Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Instabilidade climática dificulta previsões sobre fim da estiagem

Sabesp comemora chuva acima da média, mas não se sabe se o sistema que atuou no Sudeste neste mês se manterá

Fabio Leite, O Estado de S. Paulo

24 Fevereiro 2015 | 03h00

SÃO PAULO - As chuvas acima da média que ajudaram a elevar o nível de água dos mananciais que abastecem a Grande São Paulo em fevereiro deixaram os gestores da crise hídrica otimistas quanto a um possível fim da estiagem extrema, que começou no fim de 2013, no Sistema Cantareira. Especialistas em hidrologia e meteorologia alertam, contudo, que ainda é cedo para cravar uma mudança de padrão climático definitiva no Sudeste e destacam o retorno de dias quentes e secos nesta semana.

Segundo o meteorologista Marcelo Seluchi, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), em fevereiro, pela primeira vez em mais de um ano, houve a formação da Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS), sistema que traz chuvas para o Sudeste no verão. 

“Só que ele ainda é curto e fraco e não significa que vai se manter. Até porque o sistema de alta pressão que impediu a ZCAS no ano passado e em janeiro não se dissipou completamente. Está recuado sobre o oceano e a previsão é de que ele volte nesta semana, aumentando a temperatura e diminuindo a chuva”, explica Seluchi.

Dirigentes da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) e da Agência Nacional de Águas (ANA) comemoravam a volta das chuvas em fevereiro (34% acima da média) e a vazão de entrada de água no Cantareira, que está três vezes maior do que em janeiro passado e fevereiro de 2014. Só neste mês, a capacidade do maior manancial paulista subiu 18 dias consecutivos, de 5% para 10,6%, considerando as duas cotas do volume morto. Sequência assim não ocorria há mais de dois anos. 

A hidrologista Adriana Cuartas, do Cemaden, diz, porém, que o fator determinante para início da recuperação do Cantareira, que registrava déficits mensais desde maio de 2013, foi a redução da retirada de água para abastecer cerca de 6,5 milhões de pessoas na Grande São Paulo e mais 5 milhões nas regiões de Campinas e Piracicaba. 

“O grande diferencial para a recuperação do Cantareira é que, agora, estão fechando a torneira mesmo. A extração de água das represas diminuiu bastante”, afirma Adriana. A retirada foi reduzida de 17 para 10 mil litros por segundo em menos de um mês, principalmente por causa da redução da pressão e do fechamento de 40% da rede durante a maior parte do dia. Antes da crise, a captação chegou a 36 mil litros por segundo.

Sem chuva. O retorno do sistema de alta pressão para o continente no fim de semana fez com que os seis mananciais que abastecem a Grande São Paulo não registrassem um milímetro de chuva nos dois últimos dias. Mesmo assim, o nível do Cantareira, que é o mais crítico, subiu porque os rios que alimentam as represas ainda estão com vazões mais altas. A previsão do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) é de que as chuvas não ultrapassem a média em março, último mês da estação chuvosa em São Paulo.

Segundo Adriana, no cenário atual, com a mesma retirada de água e chuvas dentro da média nos próximos meses, as duas cotas do volume morto do Cantareira só seriam recuperadas no fim de 2015. “Só vai melhorar se chover de 25% a 50% acima da média. Nestes cenários, poderíamos recuperar o volume morto em abril ou junho, respectivamente.” 

O governo Geraldo Alckmin (PSDB) vai esperar o fim da estação chuvosa para definir se implantará um rodízio oficial, que deve ser de quatro dias sem água por dois com. Além das águas de março, a Sabesp calcula um “gatilho” do racionamento que levará em consideração as obras emergenciais para aumentar em 5 mil litros por segundo a transferência de água para o Sistema Alto Tietê e a terceira e quarta cotas do volume morto do Cantareira.

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