Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Incêndio atinge favela em Sapopemba, na zona leste de São Paulo

Um corpo foi encontrado carbonizado em meio aos barracos que pegaram fogo; centenas estão desabrigados

Marco Antônio Carvalho, Felipe Resk e Larissa Fafá, O Estado de S. Paulo

01 de outubro de 2014 | 07h45

Atualizado às 16h10

SÃO PAULO - Foi somente quando desceu do ônibus às 6h30 voltando do trabalho que o vigilante Bruno Braga de Oliveira, de 29 anos, notou que havia alguma coisa errada com a favela onde morava. De longe, viu um "fumaceiro preto" e pressentiu a tragédia. A comunidade "Famílias da Juta", que contava com 205 famílias, estava sendo varrida pelo fogo.

"Desci no ponto e já fui vendo fumaceiro preto. Vim correndo e me deparei com a tragédia", falou depois que o fogo já tinha sido controlado pelo Corpo de Bombeiros, por volta das 9h desta quarta-feira, 1º. Se ter a casa e os pertences destruídos em um incêndio abalaria qualquer um, para Oliveira, que morava na área com a mulher e seis filhos, a situação ganhou ainda um agravante: foi ele quem há três anos e quatro meses invadiu o terreno baldio e instalou o primeiro barraco.

"Minha mulher disse que acordou com o fogo já na cama dela. Só deu tempo para salvar o berço e a máquina de lavar", disse. Ainda não se sabe o que deu início ao incêndio que ganhou força nas primeiras horas da manhã desta quarta. Estima-se que ao menos 70% de todas as casas e barracos do local tenham ficado totalmente destruídos e moradores falam que uma briga entre um casal ouvida durante a madrugada pode ter sido a causa da ocorrência. Um homem, cuja identidade ainda não é conhecida, não conseguiu deixar sua casa e morreu carbonizado.

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A favela ocupava um terreno no bairro Fazenda da Juta, na zona leste de São Paulo. Às pressas, moradores retiraram o que conseguiram e colocaram na via pública e calçadas próximas. Mas muito ficou para trás. Da janela do barraco do pedreiro Ediel Silva Oliveira, de 34 anos, localizada em um nível um pouco acima das demais casas, dava para ver o estrago. Eram ferros retorcidos que se misturavam a restos de fogões, geladeiras e outros eletrodomésticos.

Na casa do pedreiro, o fogo chegou a queimar uma das paredes, mas foi contido antes que avançasse e continuasse seu caminho de destruição. "Eu estava dormindo e acordei com o estalado das telhas ali. Só tive tempo de sair acordando todo mundo e deixar a casa", disse. Oliveira mora com a mulher e três crianças e assistia ao trabalho de rescaldo dos bombeiros ali perto.

Mesmo sem autorização da polícia e da Defesa Civil, que cercavam a área, moradores voltavam ao local para procurar por documentos e pertences que ainda pudessem ser aproveitados. Procuravam também por animais de estimação, cujas coleiras não foram soltas por falta de tempo diante da urgência em deixar a área.

Das pequenas vielas que davam acesso à favela se via um córrego de água negra, que misturava cinzas dos barracos e pedaços irreconhecíveis do que foram objetos das famílias. No terreno, apenas poucas paredes de tijolo e cimento resistiram às chamas e ainda estavam de pé após o trabalho dos bombeiros. Duas delas formavam os banheiros construídos pelo pastor e fiéis de uma igreja no interior da favela.

Apesar do choque, o vigilante Bruno Oliveira já trabalhava na manhã desta quarta para retomar a vida. Separado por uma cerca improvisada, ouvia um grupo de moradores citarem seus nomes que eram imediatamente escritos em um caderno. Tratava-se da lista dos afetados pelo incêndio. "Daqui ninguém sai. Vamos reconstruir", falou Bruno. Pouco depois, a Defesa Civil Municipal assumiu a tarefa de cadastro das famílias para fornecimento emergencial dos insumos básicos de moradia e alimentação.

O vigilante se lembrou com um misto de orgulho e preocupação as mudanças e o crescimento da comunidade nos últimos anos. Ele estima que apenas cerca de 15 famílias pertençam ao grupo inicial que ocupou o terreno, cujo líder foi ele próprio há mais de três anos. De lá para cá, Oliveira relatou ter conseguido fornecimento de água, energia elétrica e rede de esgoto. Mas via com reticência o crescimento desordenado. "Tinha aumentado demais. Não conhecíamos mais as pessoas". 

Sentados na calçada da avenida Tenente Lauro Sodré, alguns moradores aguardavam a vez para serem atendidos pela Defesa Civil. O gráfico Diego Pereira, de 27 anos, reclamava. "Vocês estão passando isso tudo aí na mídia, mas não vai acontecer nada com a gente. Nós estamos sem nada aqui. Agora é a gente por a gente mesmo", disse. Do seu lado o motoboy que quis se identificar apenas por Fábio, de 37 anos, concordava. "Tá todo mundo perdido. Não sei para onde eu vou hoje".

Assistência. O terreno invadido há mais de três anos pertence à Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU) do Estado de São Paulo e ainda não há informações sobre quais medidas serão tomadas em relação à área. Na manhã desta quarta, o prefeito Haddad destacou os trabalhos iniciais. "O que cabe à Prefeitura no caso é dar assistência às famílias, o que está sendo feito tanto pela Defesa Civil e pela assistência social, que garantem acolhimento, eventualmente cesta básica, para que as famílias possam ter ajuda no primeiro momento", disse.

A Defesa Civil informou que a região deve permanecer interditada em função do risco. A interdição também será válida para imóveis das proximidades que tenham sido parcialmente atingidos. A Polícia Civil esteve no local e ainda procura identificar a pessoa morta pelo incêndio. Moradores também não souberam informar quem era a vítima. O Corpo de Bombeiros destacou 25 viaturas, mais de 175 mil litros de água e cerca de 75 homens no combate às chamas. 

Piolho. Há menos de um mês, ocorrência similar havia destruído a chamada favela do Piolho, na zona Sul de São Paulo. O incêndio cuja causa ainda é desconhecida teve início no período da noite e devastou a área onde estavam cerca de 600 famílias. As pessoas foram deslocadas para abrigos e a Prefeitura se comprometeu a construir moradias populares no terreno. 

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