Incêndio em favela no centro de SP deixa 1 morto, 4 feridos e 200 famílias na rua

Suspeita é que moradora tenha provocado o fogo - ela foi ameaçada de linchamento; um bombeiro acabou atingido na cabeça

BRUNO RIBEIRO, WILLIAM CARDOSO, O Estado de S.Paulo

23 Dezembro 2011 | 03h02

Um incêndio destruiu quase metade dos 600 barracos da Favela do Moinho, em Campos Elísios, região central de São Paulo, na manhã de ontem. Uma pessoa morreu e outras quatro - incluindo um bombeiro - ficaram feridas. Pelo menos 200 famílias ficaram desabrigadas e 11 pessoas foram resgatadas do fogo por helicópteros da PM. A principal hipótese é de que o incêndio tenha sido criminoso.

O fogo teria começado nas proximidades de um prédio ocupado pelos moradores da favela no centro da comunidade. Bombeiros de toda a cidade ajudaram no combate às chamas, que começaram pouco depois das 9 horas. A favela ocupa uma área de 30 mil m² - 6 mil m² (20%) queimaram.

Não havia informações sobre o morto, encontrado dentro do prédio, carbonizado. A busca por corpos será retomada hoje. Os três civis feridos pularam do prédio em chamas. Duas pessoas tinham sinais de intoxicação e uma sofreu fratura. Ninguém corria risco de morte.

Uma das feridas é a dona de casa Andrea Patrícia Pereira Moreira, de 41 anos. Ela morava no primeiro andar do prédio. O filho dela, Jefferson, de 25 anos, conta que havia saído de casa e viu o incêndio pela TV. Só encontrou a mãe após procurá-la em dois hospitais.

O prédio era habitado por cerca de 600 pessoas - parte delas, segundo os moradores, oriunda de despejos de outras ocupações. A Prefeitura prometeu cadastrar os desabrigados em programas sociais e ofereceu abrigo ou auxílio-moradia.

Durante os trabalhos de combate ao fogo, o soldado Ricardo da Conceição, de 38 anos, foi atingido na cabeça por uma televisão que foi arremessada por um dos moradores. O acidente aconteceu quando as famílias tentavam salvar eletrodomésticos de seus barracos. Conceição, que tem dez anos de serviço como bombeiro, foi levado para o Hospital das Clínicas, em Pinheiros, zona oeste, e permanecia até ontem em estado de observação.

Linchamento. No fim do dia, a mulher acusada de ter colocado fogo no barraco, chamada apenas de Jussara, retornou à comunidade e escapou por pouco de ser linchada pelos moradores. Com a cabeça coberta por uma peruca de palhaço, foi perseguida pelo povo e levada pelos becos até um barraco.

Chamaram então o líder comunitário Humberto Rocha, de 39 anos, para evitar que a mulher fosse linchada. Com a ajuda de alguns colegas, ele tirou a suposta incendiária da favela e a entregou à Guarda Civil Municipal. "Ela foi reconhecida pelas pessoas, que a ouviram gritar que tinha botado fogo no barraco. Foi a segunda vez. Mas, como representante da comunidade, não permitiria que ela fosse morta", diz Rocha.

Perdas. O desespero tomou conta de quem perdeu o pouco que tinha. "Estou grávida, com quase nove meses, meu filho pode nascer a qualquer momento e não tenho mais nem como vesti-lo", afirmou Tainá da Silva Almeida, de 16 anos, que morava na área atingida pelo fogo.

O grupo evangélico Cristolândia e o católico Aliança de Misericórdia, que desenvolvem trabalhos sociais na comunidade, foram os primeiros a ajudar os moradores. "O verdadeiro presépio é aqui, não na Avenida Paulista. Mais uma vez, Jesus nascerá no meio da pobreza. É um escândalo", disse o padre Julio Lancellotti, que foi prestar solidariedade.

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