Reza Brava Filmes
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Internet faz ‘caipirês’ cair em desuso entre jovens no interior de SP; descubra expressões

'Erre' arrastado continua na pronúncia, mas quem tem pouca idade entende pouco do que dizem os mais velhos, mostra pesquisa da USP

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

06 de abril de 2022 | 15h00

SOROCABA - Encher o bucho, ter viuvinha e dor nas cadeiras já não são expressões facilmente entendidas pela população mais jovem do interior de São Paulo como eram no passado. Embora o ‘erre’ arrastado ainda esteja presente na pronúncia, os moradores jovens de cidades como Piracicaba, Capivari e Sorocaba não entendem termos usados pelos mais velhos, como picar a mula (fugir) e mover os quartos (quadril). Uma pesquisa da Universidade de São Paulo (USP) mostrou que o dialeto caipira está caindo em desuso entre a população mais jovem, principalmente por causa da influência da internet.

No próximo ano, se completam 50 anos do clássico Um Caipira em Bariloche, de Amácio Mazzaropi. Nessa obra de sua fase rural, e outras como Tristeza do Jeca, de 1961, ele levou o “caipirês” para o cinema. Hoje, porém, ele está mais vivo no linguajar dos idosos, que usam menos as redes sociais e são os verdadeiros guardiões do sotaque característico das cidades próximas ao Rio Tietê. É o que mostra o estudo da pesquisadora Lívia Carolina Baenas Barizon apontou que o Português verbalizado nessa região se aproxima da língua galega, falada na região ocidental da Península Ibérica, compreendendo partes de Portugal e de Galícia, comunidade autônoma da Espanha. Ao menos 82% das palavras usadas por esses paulistas possuem correspondência com termos do galego.

A pesquisa se ateve às cidades ao longo do Rio Tietê – moradores de Itu, Porto Feliz, Pirapora do Bom Jesus, Tietê e Santana de Parnaíba também contribuíram – porque a região foi importante para a difusão da Língua Portuguesa e do dialeto caipira quando os bandeirantes desciam o rio, interior adentro, até as barrancas do Rio Paraná, para desbravar terras e garimpar ouro. Segundo a pesquisadora, o dialeto caipira teria surgido nos núcleos familiares dessas cidades a partir do século 18.

Lívia dividiu os 48 informantes em grupos de homens e mulheres por faixas etárias – jovens de 18 a 25 anos, adultos de 36 a 55 e idosos acima de 60. Um questionário com 138 perguntas foi apresentado a eles, mas a pesquisadora usou também desenhos do corpo humano. “Para deixar os entrevistados bem à vontade, eu apresentava o desenho ou apontava partes do meu próprio corpo, pedindo que eles identificassem”, contou. No ‘caipirês’, barriga virou ‘bucho’, cabeça é ‘coco’ ou ‘cachola’, pálpebra é “capela do olho’, e pescoço, ‘congote’.

Houve um predomínio do dialeto caipira entre os mais idosos, o que, segundo a pesquisadora, pode estar associado à menor influência das mídias digitais nessa faixa etária. “Uma das grandes influências que pude observar é da escolaridade, pois quanto menor é ela, mais a língua fica estagnada. Assim, os idosos com menos escola mantiveram mais o dialeto”, explicou.

Os jovens, segundo ela, tendem a usar termos mais próximos da realidade deles, por terem maior escolaridade e pela influência das redes sociais. Entre homens e mulheres, elas lideraram a tendência ao desuso do dialeto.

Das 85 unidades lexicais selecionadas para análise, como barba, boca, cabeça, cotovelo, dedo, articulação e umbigo, por exemplo, 82,4% foram convergentes com o galego. Esse idioma e o Português possuem semelhanças por causa de questões históricas e sociais e era falado na região onde hoje fica Portugal até meados do século 12, segundo a pesquisadora.

Na tese ‘O léxico caipira: tesouro da língua às margens do Anhembi’, defendida em seu doutorado na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, a filóloga desvenda as origens do dialeto caipira, a partir do português e do galego.

Para escolher as palavras da língua galega a serem comparadas com o dialeto caipira paulista, Livia recorreu ao Atlas Linguístico Galego (Alga), criado em 1970. O estudo teve orientação do professor Manoel Mourivaldo Santiago Almeida, do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da FFLCH, e co-orientação da professora Maria do Socorro Vieira Coelho, da Universidade Estadual de Montes Claros.

“A pesquisa da Lívia tem grande importância para os estudos do Português falado em São Paulo, na região da cultura caipira, porque permite compreender os processos de variação e mudança da variedade que se expandiu dessa região para outras partes do Sudeste, Sul e Centro-Oeste do Brasil, pelos caminhos do Rio Tietê, antigo Anhembi”, disse Almeida.

Pesquisadora contou com ajuda dos pais e do marido

A pesquisadora contou com a ajuda dos pais e do marido para o trabalho de campo da pesquisa. Ela também teve ajuda de facilitadores, que ajudaram a inserir a jovem nas comunidades. Em Porto Feliz, a facilitadora foi a dona de uma pensão. Em outras cidades, houve apoio de funcionários das prefeituras. “Foi mais difícil do que eu imaginava, pois as pessoas têm certa resistência a falar, ainda mais diante de um gravador. Felizmente sou comunicativa e deixava os informantes bem à vontade.”

As primeiras entrevistas foram feitas em Piracicaba, com dois jovens. Quando era preciso abordar as partes íntimas, ela pedia ajuda ao pai e à mãe. Mesmo assim, algumas pessoas se sentiam pouco à vontade, como um rapaz de Santana de Parnaíba que, instado a dar outros nomes para o órgão sexual masculino, deu apenas dois nomes. “Foi uma exceção, pois foram as partes do corpo que mais tiveram variações e diversidade de vocábulos”, comentou.

Em Itu, última cidade pesquisada, Lívia foi com a mãe a um clube de idosos onde havia um bar. “Uns cinco senhores começaram a falar e, quando chegamos às partes íntimas, eles se divertiram muito”, lembrou. Para o ânus, por exemplo, foram apresentados 21 nomes diferentes, entre eles fiofó e fiantã. A pesquisadora, que também é professora, perguntou a uma aluna do 3º ano do ensino médio se ela sabia o significado de fiantã. A jovem disse que nunca tinha visto ou ouvido essa palavra.

Em Piracicaba, o dialeto caipira, conhecido como ‘caipiracicabano’, foi conhecido como patrimônio imaterial, em 2016, pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural da cidade (Codepac). O relatório final dos conselheiros reconheceu o conjunto de expressões e palavras usadas nas características do dialeto como importante para a identidade cultural da população. O ‘caipiracicabano’, caracterizado pela pronúncia carregada dos “erres” e a troca de letras, como o “L” pelo “R” e o “LH” pelo “I”, acabou ganhando até um dicionário, o “Arco, Tarco e Verva”, escrito pelo jornalista Cecílio Elias Neto.

Veja algumas palavras e expressões:

Cascá o bico: rir muito

Pagá a língua: ser punido pelo que disse

Queimá paia: conversa sem relevância

Ponhá reparo: observar tudo

Pegá o trecho: ir embora

Picá a mula: ir embora com pressa

Carcá duro: colocar força

Um tirinho: lugar perto

Mió do boi: coisa boa

Juntá traia: carregar mudança

Corpo humano, segundo o ‘caipirês’:

Zóio: olho

Cadeira: quadril

Fura-bolo: dedo indicador

Munheca: punho

Juízo: dente do siso

Gogó: pomo-de-adão

Cacunda: costas

Napa: nariz

Cachola: cérebro

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