O ministro da Educação Cid Gomes promete mais exigências
O ministro da Educação Cid Gomes promete mais exigências

Instituições têm alta evasão e baixas notas

Das faculdades no Fies, só 16% têm índice de qualidade 4; desistência entre alunos com crédito subiu 88% em dois anos

O Estado de S.Paulo

15 Fevereiro 2015 | 02h03

Enquanto o dinheiro público financia cada vez mais o ensino superior particular, os índices de qualidade dessas instituições ainda deixam a desejar. Além disso, o investimento não surtiu efeito na evasão: o número de alunos que abandonaram os cursos na rede privada está crescendo e foi ainda maior entre os estudantes que têm contrato de Financiamento Estudantil (Fies).

Apenas 16% das 448 faculdades, centros universitários e universidades cujas mantenedoras receberam 80% de todo o valor gasto com Fies em 2014 têm índices de qualidade acima do mínimo exigido. São 71 instituições com Índice Geral de Cursos (IGC) de número 4 - nenhuma tem índice 5. Outras 46 instituições (10%) aparecem sem conceito, segundo o cadastro de instituições de ensino superior do Ministério da Educação (MEC).

O conceito 3 do IGC é o mínimo para que uma instituição funcione, de acordo com a regulação do setor. Ele é calculado a partir da média dos três últimos anos dos resultados do Conceito Preliminar de Curso, o CPC. Esse índice leva em conta a avaliação feita pelos alunos, o Enade, e a análise da infraestrutura e corpo docente.

Em 2013, 72% de 1.568 instituições de ensino superior no País tinham IGC 3. Só 4% chegaram a um indicador 4 ou 5. Até hoje, para uma instituição ter alunos no Fies, o IGC não é levado em conta, apenas o CPC - que precisa ser de no mínimo 3, numa escala de 1 a 5.

Na semana passada, o ministro da Educação, Cid Gomes, disse que os critérios de qualidade das instituições que participam do Fies seriam reforçados. O uso do IGC foi cogitado, mas até agora nada foi concretizado.

Segundo o professor Celso Napolitano, presidente da Federação dos Professores do Estado de São Paulo (Fepesp), além de exigir melhoria no ensino, o sistema de financiamento deveria ter monitoramento que inclua a empregabilidade dos concluintes. "Esse programa tem de sofrer avaliação permanente para ver se cumpriu a função. Precisamos ter pesquisa dos egressos e saber se esse dinheiro foi bem aplicado. As pessoas que se formaram ali realmente melhoraram sua condição social?"

Abandono. O aumento da participação do Fies nas matrículas do ensino superior privado não promoveu também um aumento no número de formandos. O volume de concluintes caiu 7% entre 2012 e 2013 - enquanto no setor público esse indicador cresceu 2%. Os dados sobre o ensino superior de 2014 não estão disponíveis.

O mais surpreendente, no entanto, é a desistência na rede particular. A evasão cresceu 28% de 2012 a 2013 nas privadas de modo geral. Entre os alunos com Fies, esse número subiu 88%, segundo dados do Censo da Educação Superior tabulados pela CM Consultoria.

O professor da Universidade de São Paulo (USP) Otaviano Helene indica outra agravante. "Os cursos financiados não têm relação com as necessidades estratégicas do Brasil, o governo não está financiando a formação em áreas prioritárias", diz Helene, que foi presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), órgão do MEC. "Além disso, os financiamentos estão concentrados onde há clientela, não onde estão as lacunas."

Dados do censo mostram, por exemplo, que as matrículas de nível superior cresceram 13% em São Paulo entre 2010 e 2013. Já o número de alunos com contratos do Fies no Estado saltou 1.216% - mais do que o dobro da média de evolução do financiamento no País, que foi de 448% no mesmo período. / J.R.T., P.S. e R.B.

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