Instituto de Física: 8 décadas a serviço do desenvolvimento da ciência brasileira

O Instituto de Física nasceu há 80 anos como departamento da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. As grandes transformações da Física no século 20 - a Teoria da Relatividade e a Mecânica Quântica - começavam a fazer parte da ciência brasileira, sob a liderança de Gleb Wataghin, físico de formação italiana que chegou a São Paulo em 1934 e atraiu para a pesquisa um grupo brilhante de alunos da Escola Politécnica.

ADALBERTO FAZZIO E SÍLVIO SALINAS, O Estado de S.Paulo

11 de outubro de 2014 | 02h07

Mário Schenberg, que se transformaria em físico de prestígio, era o "colaborador teórico" da primeira turma de alunos de Wataghin. Schenberg publicou seu primeiro artigo científico em 1936, em italiano, numa revista de reputação. Viajou para a Europa, passando dois anos em Roma com o grupo de Enrico Fermi, prêmio Nobel de Física de 1938. Pode-se creditar a Wataghin a inserção internacional que o instituto manteve durante toda a história. Marcello Damy de Souza Santos e Paulus Aulus Pompeia, alunos de Wataghin, realizaram pesquisas sobre a detecção de raios cósmicos, descritas em diversos artigos. Durante a 2.ª Guerra, trabalharam para a Marinha no "Projeto Sonar", usando conhecimentos de Eletrônica para desenvolver detectores de submarinos. Esse trabalho é um ótimo exemplo da pesquisa básica contribuindo para responder a demandas da sociedade. Pompeia teve papel importante na organização do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). Damy foi um dos fundadores do Instituto de Energia Atômica (IEA), atual Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen).

Na década de 1950, a criação do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) no Rio de Janeiro teve contribuição significativa da geração da USP. Cesar Lattes, aluno de Wataghin, descobridor do méson pi - a maior contribuição de um brasileiro à Física do século 20 -, foi o primeiro diretor do CBPF. Entre os fundadores estavam José Leite Lopes e Jayme Tiomno, que tinham passado pela USP.

No final da guerra, era evidente a importância da Física Nuclear e dos aceleradores de partículas. Damy obteve recursos para montar um acelerador de elétrons com a participação de jovens físicos, incluindo José Goldemberg, que mais tarde seria reitor da USP e ministro. No início da década de 1950, foi construído na USP sob a coordenação de Oscar Sala, antigo aluno de Wataghin, um acelerador eletrostático para estudar reações nucleares. Esses pioneiros moldaram a ciência brasileira, tornando-se mais tarde lideranças científicas nacionais.

Na década de 1960, as áreas de pesquisa do antigo departamento passaram por grandes mudanças. Sob a influência da Física do estado sólido, que produziu o transistor e o laser, foi criado um laboratório com ajuda de brasileiros no exterior. O gás hélio foi liquefeito no Brasil em meados de 1961 no Laboratório de Estado Sólido e Baixas Temperaturas, abrindo novas oportunidades de pesquisa. Constituiu-se também um grupo teórico sobre propriedades eletrônicas de materiais.

A partir da década de 1970, com disponibilidade maior de pessoal e apoio de agências como a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), surgiram outros laboratórios em áreas básicas e aplicadas: Física de Plasmas, Cristalografia, Física Atmosférica, Óptica Quântica, Biofísica, novos materiais semicondutores, imagens por ressonância magnética, Física Médica. Na Física teórica, a maior parte dos pesquisadores é herdeira das tradições da Física das partículas elementares, mas atualmente há grande diversificação, com atividades em Física Nuclear, Cosmologia, diversos tópicos da Física da matéria condensada, simulações computacionais de nanomateriais. O instituto sempre se manteve fiel às suas tradições de pesquisa acadêmica, mas com o olhar voltado à cultura científica e às necessidades do País. Mantemos o Show da Física, espetáculo que recebeu no ano passado cerca de 25 mil alunos do ensino médio, e Arte e Ciência no Parque, mostra científica aberta ao público. Coordenamos os projetos Encontro USP-Escola e Vivendo a USP, parte de um programa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) que envolve 12 unidades da USP e registrou a presença de 900 professores da rede pública.

A formação de recursos humanos de alta qualidade, preparados para enfrentar os desafios do mundo contemporâneo, é a maior tarefa da universidade. Nas décadas de 1980 e 1990, respondemos por cerca de 20% dos físicos formados no País. Na pós-graduação, que se beneficia da diversidade de nossas linhas de pesquisa e tem mantido nível máximo nas avaliações da Capes, estamos formando anualmente cerca de 40 doutores e 50 mestres. Em conjunto com outras unidades da USP, criamos um programa de pós-graduação de Educação em Ciências. Necessitamos agora do empenho da USP para simplificar currículos, ampliar opções e criar estímulos à iniciativa e à participação dos alunos.

ADALBERTO FAZZIO É DIRETOR DO INSTITUTO DE FÍSICA DA USP; SÍLVIO SALINAS É EX-DIRETOR DO INSTITUTO DE FÍSICA DA USP. AMBOS SÃO MEMBROS DA ACADEMIA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS

Tudo o que sabemos sobre:
USP

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.