Infraero irá recomendar providências nos aeroportos à Defesa

Segundo o presidente da estatal, sugestões facilitarão a tomada de decisões sobre a realização de obras

31 de julho de 2007 | 16h16

O presidente da Empresa Brasileira de Infra-Estrutura Aeroportuária (Infraero), brigadeiro José Carlos Pereira, afirmou nesta terça-feira, 31, à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Crise do Setor Aéreo que, até as 17 horas de quarta, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, receberá da estatal as primeiras recomendações sobre providências a serem tomadas nos aeroportos de Congonhas, Viracopos e Cumbica.  Segundo Pereira, as sugestões da Infraero facilitarão ao governo a tomada de decisões sobre a realização de obras de grooving (ranhuras) na pista principal de Congonhas, sobre ampliação da capacidade de Viracopos e sobre a recuperação da pista de pouso de Cumbica. Pereira relatou que esses foram os temas da reunião que o ministro da Defesa, Nelson Jobim, teve hoje com ele (Pereira) com o presidente da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), Milton Zuanazzi, e o comandante da Aeronáutica, brigadeiro Juniti Saito. O presidente da Infraero disse aos deputados da CPI que o governo está consciente das falhas na pista principal de Guarulhos e já havia planejado sua reforma desde 2004. Pereira disse que, para que as obras de Guarulhos comecem imediatamente, uma alternativa seria realizá-la "em degraus", o que significaria interdição de partes da pista, enquanto outras continuariam funcionando. "Como a pista tem 3.700 metros, encurtá-la em cerca de 200 metros a cada etapa não seria um grande prejuízo para a aviação", afirmou. Falha nas obras O presidente da Infraero também admitiu falha no planejamento de obras nos aeroportos ao terem privilegiado as reformas nos terminais de passageiros antes das pistas. Segundo ele, a decisão foi tomada pela diretoria de engenharia da Infraero e respaldada pelo voto dos demais diretores da estatal. Isso ocorreu, contou ele, antes de março de 2006 quando assumiu interinamente a presidência da Infraero em substituição ao deputado Carlos Wilson (PT-PE). Ele evitou citar nomes como o da diretora de engenharia, Eleusa Terezinha. Ele admitiu, porém, que poderia ter feito substituições após constatar o erro no planejamento e não o fez por estar na condição de interino. "Eu não seria louco de fazer isso num período de interinidade. Por isso, assumo inteira responsabilidade e não nego nenhuma possibilidade de ter cometido um equívoco", disse. Pereira informou aos deputados que abriu uma auditoria interna para investigar o planejamento das obras e que ela já foi concluída, mas ainda precisa ouvir pela última vez todas as pessoas envolvidas antes de ser tornada pública. Chuva e ranhura Segundo o Pereira, "inúmeros testes são realizados" antes da liberação de uma pista de pouso em dia de chuva. "(Foi realizado) o teste de atritos, mancha de areia, em que é medida a texturização da pista, e o pêndulo britânico. A pista foi aprovada, em termo de atrito e declividade." Questionado pelo relator da CPI, deputado Marco Maia (PT-RS), sobre se a liberação da pista sem ranhuras estava em contrato, o presidente da Infraero foi enfático. "Estava tudo planejado, foi executado como planejado. A primeira pista, a auxiliar, foi entregue sem ranhuras. A principal também, com níveis de atrito muito altos, o que permitia segurança. No País inteiro, poucas pistas têm grooving." Sobre as condições da pista molhada, disse: "Toda pista fica escorregadia quando molhada, todo piloto sabe que vai precisar de mais 'x' metros de velocidade". Ele acrescentou que todo piloto é obrigado a avisar a torre de controle do aeroporto quando observa algo estranho no avião ou na pista. Ao ser questionado sobre o acidente com um jato da Pantanal - ocorrido no dia anterior ao da tragédia da TAM, em que a aeronave derrapou na pista principal de Congonhas -, Pereira afirmou que o fato não pode ser atribuído a pista. "O avião estourou o pneu... (o jato) é militar mas se transformou em grande projeto civil, ele é operado para pousar em grama molhada, e não há nada mais escorregadio do que isso." Ele também informou que cabe a torre de controle acionar a Infraero quando há reclamação de pista molhada. Somente desta maneira acontece a verificação de poças d'água. No dia do acidente, de acordo com o presidente da estatal, a medição não fora requisitada. "O aviso de pista escorregadia vem da torre, e é competência de cada piloto avisar sobre isso. Compete também a ele avaliar o tipo de freio de acordo com a pista. O julgamento final é do piloto." Reverso Sobre o defeito em um dos reversos do Airbus, Pereira afirmou que isso "não significa nada". "O piloto pode nem perceber que deu derrapada, mas os sensores instalados no avião percebem. Eu acredito que se houve contribuição da pista, esta foi ínfima. Se a pista tivesse mais 500 metros, o avião não ia parar, não na velocidade que estava. Cinco quilômetros de pista não ia resolver." Já a necessidade de transferir vôos de Congonhas para Cumbica iria comprometer todo o projeto de reforma. "As coisas não ocorrerão tão bem como estávamos planejando", disse. Ele acrescentou que está discutindo com o ministro da Defesa, Nelson Jobim, soluções para esse impasse. Mesmo assim ele indicou uma solução: a criação de uma nova malha aérea. "Acredito que a nova malha surta efeito." Aeroportos Sobre os outros aeroportos, Pereira disse que, até março de 2008, "Viracopos poderá receber 3, 4 milhões de passageiros. Confins ainda é ocioso, o terminal tem problema de layout mas já estamos trabalhando nisso. É possível duplicar a capacidade dele só arrumando isso." Já sobre o Galeão, ele foi crítico. "O terminal 1 é um horror. Está no nosso plano a completa remodelação do terminal. É preciso ser feito algo .O aeroporto é feio, malcheiroso." Demissão Sobre as notícias de que seria demitido do cargo, o brigadeiro voltou a afirmar que está tranqüilo e que não se preocupa em manter o cargo. "Num cargo público, ninguém está seguro. Esse não é um lugar de segurança mas de trabalho", disse Pereira, acrescentando que, por ser um militar, é mais fácil para ele aceitar hierarquias e respeitar a noção de subordinação. Erros Pereira também comentou a responsabilidade que o setor aéreo tem. "O setor aéreo é um setor que não permite erros. Ou leva à falência de uma empresa ou a uma tragédia. Somente em um ano podemos ter otimismo." "Nós da Infraero estamos sofrendo, mas vamos superar, vamos à guerra, acreditar no Brasil. Sou um otimista. Em um ano Brasil retoma a demanda, volta ao crescimento", disse. "E nós não teremos mais medo de pousar em Congonhas." (Com reportagem de Isabel Sobral, da Agência Estado)

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