José Patrício/Estadão
José Patrício/Estadão

Incêndio em Santos pode acabar nesta segunda-feira

Dois tanques com gasolina ainda estão em chamas; bombeiros trabalham há mais de 90 h, com mais de 5 bilhões de litros de água

Luiz Alexandre Souza Ventura, Especial para o Estado

06 Abril 2015 | 09h14

SANTOS - O Corpo de Bombeiros acredita que o incêndio em tanques da Ultracargo/Tequimar, na área industrial da Alemoa, em Santos, litoral sul de São Paulo, pode acabar ainda nesta segunda-feira, 6. É a primeira previsão feita pela corporação desde o começo do acidente, às 10h de quinta-feira, 2.

Já são mais de 90 horas de combate ininterrupto às chamas, com o uso de mais de 5 bilhões de litros de água. Neste momento, dois tanques com gasolina estão em chamas. No total, seis cilindros foram atingidos.

O pátio tem 58 tanques, que armazenam etanol, gasolina, óleo diesel, óleos vegetais, fertilizantes líquidos e outros produtos químicos, incluindo solventes. No total, a Ultragargo é dona de 175 tanques, espalhados por uma área de 190 mil metros quadrados.

Um relatório preliminar enviado pela Ultracargo para a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) na noite deste domingo, 5, aponta que o incêndio alterou a qualidade da água do mar no Canal do Estuário, o que pode ter causado a morte de milhares de peixes.

"A água usada para conter as chamas foi despejada no estuário pelo sistema de escoamento da Ultracargo contaminada com combustível, provocando alteração da temperatura e saturação do oxigênio, provavelmente causando a morte dos peixes", diz Cesar Eduardo Padovan Valente, gerente da agência ambiental da Cetesb em Santos.

De acordo com o especialista, entre os animais mortos estão bagres, garoupas e outras espécies, com até 70 centímetros de comprimento. Uma empresa está recolhendo os peixes mortos.

O documento, que foi solicitado à Ultracargo pela Cetesb, também detectou alteração na qualidade do ar no entorno do local do incêndio. Um equipamento do Exército deve começar a fazer nesta segunda-feira, 6, o monitoramento do ar na região.

Multa. A secretária estadual do Meio Ambiente, Patrícia Iglecias, esteve no local do incêndio neste sábado, 4, e falou sobre possíveis penalidades à Ultracargo. "Existe uma legislação estadual. E também é possível aplicar Decreto Federal nº 6.514. A multa chegaria a R$ 50 milhões, mas aplicação depende de uma análise mais detalhada", diz.

"A qualidade do ar foi afetada e está muito ruim. Na página da Cetesb na internet, a qualidade do ar na região do incêndio está classificada como N3-Ruim. A situação não é boa por vários motivos, mas a fumaça é mais preocupante do que uma possível chuva ácida, porque essa fumaça que está sendo inalada na área do incêndio tem concentrações de SO2 (dióxido de enxofre) muito acima das recomendadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS)", alerta o meteorologista Ivan Gregório Hetem, mestre em fontes de material particulado. "O limite é 40 e o verificado lá é maior do que 100. A melhor providência é se afastar do local, para evitar a inalação dessa fumaça."

O dióxido de enxofre é formado a partir da queima da gasolina. É o mesmo gás expelido pelo escapamento de carros. No caso dos veículos, isso ocorre em menor quantidade por causa dos catalisadores e outros filtros. Em ambas as situações, o SO2 se transforma em ácido sulfúrico ao reagir com a umidade do ar.

No incêndio dos tanques da Ultracargo, não há qualquer tipo de filtragem e a fumaça preta - junção de partículas provenientes do combustível, do tanque e de outros itens queimados -, está flutuando sobre a região.

Moradores de bairros próximos estão apreensivos e esse temor é fortalecido por especulações, principalmente nas redes sociais, sobretudo no que diz respeito à chuva ácida.

"Chuva ácida não é chuva de ácido", diz Hetem. "Obviamente, ela faz mal à saúde. Por isso, a população deve evitar a exposição. No caso de uma chuva forte, de um temporal, a nuvem carregada vem de outro local e desaba. Como as gotas são grandes, elas dão uma espécie de 'abraço' no ácido formado a partir da reação do gás com a umidade do ar, que é diluído e empurrando para o solo. E o ar fica limpo. Agora, quando há chuva fraca, esse ácido participa da formação da gota e desce dentro dela. Como a quantidade de água nessa gota é menor, a concentração do ácido é maior", explica o especialista.

Previsão do tempo. De acordo com Alexandre Nascimento, meteorologista da ClimaTempo, a previsão para as próximas 36 horas na Baixada Santista é de chuva, com baixa intensidade. "Há uma frente fria no sul do País que avança em direção ao Sudeste, paralelo à costa, que também deve provocar vento moderado, predominante vindo do mar em direção ao continente", diz o especialista.

Em Santos, por enquanto, está descartada a possibilidade de evacuação dos moradores das imediações do terminal da Ultracargo. "Os produtos químicos que poderiam causar dano à população já foram retirados dos tanques próximos ao incêndio. E foram isolados em outros tanques, a uma distância de 1 km", afirma o coordenador da Defesa Civil estadual e chefe da Casa Militar do Estado, José Roberto Rodrigues Oliveira.

Segundo Oliveira, existem planos de emergência e de contingência - elaborados anteriormente - com todas as medidas necessárias em caso de acidentes como esse. "Todos os órgãos envolvidos estavam totalmente preparados, caso houvesse risco de vazamento de fumaça tóxica na atmosfera, para remover aproximadamente 400 pessoas da Alemoa", diz. "Sempre que há uma necessidade, todos os órgãos técnicos são acionados, as esferas municipal, estadual e federal se reúnem em um gabinete de integração. E as ações são coordenadas. Tudo é planejado e inclusive fazemos simulados a cada dois anos, com ou sem a população", explica o coordenador.

Crise. Para acompanhar o incidente e integrar os trabalhos, o governo de São Paulo montou em Santos um gabinete de crise, com participação do vice-governador, Márcio França (PSB), dos secretários Saulo de Castro (Governo), José Roberto Rodrigues de Oliveira (Casa Militar), Alexandre de Moraes (Segurança Pública) e Patrícia Iglecias (Meio Ambiente), do comandante do Corpo de Bombeiros, Marco Aurélio Alves Pinto, do subsecretário de Comunicação, Marcio Aith, do prefeito de Santos, Paulo Alexandre Barbosa (PSDB), e das Secretarias Municipais de Segurança, Defesa Civil, Meio Ambiente e Saúde. Exército, Marinha e Aeronáutica apoiam a ação.

A prefeitura de Santos informou neste domingo que o Secretário da Segurança Pública, Alexandre de Moraes, determinou, por intermédio da Polícia Civil, a instauração de investigação para apurar a autoria de "diversos boatos criminosos irresponsavelmente lançados nas redes sociais sem base técnica e que buscam desinformar a população".

"Os responsáveis pelos anúncios e mensagem falsas serão responsabilizados criminalmente por pretenderem causar tumulto durante essa importante operação que vem sendo realizada com êxito no município de Santos", diz a administração santista.

A Polícia Civil investiga as causas do acidente.

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