Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Presos ateiam fogo em colchões e provocam incêndio em CDP de Pinheiros

Grupo de Intervenção Rápida foi acionado para conter ato de indisciplina; feridos foram atendidos dentro da unidade

Felipe Cordeiro e Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

24 Julho 2017 | 13h18
Atualizado 25 Julho 2017 | 17h29

SÃO PAULO - Presos atearam fogo a colchões e provocaram um incêndio no Centro de Detenção Provisória (CDP) I de Pinheiros, na zona oeste de São Paulo, nesta segunda-feira, 24. Segundo a Secretaria da Administração Penitenciária (SAP), algumas pessoas sofreram ferimentos leves. Do lado de fora, familiares reclamaram de superlotação e das condições de encarceramento. A unidade abriga 1.383 detentos: o número representa 265,45% da capacidade, de 521 vagas, de acordo com dados da pasta.

O motivo da rebelião ainda está sob investigação, segundo a SAP. O Grupo de Intervenção Rápida (GIR) foi acionado após presos conseguirem abrir um buraco entre os pavilhões I e IV e dar início ao incêndio na unidade, localizada na Marginal do Pinheiros perto do cruzamento com a Marginal do Tietê, no período da manhã. Pouco depois, o motim já havia sido controlado pela tropa.

Equipes do Corpo de Bombeiros conseguiram controlar o fogo minutos após o início do incêndio. De acordo com a pasta, que classificou o episódio como “ato de indisciplina”, ninguém foi feito de refém.

Familiares, a maioria mães e mulheres dos presos, que foram entregar o “jumbo” (pacote de produtos e mantimentos) nesta segunda passaram a fazer vigília do outro lado dos portões. O número cresceu ao longo do dia com a chegada de parentes que assistiram às imagens do motim pela televisão. Cerca de 100 pessoas estavam no local, por volta das 16 horas.

“Cheguei aqui e vi aquele fogo subindo”, disse a desempregada Eugênia de Oliveira, de 52 anos, cujo filho de 19 anos foi preso em flagrante por tráfico de drogas, há sete meses. Desde então, não tem notícia dele. “Não consigo ver meu filho, vim aqui para tentar fazer a carteirinha de visita e não consigo.”

Segundo afirma, Eugênia tem enfrentado dificuldade para ser liberada a entrar no CDP porque tem passagem na polícia. Ela ficou presa por 6 anos e meio por tráfico. “Meu filho está sem jumbo, sem nada, porque não me deixam entrar”, disse. “Faz 10 meses que eu estou livre, não devo nada para a Justiça.”

 

Desespero. Mulheres eram vistas chorando e passando mal toda vez que uma ambulância deixava o CDP I de Pinheiros. Segundo a SAP, no entanto, os detentos que tiveram ferimentos leves foram atendidos por médico na enfermaria da própria unidade, sem necessidade de remoção externa.

Um agente penitenciário chegou a prestar informações pelo portão, por volta das 17h30. Ao grupo, disse que os presos haviam “quebrado a cadeia” e que estavam “sem almoçar até agora”.

Também houve protesto durante a saída de um ônibus e de dois veículos da SAP, que eram escoltados por sete viaturas da Polícia Militar. Aos parentes, funcionários da unidade negaram que os carros estariam transferindo presos envolvidos na rebelião para outros lugares. Até o início da noite desta segunda, o GIR permanecia na unidade.

Protesto. Para reivindicar informações sobre os detentos, o grupo chegou a bloquear a pista local da Marginal do Tietê por cerca de uma hora, entre 17h15 e 18h15. Com cartazes, eles exigiam notícias sobre o estado dos parentes dentro da unidade. “Queremos o diretor”, era o grito recorrente.

Da PM, o grupo ouviu que ninguém poderia entrar no CDP. Segundo contou o policial, havia feridos na unidade, alguns deles precisaram ser enfaixados, mas ninguém em estado grave. O policial também disse que os presos já haviam jantado. Eram 18h40.

Nesse horário, dois ex-detentos do pavilhão IV saíram pelo portão da frente, sob aplausos e gritos de “liberdade” dos familiares. Cercados, disseram que o dia na unidade em que estavam foi “tranquilo”. Na sequência, receberam R$ 2 de uma mulher para pagar um café.

O CDP de Pinheiros receberia nesta segunda mais 13 presos que vinham de delegacias de polícia. Por causa da manifestação, entretanto, estes detentos foram remanejados para outras unidades prisionais.

O CDP de Pinheiros instaurou um procedimento para apurar o caso, que também será investigado pela Corregedoria Administrativa da SAP. Segundo a pasta, a unidade "opera dentro dos padrões de segurança e disciplina".

Procurada, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) disse que as informações sobre a ocorrência ficarão concentradas na SAP.

‘Previsto’. Familiares também reclamaram que os presos não receberam o jumbo nesta segunda. Para a cozinheira Ivone Félix, de 42 anos, o motim estava previsto “pelas condições da unidade". "Está horrível, superlotado, só na cela do meu filho são 32”, afirmou. “A comida é azeda, tratam mal os familiares nas visitas.”

Ivone contou que foi para o CDP I de Pinheiro, onde está seu filho de 21 anos, depois de ver as imagens do fogo pela TV. “Eles estão presos porque erraram, mas não têm de passar por isso. Não estão pagando já?”

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