminosos pareciam confusos. "Ele parece... Cabelo grisalho, de lado, meio quadradinho", disse Chaveiro.

Em outra ligação, eles contaram que, por várias vezes, passaram na frente do local onde estava o PM, como quem se preparava para iniciar a caçada e precisava observar a presa. Os investigadores seguiam sem nenhum indicativo do local, o que aumentou o desespero.

Os criminosos também descreveram o cenário: viaturas, motos e uma base da PM, cercos a todos que passam pelo local. No meio da tarde, a impressão era de que qualquer ataque desferido pelos bandidos naquele momento seria uma aventura camicase, mas os criminosos esperaram pelo momento certo.

A cada conversa, novos nomes surgiam. Foram citadas pelo menos nove pessoas arregimentadas para dar cobertura e executar a ação. A "caminhada" de todos, porém, era uma só: acabar com a vida de Carmo naquele dia, para pânico de quem escutava as ligações.

Os bandidos falavam sempre em "quebradas". Descreviam ruas, como milhares das que existem na metrópole. Mas nenhum indicativo certeiro de onde estava a vítima. E quem poderia salvá-lo ouvia tudo com a sensação de impotência.

À noite, os bandidos se aproximaram do lugar onde estava o PM. Chegaram em um carro com placa clonada e em outro roubado. Falaram em pegar as peças - a "grandona" (fuzil) e uma "pista" (pistola). Depois, era só "descer para concluir", disse Léo Gordão, o chefe.

20h57. Os bandidos trocaram as últimas informações. Pelo telefone, ninguém ouviu os disparos. O PM foi morto em minutos, com dois tiros de fuzil: um no peito e outro na cabeça. "Já era... Tudo tranquilo", disse Gordão. "É nóis, então", falou um comparsa.

Leandro Rafael Pereira da Silva, de 28 anos, o Leo Gordão, foi preso em 14 de novembro. Ele foi acusado de ordenar a morte de outro PM, Renato Ferreira da Silva Santos. Em outro caso, ele falhou. Os policiais civis conseguiram salvar um PM a tempo - telefonaram para o policial minutos antes da chegada do grupo que devia executá-lo em uma padaria. Agora, a procura é pelos bandidos que participaram da execução.

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