Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Incêndio no Brás deixa quatro mortos em imóvel ocupado por bolivianos

Bombeiros dizem que nove pessoas foram resgatadas, mas que havia ao menos 30 no local; fogo pode ter sido causado por curto-circuito e afetou estrutura

Juliana Diógenes e Luiz Fernando Toledo, O Estado de S.Paulo

23 Novembro 2016 | 07h51
Atualizado 23 Novembro 2016 | 16h07

SÃO PAULO - Quatro pessoas morreram após um incêndio nas primeiras horas desta quarta-feira, 23, em um edifício comercial, localizado no Brás, na região central da capital paulista, que é ocupado por imigrantes bolivianos. Havia pelo menos 30 pessoas no imóvel, que tem risco de desabamento. O prédio era invadido. 

O fogo teve início por volta das 5 horas em uma moradia precária com edificação comercial na Avenida Celso Garcia, próximo ao Templo de Salomão. A Polícia Civil identificou que 42 pessoas moravam no prédio incendiado, mas só havia localizado 18 na tarde desta quarta-feira. Todos foram convocados para depor no 12º Distrito Policial, no Brás.

"Muitos bolivianos acordam muito cedo para trabalhar e nem estavam mais no prédio quando tudo aconteceu", disse ao Estado o delegado Eder Pereira. O motivo do incêndio não foi esclarecido. A policia já sabe que o prédio era invadido e que tinha um cortiço e uma oficina de costura. 

Segundo apuração da polícia no local, os mortos seriam o líder da ocupação, conhecido como "Perninha", a mulher dele, Janete, uma terceira pessoa de nome Maria e um homem conhecido como "Chino". A identidade detalhada das vítimas, no entanto, não foi confirmada. 

Relatos dos moradores à polícia apontam duas hipóteses para o acidente: a de problemas na fiação do imóvel e também de uma suposta briga entre um líder do movimento da ocupação e um morador, que teria prometido "colocar fogo em tudo".  

O incêndio chegou à temperatura de 600ºC e se propagou rapidamente, informou o capitão do Corpo de Bombeiros Marcos Palumbo à Rádio Estadão. Ainda não há informações sobre a causa do incidente. Palumbo descartou a possibilidade de que o fogo se espalhe para imóveis vizinhos, mas admitiu que existe risco de desabamento do prédio, já que o incêndio afetou a estrutura, atingindo as lajes.

Segundo Palumbo, o acidente pode ter sido provocado por um curto-circuito ou um acidente doméstico, durante preparo de alguma alimentação. O capitão explicou que o fogo se propagou com rapidez e que as pessoas não conseguiram sair do local. 

"É muito comum acontecer curto-circuito em locais desse tipo, quando você tem muito papel, madeira, colchão e madeirites que acabam separando ambientes", disse. "Quando você tem uma série de equipamentos ligados em um ponto de tomada, muito comum nesse tipo de edificação, isso aquece demais o fio, a ponto de iniciar um incêndio."

O Corpo de Bombeiros chegou a mobilizar 20 viaturas para conter as chamas. O incêndio foi controlado duas horas depois, às 7 horas. Sessenta homens trabalhavam por volta das 9 horas para apagar focos de incêndio e deixar o local em segurança para a atuação da Defesa Civil no local. 

O corpo de uma pessoa foi localizado logo no início da ação de combate às chamas. No período de rescaldo, quando os bombeiros fazem uma varredura para localizar outras vítimas, mais dois corpos foram encontrados.

Por volta das 8h40, um quarto corpo foi retirado e os bombeiros continuavam no local em trabalho de rescaldo. 

Correria e desespero. O costureiro boliviano Eilogio Callizaya, de 48 anos, correu o máximo que pode para se proteger do incêndio que atingiu a casa em que estava morando temporariamente enquanto se recuperava de um acidente de trabalho - um ombro quebrado. Eram por volta de 5 horas quando ele acordou com os gritos do amigo, que dividia o quarto com ele, e dos cerca de 30 outros moradores do cortiço.

Na pressa, ficou tudo para trás: roupas, documentos e até uma máquina de costura que ele tinha acabado de comprar por cerca de R$ 2 mil para não precisar depender dos patrões para ganhar dinheiro. Está no Brasil há 10 anos atuando nas oficinas de costura. "Saí com a roupa que estava vestindo e essa mochila", disse. 

Ele conta que os moradores ficaram desesperados, pois não havia água e o prédio tinha muitos botijões de gás que poderiam explodir a qualquer momento.

Por volta das 13 horas, o costureiro ainda aguardava o trabalho do Corpo dos Bombeiros para tentar reaver algum dos objetos perdidos. "Nem sei para onde vou ainda", afirmou. 

Ricardo de Melo, de 39 anos, trabalhava como cortador de tecidos e disse que planejava levar até a mãe para morar com ele no prédio. "Ainda bem que não trouxe, olha o que aconteceu", disse.

Melo contou que acordou com gritos de "fogo, fogo" e deixou todos os pertences para trás. Morava havia um ano no prédio. "Saiu todo mundo assustado, correndo, não deu tempo de pegar nem a carteira."

Agentes da Prefeitura e do Serviço Franciscano de Solidariedade (Sefras) estavam no local para cadastrar os moradores em abrigos da cidade. 

Em nota, a Prefeitura de São Paulo informou que agentes da Defesa Civil, além de equipes de limpeza e de apoio, estão no local aguardando a finalização dos trabalhos de rescaldo dos bombeiros. Após a liberação do local, será feita uma perícia seguida de vistoria. O imóvel poderá ser interditado, informou a gestão municipal.

A Suprefeitura da Mooca, responsável pela área, está analisando o que funcionava no local. "Se constatadas irregularidades, serão tomadas as providências cabíveis previstas pela legislação no âmbito municipal", disse o órgão.

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