Hélvio Romero/Estadão
Hélvio Romero/Estadão

Com protesto, Haddad inaugura ciclovia embaixo do Minhocão

Com cartazes, moradores pediram a prefeito para desmontar o elevado; Haddad foi xingado por motoristas e pedalou até food truck

Felipe Resk, O Estado de S. Paulo

09 de agosto de 2015 | 14h53

SÃO PAULO - O prefeito Fernando Haddad (PT) inaugurou na manhã deste domingo, 9, a ciclovia de 4,1 quilômetros que passa sob o Elevado Costa e Silva, o Minhocão, e liga a Praça Roosevelt, no centro, ao Terminal Rodoviário Barra Funda, na zona oeste. O equipamento recebeu elogios dos usuários de bicicleta, mas também se tornou alvo de críticas de pedestres. Neste mês, a Prefeitura inicia obras para construção de ciclovia na Rua da Consolação. 

O evento deste domingo, que ainda foi marcado por uma manifestação de moradores a favor do desmonte do Minhocão, repetiu um dos principais conflitos políticos enfrentados por Haddad: ciclistas em festa e motoristas irritados. A nova ciclovia tem trechos na Rua Amaral Gurgel e nas Avenidas São João, General Olímpio da Silveira e Auro de Moura Andrade. 

Para o equipamento funcionar, foi preciso alargar parte do canteiro central, onde também ficam paradas de ônibus, além de instalar barras de proteção entre pedestres e ciclistas. A iluminação também foi ampliada e o local recebeu lâmpadas de LED. Ao todo, a obra custou R$ 7,7 milhões. 

Requalificação. Segundo Haddad, a ciclovia do Minhocão faz parte de um “processo de requalificação do centro”. A Prefeitura também afirma que acolheu os moradores de rua que viviam no local e se dispuseram a ir para abrigos ou voltar para suas cidades de origem. 

Vestindo camisa polo e calça jeans, o prefeito chegou com mais de meia hora de atraso na Amaral Gurgel, onde ciclistas o esperavam desde antes das 10 horas, horário marcado para a inauguração. No Dia dos Pais, ele apareceu acompanhado do filho, Frederico Haddad, e dava poucos sinais de que iria montar em uma bicicleta. 

No local, Haddad encontrou um grupo formado por cerca de 20 moradores que, com cartazes e faixas, pediam o fim do Minhocão, alegando sofrer transtornos por causa da poluição e do barulho do trânsito na região. “Essa iniciativas são importantes para chamar a atenção para o debate”, afirmou o prefeito a uma das ativistas, antes de se dirigir para uma coletiva de imprensa. Os manifestantes também entregaram uma carta pedindo ao prefeito que “tenha compaixão dos mais de 230 moradores e eleitores”. 

Enquanto Haddad falava com os repórteres, dois motoristas passaram pela Rua Amaral Gurgel xingando o prefeito em um intervalo de menos de dois minutos. Imediatamente, os participantes do evento reagiram com vaias. O prefeito continuou falando normalmente, como se não tivesse ouvido. 

“Às vezes, é por encomenda que se faz isso. Não vamos dar bola para uma minoria que não tem democracia”, afirmou, quando questionado se aquilo o incomodava. Também disse que havia temas mais importantes para se preocupar, como o caso dos seis haitianos baleados no Glicério, em um possível ataque xenófobo. “A cidade de São Paulo não pode tolerar esse tipo de coisa.” 

Por fim, Haddad pedalou até um estacionamento de food trucks, ao lado da Estação Marechal Deodoro do Metrô, onde comeu um hambúrguer e tirou fotos com várias pessoas. 

Repercussão. Enquanto esperava um ônibus para voltar para casa, a operadora de caixa Monique Lima, de 26 anos, reprovava a ciclovia. “Há muita criança, idoso e deficiente que atravessa aqui. Já não havia segurança, agora piorou”, disse. Para ela, as barras de ferro instaladas no local não são suficientes. “Quando menos se espera, uma criança sai de perto. Qualquer hora pode ter um acidente.” 

Apesar de elogiarem a iluminação e a sinalização do equipamento, ciclistas também se mostraram preocupados com os pontos cegos da ciclovia nos trechos em que há colunas do Minhocão. “Corre o risco de atropelar alguém”, disse Eraldo Ferreira, de 34 anos, que anda de bicicleta aos domingos. 

Já a tradutora Rosália Munhoz, de 58 anos, comemorava a instalação. “Acabei de encontrar uma vizinha que está feliz porque vai poder levar a filha para a creche de bicicleta e em segurança”, disse. Sobre possíveis riscos, Haddad afirmou que faria ajustes na ciclovia, caso fossem necessários. 

Consolação. No evento, o secretário Municipal de Transportes, Jilmar Tatto, informou que vai iniciar as obras na Rua da Consolação neste mês. A via deve passar por recapeamento e ganhar nova sinalização. 

Com uma faixa para bicicletas em cada sentido da rua, a ciclovia, que se conectará com a da Avenida Paulista, será instalada ao lado das calçadas, de acordo com Tatto. O primeiro trecho que deve ser construído ligará a Rua Caio Prado à Praça Dom José Gaspar, onde já há um equipamento instalado. 

Segundo Tatto, 265 quilômetros já foram construídos na cidade. A meta é chegar aos 400 quilômetros. “Nossa preocupação é fazer as conexões que faltam e investir pesado na periferia, ligando estações de trem e terminais de ônibus.” 

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