Início e ascensão da TV em seis visões

Personagens que acompanharam os momentos mais importantes do veículo no Brasil lembram histórias e contam suas impressões

, O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2010 | 00h00

Luiz Ernesto Kawall não era rico, famoso nem frequentava a alta roda. Mas, diz ele, sempre conseguiu "entrar nos lugares mais inacreditáveis". No dia 18 de setembro de 1950, o "lugar inacreditável" onde estava era o saguão do prédio da Rua 7 de Abril, 230, no centro da capital paulista, onde rolava a festa de inauguração da primeira emissora de televisão do Brasil.

Kawall se orgulha de ter assistido à estreia da Tupi. "O saguão dos Diários Associados ficou lotado, uma confusão", lembra o jornalista, que se juntou ao bolo dos famosos e não à multidão de curiosos que assistia da calçada. Para a festa, o empresário Assis Chateaubriand, dono dos diários e da emissora, convidou artistas como Lima Duarte, Mazzaropi e Hebe Camargo (que não foi).

Os estúdios ficavam no Sumaré. "E muitos artistas moravam ou circulavam na região", lembra Vida Alves, protagonista do primeiro beijo da TV.

Nas décadas seguintes, outros canais se espalharam por diferentes regiões da cidade - e até de municípios vizinhos (veja abaixo). Mas, para os personagens e artistas que viveram de perto essa evolução, sobram histórias de lugares que já não existem ou mudaram de endereço e cara. "É esquisito. A gente procura aquele glamour e não acha mais", diz a cantora Wanderléa, a Ternurinha da Jovem Guarda, ao comentar sobre o antigo teatro da TV Record na Rua da Consolação, onde hoje funciona uma igreja evangélica.

A pedido do Estado, cinco personalidades da TV de diferentes épocas contam nesta página algumas de suas lembranças. Além de Kawall, que guarda em casa um dos aparelhos do primeiro lote de televisões que chegaram ao Brasil, em 1950.

"Todo mundo ia para o Gigetto"

Jô Soares

Apresentador, de 72 anos

"Absolutamente todo mundo se encontrava no Gigetto (restaurante que hoje fica na Rua Avanhandava, mas que, nos anos 1960 funcionava em um casarão na frente da TV Excelsior, onde atualmente é o Teatro Cultura Artística). Se eu quisesse saber, por exemplo, aonde estava o Wilker, ou o Walmor, o Adolfo Celi, era só passar ali que alguém informava. Gostava de encontrar as pessoas, mas só bebia Coca-Cola. O prato que eu mais gostava? Prato cheio. Como todo gordo."

"A gente gravava de madrugada"

Glória Menezes

Atriz, de 75 anos

"Eu morava no Brooklin e gravava na Excelsior, onde hoje fica o Teatro Cultura Artística, na Rua Nestor Pestana (centro de São Paulo). Longe? Que nada, imagina! Era só pegar a Avenida Santo Amaro que você chegava em 15 minutos. Na época, a gente gravava de madrugada, quando a emissora saía do ar. Não dava para exibir a programação e gravar ao mesmo tempo. As pessoas hoje reclamam do trabalho que novela dá, mas naquela época era ainda mais complicado."

"Só ganhava prêmio de bairro"

Marcelo Tas

Apresentador, de 50 anos

"A princípio, o Ernesto Varela (repórter fictício) ia ao ar na Gazeta, que era uma TV metropolitana e só atingia São Paulo. Talvez por isso a história pessoal dele, que eu criei para compreendê-lo, seja tão paulistana. Ele nasceu na Casa Verde (zona norte), tem um Chevette, torce pelo Palmeiras e mora com a mãe (que passa impecavelmente os ternos dele). O mais engraçado é que, pelo fato de o programa ser tão regional, eu só ganhava prêmio de restaurante ou do pessoal do bairro."

"Atravessava um mar de fãs"

Wanderlea

Cantora, de 64 anos

"Você não sabe a loucura que era para entrar na Record. A gente precisava atravessar um mar de fãs. As pessoas faziam filas que atravessavam dias e noites, durante toda a semana, para conseguir ingresso para dali a três meses. Quando terminava, a gente só conseguia sair acompanhado de batedores da polícia. Eu tinha um Cadillac presidencial à prova de bala, mas pouco usava. Morei em vários lugares, mas nunca me desfiz do apartamento onde moro até hoje, na Rua da Consolação."

"Os figurões iam à Praça Ramos"

Luiz Ernesto Kawall,

Jornalista, de 83 anos

"Minha irmã Alzira era secretária do presidente da Caixa Econômica Federal, Samuel Ribeiro, que ganhou uma das 200 televisões que o Chateaubriand mandou vir dos EUA. Todos os figurões da época frequentavam o Ribeiro"s Club, na Praça Ramos de Azevedo: o (Carlos) Lacerda, o Lasar Segall, o Menotti del Picchia. Quando o Samuel morreu, deixou a TV para a Alzira. Quando ela morreu, a família achou que deveria ficar comigo, pelo fato de eu ser jornalista. Está aqui até hoje."

"O Sumaré já era cidade do rádio"

Vida Alves

Atriz, de 82 anos

"Muitos atores moravam no Sumaré, porque a Tupi era ali. Antes de inaugurarem a TV no Brasil, o bairro já era conhecido como a cidade do rádio. Eu tinha filhos pequenos, então construí uma casa a 500 metros da emissora. Meu marido era engenheiro elétrico, veio da Itália depois da guerra e foi trabalhar justamente nas instalações da Tupi. Foi ali que nós nos conhecemos. Claro que o consultei antes de fazer a cena do beijo com o Walter Forster (o primeiro na televisão)."

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