Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Intervenção artística pelas ruas de SP espalha mensagens em apoio ao isolamento social

'Queremos ocupar a rua com poesia e não com gente', diz idealizador; campanha pintou recados em 16 vias de São Paulo

João Ker, O Estado de S.Paulo

20 de abril de 2020 | 22h21

SÃO PAULO - “A cidade não está vazia, está cheia de amor ao próximo". A mensagem de incentivo ao distanciamento social recomendado para impedir a propagação do novo coronavírus amanheceu na segunda-feira, 12, ocupando uma faixa do asfalto em frente ao Cemitério da Consolação, na região central paulistana. Uma semana depois, ela e outras duas se replicaram por ao menos 15 pontos de São Paulo, como parte de uma intervenção urbana organizada por um grupo de sete amigos.

Idealizada pelo produtor gráfico Victor Hugo Ghiraldini, a ação usa também as frases “Cada rua vazia é uma multidão contra o vírus” e “Pelo bem de todos e felicidade geral da nação:” acompanhadas da hashtag #FiqueEmCasa, para “se conectar com as pessoas”. Pintadas com estêncil e tinta à base de cal, as matrizes em lona vinílica têm 15 metros de largura por dois metros de altura e deveriam ter saído ao menos uma semana antes, não fosse a burocracia de intervenções artísticas no aparelho urbano da capital.

“Nossa ideia é sensibilizar, porque a mídia tem reforçado essa questão, mas ainda não havia uma manifestação das ruas”, explica Ghiraldini. As mensagens foram criadas pelo publicitário Marcelo Nogueira. Diretor criativo da agência AlmapBBDO, ele explica que essa foi a forma que encontrou para ajudar no combate à covid-19, além do próprio isolamento social há mais de um mês.

“A inspiração veio da vivência que estamos tendo. Esse assunto está muito na cabeça de todo mundo”, explica. Os slogans, conta, foram criados em apenas duas horas e escolhidos entre dez opções enviadas. “O ponto é ficar em casa, mas quem está falando isso é a rua”, explica o diretor criativo.

Ainda assim, as ruas de São Paulo foram tomadas nos últimos dois fins de semana por carreatas e protestos contra o governador João Doria (PSDB) e a quarentena imposta no Estado para impedir a propagação do coronavírus. Na Avenida Paulista, um pequeno grupo de manifestantes desfilou com camisas da seleção brasileira, dançando enquanto seguravam um caixão preto e pediam o fim do isolamento. 

A insistência desse grupo tem refletido nos números oficiais coletados pelo recém-lançado Sistema de Monitoramento Inteligente (Simi-SP), que na última semana registrou taxa de isolamento social na capital de apenas 49% da população. O índice defendido pelo governo é de 70%. 

“O distanciamento está entrando em dúvida, o que não era para existir. Tenho sentido que o movimento tem aumentado e talvez a gravidade do vírus tenha se perdido. As intervenções são um canal a mais para reforçar essa medida”, defende Ghiraldini. 

Grupo chegou a ser levado à polícia e precisou de alvará da Prefeitura

Na noite da mesma segunda em que fizeram a primeira aplicação para testar o comportamento da tinta no asfalto, o grupo de amigos saiu em três carros pelo centro de São Paulo para espalhar a imagem por pontos estratégicos da cidade. Logo durante a  primeira parada, na Praça Franklin Roosevelt, eles foram abordados por nove agentes da Guarda-Civil Metropolitana (GCM) e Ghiraldini foi encaminhado à 78ª delegacia de polícia, nos Jardins, por “pichação”.

Por volta de 1 hora da terça, 14, ele foi liberado pela delegada Luciana Peixoto, que reconheceu no boletim de ocorrência “a fácil remoção da tinta” e não viu dolo na ação do grupo. Entretanto, ela frisou que a ação necessitava de uma permissão formal da Prefeitura de São Paulo.

Nos próximos cinco dias, o produtor gráfico foi em busca dessa autorização. A permissão foi expedida no sábado, 18, e ação então seria retomada na noite seguinte, por meio de uma parceria com a Prefeitura. Procurada pela reportagem, a Secretaria Municipal de Cultura confirmou que a ação liderada por Ghiraldini foi aprovada em caráter de exceção pelo cunho social das mensagens, que frisam a importância do isolamento social. 

Ghiraldini, porém, reforça que a ação não tem viés político: “A campanha nasceu de uma forma orgânica. Estamos entrando nessa pra informar e sensibilizar de alguma maneira sobre o que todo o mundo acredita ser o caminho mais certo para se resguardar”. Marcelo ainda frisa que “politizar uma questão médica e científica é um perigo” e não há opinião no que diz respeito ao isolamento, apenas fatos. “A intenção é fugir da política e focar na prática, de forma leve, poética e não agressiva. A ideia é ser útil.” 

A psiquiatra do Hospital Albert Einstein e conselheira estadual em política sobre drogas Débora Medeiros vê na campanha de Ghiraldini uma forma de ajudar a população de São Paulo a superar o “trauma coletivo” criado pelo isolamento contra o coronavírus. “Uma mensagem que engaja pela via afetiva é interessante, ainda mais pela forma como o comportamento final pode diminuir os impactos sobre o sistema de saúde”, avalia.

“Manter um processo de isolamento não é fácil. Reforçar a motivação para isso é muito importante”, afirma Medeiros, que compara a chegada do coronavírus a “uma troca de pneus com o veículo em movimento”. “Aumentar a sensação de pertencimento nesse momento ajuda a lidar com a preocupação a médio e longo prazo do pós-epidemia, principalmente do impacto na saúde mental e o processamento desse período.”

Ao longo da última madrugada, Ghiraldini e os outros seis membros do grupo voltaram às ruas e, entre 21h e 6h da segunda-feira, 20, conseguiram finalmente replicar a campanha por outros 15 pontos da capital. Munidos da autorização expedida pela Prefeitura e apoiados pela Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), eles terminaram essa primeira fase da ação na Avenida Paulista, que já estava lotada de pessoas ao amanhecer. Ele já pensa em expandir a ideia para outras áreas da cidade: “Estamos pensando em outras mensagens para pegar pessoas de diferentes perfis. Queremos ocupar a rua com poesia e não com gente”.

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