Inquérito sobre confronto policial culpa o governo de SP

Este é o direcionamento que vem sendo dado à investigação; PM também é apontada como responsável

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

18 Março 2009 | 02h08

O inquérito que deveria descobrir os culpados pelo confronto entre as Polícias Civil e Militar em frente ao Palácio dos Bandeirantes, em outubro do ano passado, aponta para a atuação da Polícia Militar e do governo de São Paulo no caso. A atuação de seus integrantes é alvo de críticas da maioria dos depoimentos de policiais civis e militares ouvidos na apuração da Corregedoria da Polícia Civil. A maioria dos policiais civis aparece no inquérito como vítimas das bombas e balas de borracha da PM.

 

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Depois de cinco meses de apuração não foram identificados os autores dos tiros de fuzil contra o Palácio nem o policial civil que atirou no coronel Danilo Antão Fernandes. Também não há informação sobre a identidade dos policiais civis que danificaram nove viaturas da PM ou dos autores das lesões nos 35 policiais feridos na batalha ocorrida em 16 de outubro de 2008. Naquele dia, policiais civis grevistas - a paralisação durou 58 dias - foram ao Palácio dos Bandeirantes, sede do governo, onde é proibido manifestações. Um esquema de segurança foi montado para impedi-los.

 

No inquérito sobre o confronto, há depoimento de PM dizendo que foi usado como "isca" (como o cabo Sidnei Carmono dos Santos) e outros afirmando que, em ocasiões semelhantes de protestos em frente ao palácio, o governo sempre recebeu comissão de manifestantes e que eles estranhavam que isso não tivesse ocorrido. Esse é o caso dos PMs Edson da Costa Reis e Anderson José Oliveira, da Força Tática do 4º Batalhão. Os termos dos depoimentos dos dois são idênticos na resposta às perguntas sobre a condução das negociações do governo com os grevistas.

 

Há mais: como boletins de ocorrência registrados e juntados ao inquérito, como o de número 6780/2008 (34º Distrito Policial) em que aparece como "averiguado" o "comandante-geral da PM". Em outro, o averiguado é a "PM" e em outro, esse papel é reservado ao "Batalhão de Choque da Polícia Militar" (BO 4332/2008, do 54º DP). Em um deles, a vítima do confronto é a "Secretaria da Segurança Pública de São Paulo". O inquérito ainda não acabou.

 

Vítima de um tiro no abdome disparado por um policial civil, o coronel Antão, por exemplo, foi questionado ao depor sobre quais autoridades compunham o gabinete de crise no Palácio. Ele então relatou quais os diretores da Polícia Civil, coronéis da PM e secretários (Luiz Antônio Marrey, Justiça; Ronaldo Marzagão, Segurança; Sidnei Beraldo, Gestão) estavam com o governador José Serra (PSDB). Antão foi inquirido sobre o motivo de não ter permitido aos seus homens do 16º e 4º Batalhões o uso de equipamento para tumultos - eles teriam deixado tudo em viaturas.

 

Agredido ou Agressor

 

O tenente Elias Profeta de Araújo, filmado recebendo um tapa na cara desferido pelo investigador Ismar Molina Junior, aparece como "agressor" nos depoimentos dos policiais civis. Por seu profissionalismo, o tenente recebeu a solidariedade até do governador Serra. Ao depor, Molina Junior disse que foi agredido antes pelo tenente. Testemunhas disseram o mesmo.

 

A transformação de Profeta em agressor nos depoimentos não é inédita nas apurações sobre a greve feitas pela Corregedoria da Polícia Civil. O investigador Márcio José Raimundo de Oliveira foi inocentado na apuração que investigava a agressão feita por ele contra um motoboy no Viaduto do Chá, durante passeata em 27 de outubro. O relatório final da corregedoria, feito pelo delegado Gérson Carvalho, decidia pelo arquivamento. O fato deixou contrariado o secretário Marzagão - Carvalho foi afastado.

 

Ao depor, o tenente Profeta afirmou que não queria representar contra o investigador que lhe deu o tapa, mas reconheceu Molina Junior como agressor. Profeta contou que alguém furtou vários objetos de viaturas da PM no confronto. Foram subtraídos cinco boinas, quatro sprays de pimenta, uma bolsa com quatro bombas de efeito moral, uma mochila, um braçal da Força Tática, uma mochila com capote de frio, um guia de ruas, uma pasta com documentos e uma carteira de identidade funcional da PM, CNH, cartão bancário e R$ 50. Ninguém foi apontado como responsável pelos atos.

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