Inquérito apura desvio de verba secreta no Denarc

Corregedores querem saber se o dinheiro das operações sigilosas foi usado por tesouraria da polícia para pagar obra sem licitação

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

26 Setembro 2010 | 00h00

A origem do dinheiro usado para pagar parte da reforma do prédio do Departamento Estadual de Investigações sobre Narcóticos (Denarc) é a verba de operações policiais sigilosas. Essa é a principal hipótese investigada pela Corregedoria da Polícia Civil para justificar o pagamento de R$ 40 mil em dinheiro vivo supostamente feito pela tesouraria da Delegacia Geral de Polícia (DGP) sem recibo ou qualquer outro comprovante.

Dono da empresa responsável pela reforma, Wandir Francisco Falsetti contou ter recebido o dinheiro na tesouraria da DGP. Quem o teria levado até lá para receber o que a polícia lhe devia pela obra no prédio do Denarc, no Bom Retiro, no centro, teria sido o ex-diretor do Denarc, delegado de classe especial Everardo Tanganelli Júnior.

O chefe da tesouraria - oficialmente chamada de Assistência Policial para Assuntos Financeiros e Orçamentários (Apafo) -, o delegado Marcus Vinicius Vieira, negou ao depor na Corregedoria que tenha entregue o dinheiro. Admitiu, no entanto, que recebeu o empresário em seu apartamento, na zona leste, quando estava de férias. Politicamente, sua situação é delicada. Seus chefes acham que tudo está sendo investigado, mas querem saber por que ele aceitou encontrar-se em casa com o empresário.

O dinheiro, que teria saído diretamente da tesouraria da DGP, pagou parte das obras feitas no Denarc sem licitação ou qualquer documento que as comprovassem - a reforma foi feita em fevereiro de 2009. Ao todo, segundo o empresário, a obra ficou em R$ 200 mil. Tanganelli, diretor do Denarc à época, contou que alertou seu superior, o então delegado-geral Maurício Lemos Freire. Ele afirmou ao Estado que o fez diante de todo o Conselho da Polícia Civil. "Todos testemunharam isso", disse Tanganelli.

O empresário afirmou ter recebido de policiais de delegacias do Denarc três parcelas de R$ 10 mil e uma de R$ 3 mil. Disse ainda que a chefia dos investigadores do departamento lhe deu uma Montana 2007, avaliada em R$ 28 mil, e a direção do Denarc lhe entregou R$ 20 mil até abril de 2009, quando a cúpula da Polícia Civil mudou. Freire deixou a DGP e Tanganelli, o Denarc.

Falsetti procurou o novo diretor do Denarc, delegado Eduardo Hallage. Ouviu que enquanto Hallage fosse diretor do Denarc Falsetti não receberia "um tostão". O empresário procurou Tanganelli. Queria receber o que faltava - cerca de R$ 120 mil. Foi quando entrou na história o tesoureiro da DGP. Falsetti disse que o tesoureiro, alegando ter autorização dos superiores para fazer os pagamentos, deu-lhe mais R$ 40 mil até setembro de 2009.

Controle. Desde que assumira a Secretaria da Segurança, em março de 2009, o secretário Antônio Ferreira Pinto adotara uma série de medidas para acabar com a farra da verba de operações sigilosas. O Tribunal de Contas do Estado (TCE) havia alertado em fevereiro a secretaria para a falta de controle dos gastos e pedido mudança na prestação de contas - o Estado revelara em 2008 que setores burocráticos da secretaria gastaram mais a verba do que departamentos operacionais, como o de Homicídios. Além disso, o dinheiro fora desviado para a compra de armas sem licitação e pagara contas particulares de funcionários.

Esse dinheiro, que devia ser usado em operações de combate ao crime organizado, era gasto sem comprovação. Ferreira Pinto retirou a verba dos departamentos da polícia em abril e a deixou na DGP - foi quando Falsetti deixou de receber no Denarc. Em outubro de 2009, o secretário apertou ainda o controle sobre a verba e a retirou da DGP, concentrando-a em seu gabinete. Desde então, para recebê-la, o delegado deve informar por escrito em documento sigiloso a natureza da operação.

Foi justamente depois de outubro de 2009 que Falsetti teria deixado de receber o dinheiro na DGP. Ele, então, procurou o gabinete da secretaria para se queixar. Ao saber da história, Ferreira Pinto determinou a abertura de inquérito sobre o caso.

 

 

 

 

 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.