Ricardo Nogueira/Efe
Ricardo Nogueira/Efe

Incêndio em Santos atinge quatro tanques de combustíveis

Tonel em área ao lado do início do fogo foi tomado pelas chamas neste sábado; autoridades negam comprometimento do ar na região

Luiz Alexandre Souza Ventura, Especial para O Estadão

04 Abril 2015 | 12h03

Atualizado às 14h59.

SANTOS - Mais um tanque está em chamas no pátio da Ultracargo, em Santos, litoral sul de São Paulo. Segundo a empresa, o tonel armazena gasolina e fica em um grupo de quatro tanques, ao lado dos outros quatro incendiados desde quinta-feira (em dois, o fogo já foi extinto). Desta forma, quatro tonéis pegam fogo neste momento, em diferentes bacias de contenção. Ao lado do quarto tanque incendiado há ainda mais dois. Um deles vazio e o outro contém etanol, e ambos não foram afetados até o momento.

No terceiro dia de combate ininterrupto ao incêndio nos tanques da Ultracargo, o Corpo de Bombeiros mantém o trabalho de resfriamento dos tanques, porque ainda não é possível extinguir o fogo. Na área, a temperatura chega a 800ºC, o que provoca a evaporação da água. Além disso, há o risco permanente de ignição espontânea do combustível, por causa do calor. No caso da gasolina, esse fenômeno ocorre quando a temperatura chega a 257ºC e, para o etanol, 371ºC. As equipes usam uma espuma especial para tentar abafar as chamas.

No começo da manhã deste sábado, a nuvem de fumaça estava aparentemente menor e já não era vista em longas distâncias, mas voltou a ganhar força. Moradores da área relatam na internet que as labaredas voltaram a crescer. Desta forma, permanece o esquema de resfriamento continuo, aguardando que o combustível armazenado seja consumido. A área atingida fica perto do Porto de Santos e da Rodovia Anchieta. 


Caminhões-pipa da Sabesp e da Petrobrás estão no local para garantir a continuidade dos trabalhos caso ocorra algum problema no abastecimento feito pela embarcação Governador Fleury, que está transferindo água do mar para as viaturas dos bombeiros. Representantes do Corpo de Bombeiros, da Prefeitura de Santos, Cetesb, Polícia Militar, Guarda Portuária e Ultracargo se reuniram para avaliar a situação.

O incêndio começou por volta de 10h da quinta-feira,2, após uma explosão. Mais de 100 homens, com o uso de 40 viaturas, mantêm o combate constante. Também participam a brigada de incêndios das indústrias de Cubatão e a Guarda Portuária. Desde o começo do incêndio, a operação é complexa e perigosa. Em todo o pátio são aproximadamente 50 tanques, cada um com capacidade para armazenar 6 milhões de litros de combustível. Existem áreas específicas para contenção do combustível vazado, mas essas bacias já estão cheias. Em determinados momentos do dia o vento empurra o fogo para tonéis que ainda não foram atingidos.

No começo da noite dessa sexta-feira, 3, os bombeiros conseguiram apagar o fogo em dois dos cinco tanques atingidos pelas chamas. Apesar disso, segundo os Bombeiros, o incêndio ainda não está controlado. A coordenação da operação evita fazer previsões sobre o fim dos trabalhos, mas há expectativa de que dure mais dois ou três dias.

Na quinta-feira à noite, um tanque desabou e o combustível ficou espalhado, dificultando ainda mais a contenção das chamas. Novas explosões foram registradas na manhã dessa sexta-feira. Na região do incidente houve chuva de cinzas, sujando carros e roupas. Segundo especialistas, não se trata de resíduo tóxico, mas de algo parecido com carvão. De qualquer forma, há recomendação para que as pessoas evitem exposição ao material.

De acordo com a Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp), o movimento de navios no canal do estuário permanece interrompido no local do incêndio. Os cinco navios removidos da área pela Praticagem continuam na Barra de Santos, aguardando autorização para retornar. A Codesp reforça que o Porto de Santos funciona normalmente.

Contaminação. A Prefeitura de Santos usou o Facebook para tentar tranquilizar a população sobre os possíveis problemas ambientais causados pelo incêndio. Em vídeo gravado próximo ao pátio da Ultracargo na sexta-feira, 3, por volta de 23h, o prefeito Paulo Alexandre Barbosa (PSDB) elogia o trabalho do Corpo de Bombeiros e afirma que, naquele momento, o incêndio estava "estável e sob controle".

Barbosa ressalta que a administração municipal acionou a Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (CETESB) para monitorar a qualidade do ar nas proximidades do incêndio e em outras regiões da cidade. "Não há comprometimento da qualidade do ar para a população, em nenhum ponto da cidade", diz o prefeito. Em entrevista coletiva concedida neste sábado, 4, no local do incêndio, a secretária estadual de Meio Ambiente, Patricia Faga Iglecias Lemos, também descartou haver risco para a população.

Para Antônio Carlos Vendrame, professor, engenheiro e especialista em segurança no trabalho, saúde e meio ambiente, o maior risco está em possível vazamento do combustível para o solo. "A coluna de fumaça assusta porque é grande e escura, mas a quantidade de oxigênio na atmosfera e na Serra do Mar é muito maior. Por isso, há possibilidade de dano ambiental é desprezível. O alerta é necessário para a possibilidade de vazamento do combustível no solo. Essa sim seria uma catástrofe", explica Vendrame.

Especialista na Norma Regulamentadora (NR 20), do Ministério do Trabalho - que trata da segurança e saúde no trabalho com inflamáveis e combustíveis -, o professor ressalta a importância de haver, em locais como o pátio da Utracargo atingido pelo incêndio, atenção especial aos riscos de acidentes, com inspeções e manutenções constantes. "Um item fundamental diz respeito à segurança na construção e montagem. A norma existe desde 1978 e foi atualizada em 2012, mas muitas empresa não seguem essa lista, que é muito completa, com 20 itens", diz. Segundo o engenheiro, o processo de investigação do acidente deverá apurar as responsabilidades da empresa.

A Cetesb informou nessa sexta-feira, 3, que foram registradas mortes de peixes no canal do estuário da Alemoa, mas a Companhia minimizou o incidente, sem explicar os motivos. De acordo com Antônio Carlos Vendrame, a distância entre o local do incêndio e o mar, 600 metros, descarta a possibilidade da alta temperatura ser a causa.



Empresa. A Ultracargo, empresa responsável pelos tanques que estão em chamas desde 10h de quinta-feira, 3, em Santos, litoral sul de São Paulo, tem quase 50 anos de vida. É a líder nacional em armazenamento de granéis líquidos. Na área industrial da Alemoa onde ficam os tonéis, a companhia mantém 175 tanques, cada um com capacidade para 6 mil metros cúbicos, ou 6 milhões de litros. Estão guardados no local etanol, gasolina, óleo diesel, óleos vegetais e fertilizantes líquidos.

Dos cincos tonéis incendiados, quatro estão dentro da mesma bacia de contenção. O quinto tanque está na bacia ao lado, que tem mais três. O muro de contenção entre as bacias é feito de concreto e tem mais de três metros de altura. No começo da noite de sexta-feira, o Corpo de Bombeiros consegui apagar o fogo em dois tanques da mesma bacia, que já estavam mais vazios.

Durante o combate ao fogo, não é possível nenhuma outra operação, inclusive a transferência dos líquidos. A única possibilidade e aguardar o fim do incêndio. Por isso, o resfriamento da área é fundamental. Naquele local, os tanques contêm etanol e gasolina. Por causa da grande quantidade de combustível e da alta temperatura, em torno de 800ºC, existe a preocupação constante de que o calor atinja o ponto de ignição espontânea. Para a gasolina, esse processo acontece a 257ºC e, com o etanol, a 371ºC.

Tudo o que está armazenado no pátio da Alemoa pertence aos clientes da Ultracargo. Por questões contratuais, que garantem o sigilo, a empresa não informa nome ou área de atuação de seus contratantes. O prejuízo causado pelo incêndio ainda não foi contabilizado porque a Ultracargo afirma ter, neste momento, foco somente no combate ao fogo, mas empresas deste porte costumam ter apólices de seguro para eventuais acidentes. No caso da Ultracargo, nenhum porta-voz veio a público para dar explicações.

No que diz respeito a possível desabastecimento, a Ultracargo diz não haver essa possibilidade, porque a quantidade de combustível perdida é pequena, perto do total armazenado no patio da Alemoa.

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