Roger de Castro/ ELAT/INPE
Imagem de raio registrada em São Bernardo do Campo em 2019 Roger de Castro/ ELAT/INPE

Incidência de raios aumenta 60% na cidade de São Paulo

Estudo do Elat/Inpe mostra que fenômenos como El Niño e La Niña em 2019 influenciaram alta na capital paulista

Renata Okumura, O Estado de S.Paulo

27 de janeiro de 2020 | 05h00
Atualizado 09 de outubro de 2020 | 18h21

Correções: 27/01/2020 | 09h00

SÃO PAULO - Influenciada por fenômenos climáticos como El Niño e La Niña, a cidade de São Paulo viu a incidência de raios disparar. É o que mostra um levantamento feito pelo Grupo de Eletricidade Atmosférica (Elat) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). De acordo com o estudo, obtido pelo Estado, foram contabilizados 44,8 mil raios no ano passado, contra 28 mil em 2018, uma alta de 60%. 

“Os fenômenos estão associados à temperatura da superfície da água do Oceano Pacífico Equatorial, que modulam as águas e sofrem aquecimento anormal com o El Niño e resfriamento acima do normal com a La Niña. Isso afeta a formação de tempestades e, consequentemente, de raios”, explica Osmar Pinto Júnior, coordenador do Elat/Inpe.

A incidência de raios se concentra no verão, dado o período de chuvas. A capital paulista registrou 44,5 mil raios entre 21 de dezembro de 2018 e 20 de março de 2019, número próximo ao verificado durante todo o ano 2019. Entre 21 dezembro de 2017 e 20 de março de 2018, foram 19,3 mil raios. Na comparação entre os períodos, a alta é ainda maior, de 130%.

O aumento da poluição atmosférica também contribuiu para a maior incidência de raios, principalmente, durante o verão, período em que predominam as altas temperaturas e a umidade do ar.

"A poluição facilita a formação de tempestades e de raios porque a presença de uma quantidade maior de partículas originadas pelos poluentes colabora na absorção do vapor d'água que, posteriormente, pode formar nuvens de tempestades", explicou Mário Festa, meteorologista do Departamento de Ciências Atmosféricas do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IGA) da Universidade de São Paulo (USP).

Mortes

Nos últimos 20 anos, 2.182 pessoas morreram no Brasil vítimas de raios. Com 30 vítimas, a capital paulista é a cidade com o maior número de mortes no País nesse período. A última foi registrada em março de 2017, quando um homem foi atingido ao procurar abrigo sob uma árvore.

“Quando o raio se forma, o ar ao redor da faísca é aquecido a 30 mil graus Celsius, causando uma violenta expansão podendo derrubar e matar facilmente uma pessoa”, alerta Mário Festa.

Em termos comparativos com a voltagem doméstica de 110 ou 220 volts, um raio pode ultrapassar um milhão de volts. 

A corrente do raio pode provocar queimaduras graves e deixar sequelas. "Os sobreviventes podem ficar com a visão prejudicada, ter dores de cabeça frequentes, alteração do humor e náuseas, além de queimaduras. Algumas pessoas chegam a ser arremessadas a alguns metros do local e sobreviver à descarga elétrica", acrescentou o meteorologista. No caso das mortes, a maioria é causada por parada cardíaca e respiratória.

De acordo com informações do Inpe, 80% das mortes acontecem ao ar livre e 20% dentro de casa. As situações mais perigosas se dão em locais abertos, como praias, parques e áreas rurais.

“Os quiosques dos parques nem sempre são locais suficientemente seguros. Dentro de casa, as pessoas estão mais protegidas, mas há riscos quando estão perto de geladeira e tomam banho. Dentro do carro, a pessoa está relativamente protegida”, afirma Osmar Pinto Júnior.

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Os quiosques dos parques nem sempre são locais suficientemente seguros. Dentro de casa, as pessoas estão mais protegidas, mas há riscos quando estão perto de geladeira e tomam banho
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Osmar Pinto Júnior, coordenador do Grupo de Eletricidade Atmosférica, do Inpe

Prejuízo

Entre 22 de dezembro de 2019 e 19 de janeiro deste ano, foram registrados 3,6 mil raios, sendo entre os dias 5 e 10 o período de maior incidência.

No último dia 7, a cidade de São Paulo registrou 1,5 mil raios, quantidade elevada que é registrada poucas vezes por ano em uma única data. A dona de casa Aline Barros, de 21 anos, que mora na Vila Verde, na zona leste da cidade, teve o televisor queimado.

“Sempre que percebo que tem tempestade e raios, eu procuro tirar da tomada os eletroeletrônicos que tenho em casa, mas neste dia não deu tempo e minha televisão queimou”, disse Aline.

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Sempre que percebo que tem tempestade e raios, eu procuro tirar da tomada os eletroeletrônicos que tenho em casa, mas neste dia não deu tempo e minha televisão queimou
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Aline Barros, dona de casa

Em nota, a Enel Distribuição São Paulo afirma que entrou em contato com a cliente e enviou, por e-mail, uma carta de solicitação dos orçamentos. Para seguir com as tratativas, a distribuidora aguarda os orçamentos necessários.

O fenômeno, no entanto, não deve se repetir neste ano, dado que a cidade não está sob os efeitos do El Niño e da La Niña. Com isso, acreditam os especialistas, a tendência é que a incidência de raios permaneça estável. 

“No entanto, o Brasil é o País com a maior incidência de raios no mundo, cerca de 80 milhões por ano”, diz Festa. 

Como evitar acidentes com raios

Diante dos perigos provocados por descargas elétricas, medidas de segurança devem ser adotadas. Locais com prédios com para-raios tendem a ser mais seguros.

Para o coordenador do Elat/Inpe, eles ajudam na proteção, desde que sejam observados alguns fatores. “Por exemplo, não há registro de pessoas atingidas por raios na Avenida Paulista, mas é preciso ter noção de que os para-raios vão proteger a pessoa que está a uma distância da mesma ordem da altura do prédio.”

Sempre que começam os raios, o professor de inglês Alexandre Mollo, de 49 anos, busca abrigo dentro de estabelecimentos comerciais ou prédios. “Se não houver nenhum lugar por perto, eu rezo bastante. Também procuro não chegar perto de postes de energia.”

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Se não houver nenhum lugar por perto, eu rezo bastante
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Alexandre Mollo, professor de inglês

Da mesma forma, a comerciante Isabel Cristina da Silva, de 64 anos, redobra a atenção. “Mantenho distância de tomadas e equipamentos eletrônicos. Evito tomar banho. Se estou na rua, nunca fico embaixo de árvores e nem uso celular.”

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Se estou na rua, nunca fico embaixo de árvores e nem uso celular
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Isabel Cristina da Silva, comerciante

O ideal é que a pessoa encontre o mais rápido possível um local seguro.

“De preferência de alvenaria. Também tire relógios e todos os objetos metálicos que tiver no corpo, que podem atrair descarga elétrica”, orienta o tenente André Elias dos Santos, porta-voz do Corpo de Bombeiros da Polícia Militar do Estado de São Paulo.

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27/01/2020 | 09h00

“Quando o raio se forma, o ar ao redor da faísca é aquecido a 30 mil graus Celsius, causando uma violenta expansão podendo derrubar e matar facilmente uma pessoa”, alerta Mário Festa. A frase foi anteriormente atribuída ao Osmar Pinto Júnior.
 

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Por que o Brasil é campeão em incidência de raios? Veja perguntas e respostas

Raios são descargas elétricas de grande intensidade que conectam o solo e as nuvens de tempestade na atmosfera. 'Estado' separou questões comuns sobre o tema e como se proteger das descargas elétricas

Renata Okumura, O Estado de S.Paulo

27 de janeiro de 2020 | 05h00

O que são raios?

Raios são descargas elétricas de grande intensidade que conectam o solo e as nuvens de tempestade na atmosfera. A intensidade típica de um raio é de 30 mil ampères, cerca de mil vezes a intensidade de um chuveiro elétrico. A descarga percorre distâncias da ordem de cinco quilômetros.

Qual a duração de um raio?

Um raio pode durar até dois segundos, mas dura em geral cerca de meio a um terço de segundo. No entanto, cada descarga que compõe o raio dura apenas frações de milésimos de segundos.

Um raio pode cair duas vezes em um mesmo lugar?

Pode. Geralmente os raios caem mais de uma vez em um mesmo local quando este apresenta grande incidência de raios. O Cristo Redentor, por exemplo, é atingido anualmente por seis raios, em média.

Um raio pode atingir diretamente uma pessoa?

A chance de uma pessoa ser atingida diretamente por um raio é muito baixa, sendo em média menor do que uma para 1 milhão. No entanto, se a pessoa estiver numa área descampada embaixo de uma tempestade forte, a chance pode aumentar em até uma para 1 mil. As descargas elétricas também provocam incêndios e queda de linhas de energia.

Por que o Brasil é o país campeão mundial em incidência de raios?

No Brasil, caem aproximadamente 80 milhões de raios por ano e a explicação é geográfica: é o maior país da zona tropical do planeta - área central onde o clima é mais quente e, portanto, mais favorável à formação de tempestades e de raios.

Em quais situações os raios podem acontecer?

  • De nuvem para nuvem que são os mais compridos;
  • Dentro da própria nuvem;
  • Da nuvem para o solo;
  • Do solo para a nuvem;
  • Do topo da nuvem para o ar claro ao redor, também denominados de "gnomos".

Quais as propriedades dos raios?

Um filtro natural do ar, limpando-o das impurezas suspensas na atmosfera, atraídas pela faísca. Mantém o potencial elétrico do planeta e produz o ozônio que renova a camada de ozônio.

Os raios podem trazer benefícios à agricultura?

Apesar dos perigos à população, durante a descarga elétrica, o nitrogênio do ar é carregado pela chuva e ao chegar ao solo, torna-se um fertilizante natural. Regiões pobres de descargas elétricas tem uma agricultura deficitária, devendo o solo ser adubado de modo conveniente para poder produzir mais.

Confira outras curiosidades sobre raios

A cada instante ocorrem em média 1,8 mil tempestades elétricas no planeta, e 44 mil por dia. A região que mais produz raios fica no Rio Catatumbo no lago de Maracaibo, na Venezuela, cujas tempestades chegam a durar mais de 9 horas seguidas, atraindo milhares de turistas anualmente e está no Guinness Book como recordista.

Os raios sempre fascinaram e atemorizaram a humanidade, e alguns povos antigos criaram os deuses das tempestades, como os nórdicos que há 1,2 mil anos tinham Thor como o deus dos raios e trovões. A língua inglesa absorveu esta tradição e em sua homenagem, a quinta-feira é o Dia de Thor.

Na antiga Grécia se atribuía ao loureiro, um pequeno arbusto, propriedades divinas e por essa razão, os atletas que venciam as competições eram coroados com grinaldas de folhas de louro, tradição esta que se mantém até hoje, a exemplo dos vencedores da corrida de São Silvestre.  Os antigos romanos observaram também, que jamais um raio havia atingido esse tipo de arbusto, o que os fez pensar que era uma árvore com propriedade de afastar os raios, e desta forma, os imperadores criaram o hábito de colocarem na cabeça, uma grinalda de folhas de louro para se proteger das tempestades.

Saiba como evitar acidentes com raios

O que fazer se estiver em casa durante tempestade com raios?

  • Já está em abrigo seguro. Procure apenas se afastar das janelas, que são suscetíveis aos raios.
  • Desligue a chave geral ou disjuntor no quadro da entrada de energia, retirando os eletrodomésticos das tomadas para que não queimem.
  • Desconecte o cabo da televisão.
  • Não use chuveiro, torneira elétrica, ferramentas e aparelhos como computadores e telefones com fio.

O que fazer se estiver na rua durante fortes chuvas com raios?

A pé:

  • Tire relógios e todos os objetos metálicos que tiver no corpo, que podem atrair descargas elétricas.
  • Caminhe pelo lado contrário dos postes de energia e nunca fique embaixo de árvores, que, além de caírem, podem atrair raios.
  • Não tenha contato com grades, linhas de energia elétrica e telefônicas.
  • Tente o mais rápido possível encontrar um local seguro, de preferência de alvenaria.
  • Nunca permaneça em locais abertos como parques, campos de futebol, praias, piscinas e ambientes rurais.
  • Não pratique esportes ao ar livre: futebol, tênis, asa delta, andar de bicicleta ou moto.
  • Nunca fique dentro de piscina ou do mar, o perigo é ainda maior, pois a água conduz a eletricidade com mais eficiência.
  • Em um bosque ou floresta é mais seguro do que sob uma árvore isolada.
  • Caso seja apanhado desprevenido por uma tempestade em um descampado, procure se agachar o máximo possível com os braços ao redor das pernas, ficando numa posição bem arredondada.
  • Geralmente, as tempestades com raios provocam alagamentos. Por isso, nunca se coloque em situação de risco diante de enxurradas. Ande de preferência na calçada perto de muros e longe de bocas de lobo.

De carro:

  • Em caso de tempestade com raios, pode permanecer dentro do veículo, desde que esteja em local sem risco de alagamentos e longe de árvores, que podem derrubar fiação elétrica.
  • Se observar um cabo elétrico se romper e cair sobre o carro, evite sair do veículo e ninguém de fora pode encostar-se ao carro. O teto de estrutura metálica serve de proteção somente para quem está dentro do veículo.
  • Em caso de tempestades com raios e alagamentos, procure caminho alternativo e local seguro.
  • Se estiver parado no trânsito e a água começar a subir, abandone o carro e procure local seguro. Caso não seja possível sair do veículo, abra a janela, tire o cinto de segurança e acione o Corpo de Bombeiros imediatamente.

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