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Incêndio destrói parte do acervo de galpão da Cinemateca Brasileira, na zona oeste de SP

Corpo de Bombeiros diz que fogo durante manutenção de ar-condicionado do local e chamas consumiram acervo de três salas; Secretaria de Cultura diz que Polícia Federal vai apurar o caso

João Ker, Julia Marques e Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2021 | 18h51
Atualizado 29 de julho de 2021 | 22h55

Um incêndio destruiu parte do acervo de um galpão da Cinemateca Brasileira na Vila Leopoldina, na zona oeste de São Paulo, na noite desta quinta-feira, 28. Pelo menos três salas do 1º andar – duas de filmes históricos e uma de material impresso e documentos – foram consumidas pelo fogo. Segundo o Corpo dos Bombeiros, as chamas começaram durante manutenção de um ar-condicionado em uma sala da instituição, a mais antiga do tipo na área de cinema na América Latina. Não houve vítimas e as chamas já foram controladas. O governo federal disse que pediu à Polícia Federal para apurar o caso. 

Nos últimos anos, artistas e funcionários da Cinemateca têm alertado para a precariedade da estrutura, falta de investimentos, e risco de incêndio. Ainda não há confirmação se o acervo queimado era formado por cópias ou por originais. 

As chamas atingiram três salas de área entre 300m² e 400m². O andar térreo não foi afetado. “Estamos apurando o que foi queimado e o que foi preservado nessas três salas, mas provavelmente não foi preservado nada”, afirmou a capitão Karina Paula. A corporação ainda apurava ontem se o local tinha alvará de incêndio. 

Segundo a capitão, funcionários que realizavam a manutenção no local tentaram conter o fogo com extintores, mas não conseguiram por se tratar de material bastante inflamável. A empresa terceirizada foi contratada pelo governo federal. A capitão afirmou que o princípio de incêndio foi causado por uma falha técnica no serviço e os bombeiros foram acionados depois que o incêndio se alastrou por três salas.

Em nota, a Secretaria Especial da Cultura diz "lamentar profundamente" e "acompanhar de perto" o incêndio que atinge um galpão da Cinemateca. O órgão alega ainda que "todo o sistema de climatização do espaço passou por manutenção há cerca de um mês como parte do esforço do governo federal para manter o acervo da instituição". 

A secretaria também diz ter solicitado o apoio da Polícia Federal na investigação das causas do incêndio e que "só após o seu controle total pelo Corpo de Bombeiros" poderá determinar "o impacto e as ações necessárias para uma eventual recuperação do acervo e, também, do espaço físico". O governo federal, por meio da Secretaria, também reafirma o seu "compromisso com o espaço e com a manutenção de sua história".

O secretário especial de Cultura, Mário Frias, afirmoum suas redes que "irá tomar as devidas providências para verificar se o incêndio foi criminoso ou não". Confira abaixo: 

 

Ex-funcionários alertaram para risco de fogo

O prédio no número 290 da rua Othão, na Vila Leopoldina, foi doado à Cinemateca em 2009, pela Secretaria do Patrimônio da União. Com área total de 8.400 metros quadrados, dos quais 6.356 são de área construída, ele passou a abrigar dois anos mais tarde as reservas específicas de guarda de acervos, áreas de processamento de acervos fílmicos e documentais, laboratório de impressão fotográfica digital e demais instalações administrativas, de apoio e serviços da instituição.

Com a função de preservar e difundir o acervo audiovisual brasileiro, a Cinemateca Brasileira é administrada hoje pela Secretaria Nacional do Audiovisual, braço da Secretaria Especial da Cultura e subjugada ao Ministério do Turismo. Há dois anos, o contrato que a Associação Roquette Pinto (Acerp) mantinha com o Ministério da Educação para a gerência da instituição não foi renovado. O governo federal prometeu lançar novo edital para a função, mas a promessa nunca saiu do papel.

Em maio do ano passado, ao demitir Regina Duarte da Secretaria Especial da Cultura, o presidente Jair Bolsonaro declarou em vídeo, ao lado da atriz, que ela passaria a "fazer a Cinemateca". Ela não assumiu a função. Já em agosto, o governo federal denitiu todos os funcionários que trabalhavam na instituição, alguns com décadas de carreira, e o portal oficial da Cinemetaca foi retirado do ar.

Ainda em 12 de abril deste ano, os ex-funcionários da Cinemateca Brasileira publicaram um manifesto alertando para "os riscos que correm o acervo, os equipamentos, as bases de dados e a edificação da instituição". "O risco de um novo incêndio é real. O acompanhamento técnico e as demais ações de preservação, inclusive processamento em laboratório, são vitais", diz o comunicado, que atenta também para o teor inflamável dos e da possibilidade de autocombustão das películas.  

O professor Carlos Calil, presidente da Sociedade Amigos da Cinemateca, acompanhava na noite desta quinta o trabalho dos bombeiros. Ele afirmou que os filmes guardados no galpão se tratam de cópias e não originais, mas lamentou o dano que o fogo causou a documentos irrecuperáveis do próprio governo federal, mais especificamente do Conselho Nacional do Cinema, criado em 1976 e extinto em 1990. "Não se tem mais memória dessa política desenvolvida no período."

Calil explica que os originais dos filmes atingidos pelo incêndio são mantidos na sede da Cinemateca, em Vila Mariana. Ali, na Vila Leopoldina, eram armazenados itens "secundários", mas não menos valiosos, como processos de órgãos públicos, documentos do Instituto Nacional do Cinema, da Embrafilme, cópias de difusão (películas para cinema), aparelhos antigos de projeção e equipamentos de transmissão. Ele afirma também que apenas uma sala de todo o prédio estava equipada com climatização para armazenzar esse acervo, e o resto do material era distribuído em salas comuns. 

"Durante anos, o governo nunca deu bola para isso. E a documentação não foi processada, foi para a Secretaria do Audiovisual que não fez nada, só mudou de lugar e não deu dinheiro para contratar o serviço necessário", afirma Calil.

Ainda em 2016, um dos galpões da Cinemateca foi atingido por um incêndio que destruiu mil rolos de filmes, correspondentes a 500 obras - a maior parte cinejornais. 

Nas redes sociais, o governador João Doria (PSDB) classificou o incêndio na Cinemateca como "um crime com a cultura do País" e fruto do "desprezo pela arte e pela memória do Brasil".

Já o secretário municipal de Cultura, Alexandre Youssef, declarou: "Se se confirmar que o incêndio é fruto da falta de manutenção que nós e todo o setor audiovisual já tínhamos anunciado, vamos perceber que essa é mais uma ação de ataque à cultura e ao patrimônio cultural brasileiro por parte do governo federal, que tem uma linha ideológica completamente distanciada da cultura brasileira. É a crônica de uma tragédia anunciada."   

Cronologia da Cinemateca Brasileira

  • 1940

Origem da Cinemateca quando Paulo Emílio Sales Gomes, Décio de Almeida Prado, Antonio Candido de Mello e Souza, entre outros, fundam o Primeiro Clube de Cinema de São Paulo, que se propõe a estudar o cinema como arte independente por meio de projeções, conferências, debates e publicações.

  • 1941

O Primeiro Clube é fechado pelos órgãos de repressão da ditadura do Estado Novo.

  • 1946

O Segundo Clube de Cinema de São Paulo é criado por Francisco Luiz de Almeida Salles, Rubem Biáfora, Múcio Porphyrio Ferreira, Benedito Junqueira Duarte, João de Araújo Nabuco, Lourival Gomes Machado e Tito Batini, buscando estimular o estudo, a defesa, a divulgação e o desenvolvimento da arte cinematográfica no Brasil.

  • 1949

É aprovado um acordo entre o recém-criado Museu de Arte Moderna de São Paulo – MAM/SP e o Clube, para a criação da Filmoteca do Museu de Arte Moderna de São Paulo.

  • 1951

Paulo Emílio é nomeado vice-presidente da FIAF – Federação Internacional de Arquivos de Filmes.

  • 1954

Paulo Emílio assume a direção da Filmoteca, como conservador-chefe, contando com a ajuda de Rudá de Andrade e Caio Scheiby.

  • 1956

A Filmoteca se desliga do Museu de Arte Moderna, transformando-se em Cinemateca Brasileira, uma sociedade civil sem fins lucrativos. 

1957

Em 28 de janeiro, um incêndio causado pela autocombustão sofrida pelos filmes em suporte de nitrato de celulose destrói suas instalações na Rua Sete de Abril.

1961

A Cinemateca torna-se uma fundação, personalidade jurídica que lhe permite estabelecer convênios com o poder público estadual. 

1962

Criação da Sociedade Amigos da Cinemateca – SAC, sociedade civil cuja finalidade é auxiliar financeiramente a Fundação Cinemateca Brasileira.

1969

Em 18 de fevereiro, acontece o segundo incêndio, na instalação no portão 9 do Parque do Ibirapuera com perda de diversos materiais documentais em suporte de nitrato.

1976

A Fundação Cinemateca Brasileira tem o reconhecimento de seu caráter de utilidade pública pelo município de São Paulo.

1982

No dia 6 de novembro, ocorre o terceiro incêndio, que agrava as dificuldades financeiras da instituição e levam à defesa de sua incorporação ao poder público.

1984

A Fundação Cinemateca Brasileira é extinta e incorporada, como órgão autônomo, à Fundação Nacional Pró-Memória.

1988

O prefeito Jânio Quadros cede à instituição o espaço do antigo matadouro da cidade. Após nove anos de reformas, a sede da Cinemateca Brasileira é definitivamente instalada na Vila Clementino.

2003

A Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura incorpora a Cinemateca Brasileira.

2008 a 2013

A Cinemateca Brasileira dá um grande impulso nas suas atividades de preservação e difusão de acervos, bem como na infraestrutura, graças a recursos investidos pelo antigo Ministério da Cultura, em parceria com a Sociedade Amigos da Cinemateca.

2013

Sob gestão de Marta Suplicy, a Cinemateca passa por uma auditoria do Ministério, tem seu diretor exonerado e vê a suspensão no repasse de verbas do Ministério da Cultura para a entidade, causando a demissão de 43% do corpo de funcionários. É o início da crise que dura até os dias atuais.

2016

Em 3 de fevereiro, ocorre o quarto incêndio, resultando na perda de 731 títulos, em mil rolos rolos de filmes em nitrato de celulose. Do total, 461 obras tinham cópias; o restante se perdeu

2016 a 2017

O antigo Ministério da Cultura, através de sua Secretaria do Audiovisual, assina contrato com a Associação de Comunicação Educativa Roquette Pinto (Acerp), organização social qualificada pelo Ministério da Educação, para execução de um projeto de preservação e acesso de acervos audiovisuais, da Cinemateca Brasileira.

2018

Em março é assinado Contrato de Gestão, parceria entre o antigo Ministério da Cultura e o Ministério da Educação, em que a Cinemateca passa a ser administrada integralmente pela Acerp por um período de 3 anos.

Maio de 2020

A Cinemateca divulga documento pedindo socorro

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