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Na Escola Municipal de Ensino Infantil Dona Rosa de Araújo, 94% das crianças ainda não sabiam andar de bicicleta sem roda de apoio TABA BENEDICTO / ESTADÃO

Iniciativas reaproximam crianças das bikes com 'biciclotecas' e ensino na escola

Propostas são voltadas para incentivar a formação de futuros ciclistas e reconectar a infância com espaços públicos

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2022 | 05h00

A tão tradicional cena da criança que aprende a andar de bicicleta na rua de casa tem rareado em grandes cidades brasileiras, mas iniciativas variadas buscam reverter a situação. De disponibilização de bicicletas compartilhadas ao ensino em escolas, as propostas são voltadas à reaproximação da infância com os espaços públicos e o incentivo à formação de futuros ciclistas.

Em meio ao predomínio das telas e retorno à normalidade, promover o contato com ambientes ao livre e o meio ambiente se tornou ainda mais recomendado para crianças e adolescentes. A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) chegou, por exemplo, a emitir uma nota no fim do ano para indicar a “dieta da natureza”, com ao menos uma hora de exposição diária, a fim de reduzir os impactos do confinamento.

Nesse cenário, as bicicletas são vistas como ferramentas não apenas para promover o contato com ambientes ao livre, mas também para combater o sedentarismo, fomentar discussões sobre a vida em sociedade e promover competências variadas, como a autonomia, dentre outros impactos. Além disso, são aliadas para discussões sobre práticas mais sustentáveis diante do avanço das mudanças climáticas.

O vídeo de um comboio de crianças de bicicleta a caminho da escola em Barcelona viralizou nas redes sociais neste ano. Por lá, há algumas “linhas” por vias da vizinhança até a unidade escolar, iniciativa também realizada em ao menos 10 instituições educacionais em Lisboa. Outros projetos têm se consolidado em cidades europeias e latino-americanas, como em Bogotá, com o empréstimo de bicicletas para estudantes.

Por aqui, parte dessas iniciativas ocorrem nas escolas, com atividades próprias ou em parcerias. O Instituto AroMeiaZero criou, por exemplo, o projeto Rodinha Zero, que atua em unidades de ensino e também na formação de “multiplicadores”, com propostas adaptadas à demanda e que envolvem pais, educadores, comunidade e crianças ao longo de cerca de dois a três meses, divididas em cinco etapas, como diagnóstico (características locais, experiências dos alunos etc) e atividades de vivência.

“A gente vê a bicicleta como uma ferramenta de mudança social”, define Murilo Casagrande, um dos diretores do instituto. Segundo ele, foram mais de 4,2 mil crianças desde 2016, a maioria de 4 a 11 anos, em parte iniciadas com bicicletas sem rodinhas e pedais, nas quais primeiro se trabalha o equilíbrio. “A gente quer mudar também a visão do poder público da minicidade (de atividades de educação no trânsito, como em Detrans, por exemplo) em que a criança anda somente de carro.”

Um dos pontos que Casagrande defende é a difusão de “biciclotecas” nas escolas, para atender aos alunos, especialmente os que não têm bicicleta em casa. Para ele, as frotas escolares seriam uma alternativa menos custosa e que tem potencial de receber doações, por envolver um item com uso restrito a alguns anos da fase de crescimento.

Nessas dinâmicas, as crianças podem se revezar para utilizar a bicicleta, enquanto outras fazem desenhos ou outras atividades lúdicas com a temática. Cones, desenhos no chão ou bolhas de sabão podem ajudar a guiar os caminhos, sempre com a presença de monitores por perto. 

Um exemplo é o trabalho realizado na Escola Municipal de Ensino Infantil Dona Ana Rosa de Araújo, na zona sul de São Paulo. Procurado pela coordenadora  pedagógica Cristiane Teixeira Magen, o Rodinha Zero identificou que 94% das crianças não sabiam andar de bicicleta sem a roda de apoio antes das atividades, nas quais 62 de 246 alunos de 4 a 6 anos deram as primeiras pedaladas. 

Cristiane conta que uma professora até compara a experiência de ver os pequenos terem o primeiro contato com a bicicleta com a de aprender a ler, por ser também a aquisição de uma nova linguagem corporal. “Creio que também é o papel da escola ensinar uma atividade que tem essa função”, diz. “Percebo que as crianças estão cada vez mais confinadas. Na pandemia, ficou gritante. A gente recebeu crianças com defasagem de movimento global, de caminhar, de subir no escorregador.

Hoje, a escola tem uma frota de 30 bicicletas, disponibilizadas durante as atividades na quadra, cujo entorno recebeu a pintura de uma ciclovia. “Cada sala já tem o seu tempo programado”, comenta a coordenadora. Por volta de 2015, ela havia feito parceria semelhante em uma escola de ensino fundamental, dando origem a um Festival da Bicicleta, com discussões em atividades diversas. 

“Vejo o ciclismo como uma forte ferramenta de política pública, de inclusão de crianças e jovens no espaço público de maneira sustentável”, avalia. “As interações que proporciona, com o próprio corpo, com o coletivo, com o espaço, com a cidade. E também de superação de déficits”, aponta. “A escola não é uma ‘sala de jaula’. Aqui, a gente reforça o caminhar pelo bairro. Antes da pandemia, pegava metrô com as crianças. Essa vivência é significativa.”

Também na capital paulista, na rede privada, o Colégio Dante Alighieri fez atividades com bicicletas e outros modos de transporte em uma semana temática de outubro. “A ideia surgiu pela necessidade de resgatar e imergir as crianças dentro desse ambiente escolar de brincadeiras tradicionais e práticas corporais realizadas em espaços públicos”, explica Adriano Jantalia, coordenador do departamento de Educação Física.

Na educação infantil, por exemplo, a atividade envolveu a simulação de uma vizinhança, com ônibus, pista de veículos automotores, ciclovia e afins, como uma educação no trânsito. “Muitos alunos tiveram o primeiro contato com a bicicleta foi aqui, na escola. Até porque, por conta da pandemia, não puderam sair tanto de casa. A gente percebeu essa necessidade”, relata. “Tivemos crianças que saíram pedindo para os pais comprarem bicicletas.”

Também no ambiente educacional, uma das principais referências é o projeto Bicicleta na Escola, idealizado pela professora de Educação Física Ana Destri, da rede municipal de Florianópolis, em conjunto com colegas, apresentado até em eventos no exterior. A ideia veio das perguntas dos próprios alunos da quinta série do Fundamental, intrigados pela docente utilizar a bicicleta como transporte. “Perguntavam se era cansativo, seguro, se eu tinha medo", conta Ana.

A partir dessa situação, ela começou a perceber as dificuldades de mobilidade que os estudantes enfrentavam nos trajetos e a pensar como orientá-los a utilizar a bicicleta como um meio, para evitar acidentes. “A gente não só ensina a criança a aprender a andar,  mas também desperta um senso crítico para mobilidade”, comenta. “É um trabalho de formiguinha."

Entre as atividades com os maiores, estão caminhadas na calçada para avaliar as características do trânsito do entorno. São feitos outros cerca de seis encontros, primeiramente internos, até a realização de uma pedalada por um ciclorrota previamente estudada. “A gente fala muito de responsabilidade, que não pode dar 'grau' (empinar), que precisa observar os pedestres, os carros.”

Coordenador do Programa Criança e Natureza, do Instituto Alana, JP Amaral fala em um “desemparedamento da infância” em contraponto ao que avalia com um cotidiano enclausurado, especialmente nas grandes cidades. Na pandemia, por exemplo, essa tendência ficou evidente com o fortalecimento de aulas ao ar livre, tanto nas escolas quanto em parques e praças.

Para Amaral, a bicicleta ainda proporciona estímulos sobre responsabilidade e percepção do ambiente (como de obstáculos físicos), por exemplo. “Ali, vai aprendendo a lidar com riscos, com os desafios da vida, com as quedas, as frustrações, desenvolvendo habilidades também emocionais”, atribui. 

“A bicicleta talvez seja o primeiro impulso de autonomia da criança na relação com os pais, em vez de caminhar dando a mão, ela pode ir livremente por perto e adquirir a independência de se locomover por locais cada vez mais distantes”, acrescenta.

Além disso, percebe que se trata de um meio que também pode ajudar aos adolescentes que convivem com a chamada “ansiedade climática”, por ser sustentável e de baixíssimo impacto ambiental. “Ela traz para a individualidade uma contribuição para esses temas.”

Consultora em programas voltados à infância, a urbanista Ursula Troncoso comenta que as crianças ainda são invisíveis no planejamento das cidades. Ela diz que o padrão de uma ciclovia é pensado a partir da perspectiva de um homem adulto, o que torna temeroso o uso pelas crianças e adolescentes. 

“Seriam necessárias ciclovias mais largas, com maior sinalização, separação física dos automóveis, como com jardineiras”, exemplifica. “Antes (décadas atrás), as crianças podiam aprender a andar de bicicleta na rua. Hoje, é muito mais difícil. Não há quase espaço para aprender a andar na cidade”, comenta.

Nas prefeituras, também há iniciativas do tipo. Em Vitória e Fortaleza, por exemplo, os sistemas de compartilhamento de bicicletas incluem também modelos infantis. Além disso, em Porto Alegre, um chamamento público deste mês para a operação desse tipo de rede também exige a disponibilização obrigatória de modelos para crianças.

Na capital cearense, a 12ª estação do chamado “Mini Bicicletar” será inaugurada em abril, segundo o secretário municipal de Conservação e Serviços Públicos, Ferruccio Feitosa. As bicicletas infantis são disponibilizadas em “pontos estratégicos”, como parques e praças.

Feitosa afirma que mais de 28 mil crianças foram cadastradas por pais e responsáveis no programa, iniciado em 2017 e em expansão paulatina. “A ideia é ampliar cada vez mais. E é gratuito para estimular, pois sabemos do benefício para a vida do cidadão.”

O serviço é operado pela Serttel, que atua também em outras cidades (como Santos), mas nas demais (exceto na capital do Espírito Santo) exclusivamente com o modelo para adultos. Hoje, são 80 bicicletas infantis em Fortaleza e 25 em Vitória, com uma média de 380 e 180 viagens ao mês, respectivamente.

Já em Jundiaí, no interior paulista, a prefeitura planeja a construção de uma minicidade de 3,7 mil metros quadrados no já existente Parque Mundo das Crianças. “A proposta é ofertar aulas ao livre para as crianças, desenvolvendo a educação de trânsito, o que incluirá o uso de bicicletas”, apontou em nota, na qual ressaltou estar em busca de parceria privada para a implantação e manter um programa de “cicloescola” que hoje atende cerca de 100 pessoas de diferentes faixas etárias.

Procurada pelo Estadão, a Prefeitura de São Paulo destacou que as ciclofaixas de lazer aos fins de semana e feriados são voltadas a toda a família e que está aberta para “receber e analisar propostas de qualquer empresa interessada em operar e oferecer o serviço de bicicletas compartilhadas exclusivas para crianças”.

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‘Nos deixou mais conectadas’, diz mãe que levava filha de bicicleta à escola

Silvia Ballan passou para filha Nina hábito de usar bike como meio de transporte; mãe relata como experiência impactou no desenvolvimento da menina

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2022 | 05h00

Os olhares de desaprovação e estranhamento eram comuns, mas a editora de vídeo Silvia Ballan, de 50 anos, não cogitou deixar de levar a filha Nina na garupa da bicicleta até a escola. “Uma mulher na rua uma vez disse ‘coitada dessa criança que precisa ir de bicicleta, que não tem carro'”, recorda-se.

Ela percebe, contudo, que a experiência as deixou mais conectadas e também impactou no desenvolvimento da menina, hoje com 14 anos, que utiliza a bicicleta como um dos principais meios de transporte. “Foi importante para ela ter independência, autonomia, exercer a cidadania, perceber que tem responsabilidade com o próximo”, pontua. Parte dessas experiências são compartilhadas no Instagram, nos perfis Silvia e Nina e Cheguei de Bicicleta.

Com a filha mais velha, Bia, hoje com 23 anos, Silvia já tinha experiências com o uso da bicicleta como meio de transporte em família. Mas a situação se tornou mais evidente ao vender o carro quando Nina tinha quatro anos, de visitas a familiares até consultas no dentista.

“A criança na bicicleta tem uma noção do lugar que ela vive, do espaço. Na garupa, de patinete, a pé, de bicicleta, ela tem essa noção de cuidar do próximo, de respeitar o semáforo”, comenta. “Ela percebia os carros que não paravam na faixa, no sinal. É uma experiência que cria uma criança consciente onde pode ir, como se proteger, que percebe o que os outros não estão fazendo de legal.”

Silvia ainda ressalta que a experiência criou uma cumplicidade. Nina lembrava de levar a capa de chuva em dias nublados, pegava a luz de sinalização se era perto do anoitecer e tomava outros cuidados. “A criança que cresce nesse ambiente, vivendo a rua, fica mais esperta e mais cidadã”, comenta. 

Durante o trajeto, comentários sobre a rua, os carros e a cidade também preenchiam essa proximidade. Isso não significa que a segurança viária não fosse uma preocupação.

Para Silvia, uma maior inserção de crianças e jovens ciclistas passa por mudanças comportamentais e de estrutura.  Moradoras do Itaim Bibi, na zona sul de São Paulo, mãe e filha priorizam ciclovias, mesmo que o trajeto seja maior, e ruas arborizadas, para atenuar o sol paulistano. “Nunca consegui colocá-la na rua. São três quilômetros até a escola”, relata. 

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