VALERIA GONCALEZ/ESTADAO
VALERIA GONCALEZ/ESTADAO

Incêndio no Museu Nacional reforça necessidade de digitalizar acervos

É o que vêm fazendo pesquisadores do Instituto de Biociências da USP com centenas de crânios, esqueletos e artefatos escavados da região de Lagoa Santa (MG); peças são escaneadas em tomógrafos de alta resolução, para produzir réplicas virtuais

Herton Escobar, O Estado de S.Paulo

07 Setembro 2018 | 03h00

SÃO PAULO - O incêndio no Museu Nacional reforça a importância da digitalização de acervos históricos, dizem especialistas, tanto para fins de pesquisa quanto de preservação das informações — e até mesmo dos próprios artefatos, em versão virtual.

É o que vêm fazendo pesquisadores do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP) com centenas de crânios, esqueletos e outros artefatos escavados da região de Lagoa Santa, em Minas Gerais, um dos principais sítios arqueológicos do Brasil. As peças são escaneadas em tomógrafos de alta resolução, para produzir réplicas virtuais tridimensionais, que podem ser estudadas online e até materializadas em impressoras 3D, caso necessário.

“Hoje em dia fazemos isso de forma sistemática; mesmo que não haja um projeto de pesquisa específico associado às peças”, diz o arqueólogo André Strauss, professor do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP e pesquisador associado do Laboratório de Arqueologia e Antropologia Ambiental e Evolutiva (LAAAE) do IB-USP. “A proposta inicial é fazer um backup virtual mesmo.”

O trabalho começou em 2010, e veio bem a calhar dois anos depois, quando um crânio de Lagoa Santa se quebrou acidentalmente no laboratório e, graças à digitalização, foi possível imprimir uma réplica perfeita dele.

As tomografias são feitas semanalmente numa máquina do Hospital Universitário, com resolução de 0,6 milímetro. Peças menores, como dentes e anzóis, são escaneadas num tomógrafo do IB-USP, com resolução de 0,009 mm, o que permite reproduzir cada detalhe das peças em altíssima definição. 

“A grande vantagem do digital é que o pesquisador não precisa ficar manuseando o material com tanta frequência, o que ajuda na preservação”, diz o dentista e bioantropólogo Rodrigo Elias, que coordena os trabalhos de digitalização no LAAAE. “Para muitas pesquisas, só o digital é suficiente.” 

Os pesquisadores enfatizam, porém, que a digitalização não diminui a importância das peças originais, tanto pelo seu valor histórico quanto científico. “Algumas análises só podem ser feitas com o material original”, diz Strauss. Por exemplo, análises de DNA antigo, que ele espera — ou pelo menos esperava — poder realizar um dia no famoso crânio de Luzia, que pode ter sido destruído no incêndio.

A coleção do Museu Nacional guardava milhares de relíquias arqueológicas da pré-história brasileira, incluindo crânios e esqueletos de aproximadamente 200 indivíduos de Lagoa Santa. Entre eles, Luzia, de 11,5 mil anos, um dos crânios humanos mais antigos das Américas — que, felizmente, estava digitalizado; mas o resto da coleção, não.

Procurado pela reportagem, o museu afirmou que vinha fazendo um esforço de digitalização de suas coleções, mas que, por conta da complexidade do acervo, não havia ainda uma estimativa consolidada do volume de material já digitalizado. “Em breve, reuniremos essas informações”, afirmou o museu, por meio de sua assessoria de imprensa.

Biodiversidade

Também no prédio destruído pelo incêndio estavam milhões de exemplares de insetos e outros animais invertebrados, coletados em todo Brasil ao longo dos últimos dois séculos.

Coleções como essas, guardadas em museus, são a base de todo o conhecimento sobre a biodiversidade do planeta, usadas para a descrição de espécies e para uma enorme variedade de estudos sobre ecologia, evolução e outros temas. Parte desses acervos biológicos nacionais vem sendo digitalizada há anos por meio de grandes projetos como o speciesLink e o Sistema de Informação sobre a Biodiversidade Brasileira (SiBBr).

O speciesLink, lançado em 2001, já acumula mais de 9 milhões de registros, de 480 coleções de fauna e flora. No SiBBr são quase 10,5 milhões de registros, representando mais de 155 mil espécies. Mas não é possível dizer o quanto isso representa do total de exemplares guardados em coleções no Brasil.

“A maior parte das coleções está em situação precária. Muitas delas não tem nem curador”, diz o botânico Carlos Joly, pesquisador da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenador do Programa Biota Fapesp, que deu origem ao speciesLink.

No caso dessas coleções biológicas, como a quantidade de material é muito grande (da ordem de milhões de exemplares), a digitalização, na maior parte das vezes, refere-se apenas aos dados científicos associados a cada espécime ou cada lote de espécimes. Informação como: onde aquele animal ou planta foi coletado, quando, por quem, em que tipo de ambiente, onde ele está guardado e outras informações relevantes do ponto de vista histórico e científico sobre a amostra. Como se fosse um perfil de cada exemplar nas redes sociais.

Os registros podem até vir acompanhados de fotos, mas em geral as tomografias 3D — como se faz com fósseis e artefatos arqueológicos — só são feitas para os espécimes mais importantes, chamados holótipos (ou simplesmente “tipos”), que são os exemplares originais de referência, usados para descrever uma nova espécie.

O Museu de Zoologia da USP, que guarda algumas das maiores coleções de fauna tropical do mundo, digitalizou cerca de 1 milhão de registros de vertebrados e invertebrados na plataforma do SiBBr nos últimos quatro anos. Entre eles, 2,5 mil exemplares “tipo”.

“É importante ressaltar que a digitalização não salva acervos. A salvaguarda do objeto de acervo continua sendo prioridade”, diz o pesquisador Marcelo Duarte, do MZ-USP, responsável pelo trabalho. “A digitalização tem um papel importante no processo de conhecimento sobre a biodiversidade. Todavia ela só servirá a esse propósito se os dados forem qualificados”, completa ele.

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