Epitacio Pessoa/AE
Epitacio Pessoa/AE

Índio, o taxista que canta para clientes

Com mais de cem músicas registradas, ele usa as corridas para divulgar seu trabalho. Mas só solta voz para as mulheres

Valéria França, O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2011 | 00h00

Imagine a situação. Você está em São Paulo, cidade com maior frota de táxis do Brasil - são 32.700 carros na ativa- e liga para uma empresa de radiotáxi. O veículo estaciona na porta de sua casa. Você entra e, após alguns quarteirões, descobre que o motorista gosta de cantar para os passageiros, exatamente como gondoleiros fazem na Itália.

O cenário é bem diferente do de Veneza, mas o taxista Nildo Guimarães, de 49 anos, mais conhecido como Índio, solta a voz sempre que tem uma brecha. "Só canto para mulher - é ruim cantar para homem -, mas antes faço um teste", explica. "Dou "bom dia" e, se a cliente nem responde, não abro mais a boca." Já se ela for simpática a conversa certamente acabará em cantoria.

Índio já escreveu e registrou cerca de 105 músicas. Duas estão no YouTube - com apenas 67 acessos. No carro, ele carrega vários CDs com arranjos elaborados em estúdios profissionais. "Entendo de música, mas não sei tocar. Por isso, pago para fazerem e gravarem os arranjos."

Ele se considera bom compositor, mas um cantor de voz fraca. "Não vou deixar meu trabalho na estante. O jeito é sair cantando para os passageiros divulgarem meu trabalho. Tem gente que me chama de artista. Tem gente que não gosta."

A ideia de começar a compor surgiu há dez anos. "Estava no carro escutando rádio, quando ouvi que pessoas inteligentes não copiam, constroem." Índio ficou pensando nisso o dia inteiro. Desde menino, ele tem o hábito de cantar no banheiro músicas que caíram no gosto popular. "Então tive um estalo. Achei que deveria compor."

Mostrou a primeira letra para a mulher, Marlene, que odiou. "Fiquei magoado." O taxista fez então a segunda tentativa. "Dessa vez, a mulher gostou tanto que achou impossível que fosse minha." Apesar de Guimarães jurar ser o autor, desconfiada, Marlene pediu que escrevesse uma para ela. Índio assim fez. Quando Marlene pegou a letra nas mãos, ainda não acreditou, achou que alguém o tivesse ajudado.

Inspiração. Desde então Índio não parou mais de escrever. Às vezes, a inspiração vem no meio do trânsito. Ele encosta o carro, pega um papel e anota. A letra de As árvores pedem socorro saiu de uma conversa com uma passageira, que começou a falar de mudança climática, diminuição do verde. "Para mim, na verdade, São Paulo não muda. Os caminhos, ruas e buracos são os mesmos, até que chove, a cidade alaga, e ninguém chega a lugar algum. É sempre a mesma coisa. "

A letra, no entanto, foi escrita em homenagem a Roberto Carlos, seu grande ídolo- tanto que a melodia lembra um pouco um dos sucessos do rei, Jesus Cristo. Fora isso, em comum entre os dois apenas a predileção de Índio em cantar as dores de amor. E para por aí. Qual o gênero do cantor? "Odeio brega. Faço um pop rock universitário."

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